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06 Novembro 2009

OS DESPERDÍCIOS DE DÔRA
Ramon Limeira
Sobre a literatura de Dôra Limeira, concordo com o que li num comentário de Ronaldo Monte que dizia que ela tem, como matéria prima, os restos. Um poema chamado “O Apanhador de Desperdícios”, de Manoel de Barros, vem bem a calhar, para ilustrar o que é a escrita de Dôra, em minha opinião. Ela usa palavras para compor seus silêncios, conforme se pode constatar pela dedicatória do livro a todo aquele que, ao sufocamento desses silêncios da alma, prefere escrever. É a escrita de subsistência e de redenção subjetiva. Dôra, no entanto, compõe, com a sua literatura, outros silêncios, dos outros. Os silêncios de uma sociedade confrontada com injustiças, contradições e sofrimentos perenes. Mudez tanto de desvalidos quanto de remediados, estes calando aqueles, quase sempre. Ela não visa a salvar ninguém com seus contos. Quer fazer e faz literatura, e não panfleto. Suas personagens não conhecem trégua, amiúde aprisionadas numa realidade desgraçada contra a qual só ocasionalmente lutam, mas pagam um preço alto por avanços para cujo gozo não sobrevivem.
Dôra é uma apanhadora de desperdícios. Em seus contos, os excedentes excluídos do mercado ganham o proscênio. O sobejo desses corpos excedentes também inunda sua prosa. A geografia dessa literatura são os espaços periféricos marcados pela dinâmica entre sobra de gente e carência de tudo. Exploram-se as relações mãe-filho, mulher-homem, casa-rua, periferia-poder, nas quais a precariedade física, financeira e afetiva é a tônica. O humano está próximo à natureza; até pensamentos, valores e sentimentos podem ser contaminados por vermes e emporcalhados por dejetos. A fé é preservada na maioria das vezes, mas os sacerdotes são sutilmente ironizados. Embora a crença das personagens se mantenha, pouco se vê de retorno dos santos a essa devoção. Seja qual for a direção da mão que pede ajuda, não há poros por onde sejam escoados os males, de maneira que as fossas longamente acumuladas transbordam. Nada disso escapa ao âmbito da casa, refúgio contra o desconforto, o vexame e a vulnerabilidade que a rua impõe. Os grandes dramas sociais e os embates políticos não deixam perder de vista a dor individual, as necessidades imediatas de um só. É assim que, por exemplo, em “O chão de Menininha”, a conversa em tom de discurso da protagonista termina interrompido pela necessidade de dar o peito ao filho, e a perda de tudo decorrente do rompimento de uma barragem é suplantada por uma dor de dente.
É, portanto, mais ou menos dessa forma que os gemidos de uma vida inteira, de dentro e de fora, aproximam-se dos gemidos de todos os corações, lugares e tempos. Viva Dôra Limeira e sua literatura.
(Este texto foi lido pelo seu autor, Ramon Limeira, por ocasião do evento de lançamento do livro “Os Gemidos da Rua”, contos de Dôra Limeira)
João Pessoa, 30 de outubro de 2009.
02 Novembro 2009

ARRUME MINHAS COISAS QUE ESTOU VOLTANDO.
Eu sei disso, amor. Sei que você já me esperou muito, que você chorou tanto. Porém não chores mais. Eu volto para nossa casa na próxima semana, morto de saudade. Esse tempo que passei fora, senti falta de tudo. De seu beijo, das manhãs orvalhadas, as flores molhadas. Senti falta de nossa rua, saudade da lua nascendo nos fins de tarde. Eu pensava que aqueles raios eram somente meus. Tenho a lembrança de quando você ciciava ao meu ouvido, dizendo que me amava, que me queria. Você dizia que, em mim, tudo agradava, meu hálito morno, meu esperma viçoso, meu jeito de colher seu orgasmo em minha lingua. Senti saudades de quando enlouquecíamos na cama, você gemia, pedia mais. Ah, como sinto falta, estou quase chorando. Porém me espere, amor, que eu volto nos próximos dias.
Aqui em terras tão distantes, estou sempre lembrando nossa casa, lembrando as coisas que você me disse quando me despedi. Confesso a minha frieza, minha indiferença, eu só queria grandeza e fama. E nada me comoveu, nem suas palavras, nem as palavras de minha mãe, nem o olhar triste de meu pai me olhando de longe. Eu soube que meu pai nunca mais cantou depois que fui embora. Soube que ele não falou mais, que suas pálpebras foram derreando até que, um dia, morreu sem se despedir de mim.
Reconheço que eu quis ser grande. De repente, a cidade me pareceu acanhada, um ponto obscuro no mapa. Quis conhecer outras plagas, outras gentes, eu quis a fama, a glória. Pensava que, correndo meio mundo, iria me encontrar. Meus sonhos de grandeza me afastaram do que eu mais amava. Você, nossos amigos, meus pais, a atmosfera pacata da cidade, o oxigenio passeando em meus pulmões. Eu me afastei dos passarinhos cantando de manhã bem cedo, as frinchas das janelas de nosso quarto anunciando os primeiros sinais de cada dia. Distanciei-me da velha mangueira florida de nosso quintal que se preparava todo ano para me dar aquela manga-espada doce. Tive saudade do sumo da manga escorrendo pelos recantos da boca, descendo pelo queixo. Eu quis tanto ser alguém na vida, ter um lugar ao sol, eu queria ser conhecido e reconhecido por onde passasse. Mas tudo que consegui foi me perder, eu me tornei mais um dos que se estraviaram.
Hoje, eu enxugo minhas lágrimas e lhe peço, amor. Não chores mais, acalme esse seu sofrer. Tranquilize-se, aninhada debaixo de seu cobertor. Agasalhe-se que estou voltando para casa, assim morto de saudade. Eu errei quando larguei tudo para buscar a felicidade muito longe, eu não sabia que era feliz no enlaçar de nossas pernas, contente de poder conversar dentro de sua boca, dizendo para você se levantar e fazer um café bem forte. Eu nao sabia que a felicidade estava bem ali, pertinho de mim, num bule de café quentinho em cima daquele fogão rural, naquele pano bordado que cobria a mesa da cozinha.
No entanto, amor, tudo há de passar. A saudade, a ausência, essa vontade angustiosa de chorar. Arrume as coisas, espane a casa, passe a vassoura em tudo, limpe o quintal. É dezembro, é tempo de manga, eu conto os dias e as horas de chegar em casa, chupar uma manga espada bem madura, o sumo escorrendo.
Estou morrendo de saudade. Aqui nesta cidade grande comprei uma viola nova, uma sanfona moderna. Comprei roupas bonitas para me parecer atraente. Mas nada me satisfez, faltou alguma coisa. Descobri que minha felicidade estava no lugar que deixei, nas coisas simples e antigas, nos passarinhos cantando por entre as folhas do pomar, no chuveiro do banheiro sem porta, fechado com uma cortina de plástico. Eu era feliz com você que era minha mulher cheirosa quando se banhava. Se não se banhava, tinha cheiro de coisa natural nas axilas, no entre pernas, aquele odor que tanto me excitava.
Na próxima semana estarei chegando. Prepare minha viola velha, minha sanfona antiga que eu gostava de tocar. De tanto abandono, minhas coisas devem estar empoeiradas num recanto qualquer da casa. Eu quase morro de saudades de minha rede armada na varanda, cheirando a sol. Sinto falta de você me embalando, cantando qualquer canção de ninar. Eu ainda imagino minha rede cheirando a coisa bem lavada, bem guardada. Arrume tudo, querida, que este seu amor está voltando. Eu conto os dias, as horas e os metros de estrada que faltam para que eu chegue aos seus braços. Se, a cada anoitecer, eu não tiver chegado ainda, deixe a porta encostada para que eu entre sorrateiro e me aproxime de seu ressonar macio. Deixe o bule de café em cima do fogão, me esperando. Conserve sempre minha rede armada na varanda, as franjas balançando ao vento dos dias e das madrugadas. Organize tudo, que este seu amante vai voltar. Eu estou morrendo de saudade, querida, morrendo, morrendo, morrendo.
(Texto inspirado em “Fogão de Lenha”, de Carlos Colla / Maurício Duboc / Xororó).
Dôra Limeira
01 Novembro 2009

OS GEMIDOS DE DÔRA
Tem gente que sai para se distrair, outros vão às compras ou ao trabalho. Dôra sai para ouvir a rua gemer. E sabe o que Dôra faz com esses gemidos? Escreve livros com eles. E não é somente o novo livro de Dôra que guarda os gemidos do mundo. Desde “Arquitetura de um abandono”, de 2003, passando por “Preces e orgasmos dos desvalidos”, de 2005, até “O beijo de Deus”, de 2007, Dôra não faz outra coisa além de nos contar do sofrimento que vê e escuta pelas ruas.
Mas repare que Dôra não fala de gritos, uivos ou impropérios. Ela se faz portadora do sofrimento sofrido em surdina, nos becos, nos cômodos apertados das casas de vila, nos banheiros imundos, na solidão das noites suarentas.
“Os gemidos da rua”, o mais recente livro de contos de Dôra Limeira, tem uma catinga azeda das valetas por onde escorre a podridão dos detritos humanos. Cada personagem de Dôra geme como a quem se espreme um carnegão. Sem escândalos, pois não se espera que a mão pesada alivie a força do aperto. Geme-se apenas, com a resignação de quem sabe que a dor vai piorar.
Dôra dividiu os 59 contos do seu livro em três partes: Transgressão, Desvio e Intimidada. Não consegui adivinhar o critério que ela usou para tal divisão. Perguntem a ela. Pois, para mim, em qualquer parte em que se abra o livro, encontrar-se-á em cada personagem as qualidades da transgressão, do desvio e da intimidade. Isto porque, no meu fraco entender, estas são qualidades facilmente visíveis na própria Dôra.
Dôra cultiva a idiossincrasia de usar recorrentemente em seus contos o verbo “adentrar” nos mais diversos modos, tempos e pessoas. Em quase todos os seus contos o verbo cabuloso está lá, às vezes mais de uma vez no mesmo conto. Um psicanalista apressado diria que o verbo adentrar teria uma significação fálica, revelando um desejo de agressão que teria como suporte a pulsão de morte em atividade nos porões do psiquismo dôriano. Limitado ao meu humilde papel de apresentador do livro, revelo apenas minha suspeita de que Dôra usa “adentrar” para se vingar de alguém que um dia disse que o tal verbo soava inadequado na boca de uma personagem que vivia num lugar sujo e pobre. Acontece que o tal lugar era calcado no espaço em que a própria Dôra tinha vivido sua infância. E ela, Dôra, adentrava, sim, quando vivia ali.
Convido-vos, pois, a adentrar o livro de Dôra Limeira. Antes, porém, avisem aos familiares e amigos mais próximos que não estranhem qualquer mudança no seu modo de falar ou de andar pelas ruas. Seguramente, vocês não serão os mesmos quando saírem, gemendo, da leitura de “Os gemidos da rua”.
João Pessoa, 30 de outubro de 2009 Ronaldo Monte.
27 Outubro 2009
OS GEMIDOS DA RUA
A contista paraibana Dôra Limeira estará lançando seu novo livro - Os Gemidos da Rua no dia 30 de outubro de 2009 (6ª. Feira), na Livraria do Sebo Cultural, às 20 horas.
Em seu Os Gemidos da Rua, a autora tenta trazer a lume realidades que, por se esconderem atrás do óbvio, pouco são percebidas. Sussurros de pessoas velhas, de doentes terminais, de pessoas desagasalhadas palpitam nas páginas de Dôra Limeira. Através de suas histórias, a autora possibilita que o leitor, imaginariamente, escute os ruídos do cotidiano que perpassam cada linha de sua obra: os gemidos da fome, os murmúrios do abandono, das penúrias sexuais e afetivas. Essa ambientação humana está presente em todos os parágrafos de cada história e faz com que o leitor chegue a escutar o latejar da sociedade no que ela tem de mais underground. Para Dôra Limeira, todas as faltas de que sofre o ser humano, resulta na sobra de angústias. A sua obra parece estar sendo construída sobre estas pilastras. Não é por acaso que os seus três livros anteriores trazem estes títulos: Arquitetura de um Abandono (2003), Preces e Orgasmos dos Desvalidos (2005) e O Beijo de Deus (2007). Tomar contato com a obra de Dôra Limeira é enfrentar as íntimas dores trazidas para a rua, muitas vezes resultando em tensões sociais.
Todos os livros da autora foram editados pela Manufatura, com ilustrações de Vant da Tribo Ethnos. Os Gemidos da Rua, a ser lançado no próximo dia 30 de outubro de 2009, também editado pela Manufatura, traz na capa uma concepção gráfica do escritor e editor Geraldo Maciel (Barreto), recentemente falecido.
Dôra Limeira, paraibana de João Pessoa, é uma das fundadoras e agitadoras do Clube do Conto da Paraíba, que existe desde junho de 2004.
07 Setembro 2009
AOS QUE VISITARAM ESTE BLOGUE NOS MESES DE JUNHO, JULHO E AGOSTO/2009.
À boa amiga Tere Tavares, que por duas vezes esteve em minha cidade, grata por ter visitado este blogue mais uma vez. . Em nosso encontro presencial conversamos muito, sobre literatura, sobre a vida e principalmente sobre abobrinhas que ninguém é de ferro. Muita grata mais uma vez, Tere, por ter vindo, por ter visitado o Clube do Conto. Grata pelo seu comentário aqui no meu blogue. Abraço. Dôra Limeira
Pedro Luís (Lêla), muito agradecida pela sua visita ao meu blogue. Estou feliz por você ter gostado desta minha homenagem a Maria José, que é uma pessoa significativa para você e para todos nós da família. Abraço. Dôra Limeira
Assis, estou muito comovida de ver você visitando este blogue e de ver você interagindo da forma mais linda: através de poema. Sem outras palavras, muito agradecida. Abraço amigo. Dôra Limeira
Eis você de novo, Renan, criticando o conto sobre ficção cientifica, que fiz em parceria com o meu primo e amigo Ramon L. “Duas rubricas e um ponto final” foi um texto que demandou algum tempo para ser concluído e, de minha parte, me causou alguma dor ao escrevê-lo. O Ramon L. tem muita facilidade na escrita, mostrou-se um grande parceiro. Transmitirei ao Ramon L sua opinião que certamente o lisonjeará. Abração. Dôra
Lice Soares, muito prazer ver você aqui no meu blogue, lendo, comentando. Não sei quem é você. Não sei onde mora. Mas antevejo em você uma boa tendência para escrever. Continue assim. Venha mais vezes ao meu espaço, será uma alegria enorme recebê-la. Beijo. Dôra
Meu bom Renan, você é uma pessoa com quem me comunico muito bem sem ao menos conhecê-lo. Não me considero uma deslumbrada pela internet, mas devo reconhecer que, em alguns casos, a internet tem aproximado algumas pessoas. Quanto ao seu comentário ao meu “Parto normal”, eu me surpreendi. Sabe por que, Renan? Porque, eu particularmente, não gosto desse texto. Depois que li seu comentário, reli várias vezes, buscando encontrar nele alguma beleza. E não é que achei? Muito obrigada por tudo. Continue me analisando, criticando, comentando, usando dessa acuidade que lhe é pertinente. Eu gosto de pessoas exigentes assim. Muito obrigada, Renan. Abraços. Dôra Limeira
Mainieri, meu querido poeta gaúcho. Estamos aqui esperando que você repita a dose e venha nos visitar mais vezes. Você, como sempre, adentrando as vísceras de meus textos e personagens. Muito grata, Mainieri. Gratíssima. Beijo. Dôra
06 Setembro 2009
LÍRIOS NO TABLADO
Era Maria de Fátima, mas todos a chamavam de Sebinho. Corria o ano de 1951, quando Sebinho chegou à cidade grande. Não tinha nem doze anos ainda. A mãe era pequena agricultora, Sebinho era órfã de pai, tinha oito irmãos. Desde cedo acostumara-se com todas as vidas difíceis no interior, vidas divididas entre securas, enchentes, dias frios, dias quentes. Na cidade grande alojara-se em casa da tia Lolina, num lugar estranho, pessoas enigmáticas. A casa da tia ficava perto da estação de trem e da estação de ônibus, locais movimentados, pessoas embarcando, desembarcando, menino chorando de dor, de fome, desmaiando sem ar. Quando Sebinho chegou ao ponto final do ônibus, Lolina já a esperava, com uma bolsa a tiracolo, chupando chicletes, a blusa derreando na altura do ombro. Sebinho chegou num transporte da Empresa Mourense, ônibus velho, desmantelado.
Nos primeiros dias após a chegada, Sebinho deu de cara com uma estranha realidade na casa da tia. Levanta dessa rede, menina, cuida de tua vida. Cuidar da vida significava todo dia distribuir os panfletos de tia Lolina na rua, anunciando “as atrações do próximo sábado”. Passa um pente no cabelo, Sebinho, assoa o nariz. Que sujeira, limpa essa remela do olho. Era a ladainha de segunda a segunda, sol a sol. Quando não estava na estação de trem, Sebinho estava na estação de ônibus, distribuindo panfletos, cuidando da vida. Era magra, pernas finas, falava baixo. Perto de completar doze anos, os botões dos seios já endureciam, sensíveis. No sítio onde morava, brincando no terreiro com outras crianças, Sebinho deteve-se em si mesma e descobriu seu corpo, os cabelos, o entre coxas, as mãos, os pés, as zonas íntimas. Aprendeu os nomes dos dedos das mãos e gostava de repetir: dedo mindinho, seu vizinho, maior de todos, fura bolo, mata piolho. Desde muito pequena, aprazia-lhe lamber as mãos, calmamente sentindo o gosto salgado do suor. Mas, quando se via em situações arriscadas, quando tinha medo, apreensão, desconfiança, protegia-se sugando o “dedo maior de todos”, até que a extremidade embranquecesse e engelhasse. Sebinho experimentava prazer com aquele seu “dedo maior de todos”, percorrendo a cavidade aquosa da boca, um filete de saliva escorrendo. Deixa de chupar isso, sebosa, coisa mais feia. Tira o dedo da boca. Era como se a tia lhe fizesse um responsório a cada sugada.
Lolina tinha o corpo atarracado, pernas e braços roliços, muito hidratados. O sorriso fazia duas barrocas, uma em cada face do rosto redondo, a dentadura de plástico bem feita. Os cabelos se cacheavam na cabeça, quase encarapinhando. Tinha trejeitos naturais de atriz. Sua casa era, de fato, um pequeno e rústico teatro que funcionava todo sábado à noite. Por ser bem localizada, a casa recebia muita gente nos dias úteis. Nos sábados, o espaço lotava, porque era nos sábados que aconteciam coisas especiais. Na sala, havia alguns tamboretes toscos e um pequeno tablado redondo de cimento grosso, encimado por um letreiro luminoso que dizia assim: “Meu Teatrinho”. No cortinado de chitão do tablado estampavam-se figuras grandes, flores, frutas e dois animais selvagens, um em cada lado do cortinado. Junto ao tablado, via-se um balcão de bebidas e salgadinhos baratos, servidos à clientela por um rapaz afeminado com o avental sempre sujo de alguma coisa amarelada. Mais adiante, adentrando a casa, estendia-se um corredor estreito com luminárias fracas, ladeado por seis dormitórios, de onde saiam sons misteriosos de palavrões, gritos, risadas nervosas. Sebinho não sabia de nada e tinha medo. Menina, vá lá dentro e me traga uma vassoura, já. Para chegar até lá dentro, Sebinho atravessava o corredor, e sentia uma extensa agonia em linha reta. Usava o “dedo maior de todos” na boca como suporte, para não morrer. Na travessia do corredor de ponta a ponta, Sebinho, desesperada, só pensava em fugir, fugir, fugir, mas faltavam-lhe forças, faltava-lhe coragem. A menina dormia no último quarto do corredor, junto com a tia.
Todo sábado à noite, no descerrar da cortina de “Meu Teatrinho”, pequeno público masculino comparecia ao teatro e circulava entre a platéia e o balcão de bebidas. No tablado, Lolina, em traje mínimo, contava piadas obscenas, ria escancarada, entoava, desafinada, canções bregas com acompanhamento de um violonista e um percussionista, ambos embriagados no mais das vezes. O tablado servia exclusivamente para as exibições de Lolina aos sábados. As seis meninas subordinadas da casa atendiam aos homens nas mesas, nos quartos, nas camas. O ponto alto da função teatral era o desnudamento de Lolina que, soltando beijos e alisando os pontos íntimos do corpo, despojava-se da calcinha, do sutiã e do traje de lantejoulas em meio aos assovios, vaias, gestos obscenos e aplausos. Sebinho passava todo o tempo da função sentada no batente inferior da escada que dava acesso ao palco. Os homens assistiam os estripes de Lolina e se masturbavam na platéia, gulosos. Era nesse momento que as meninas de Lolina se atiravam em seus colos, numa esfregação de cachorros. No decorrer dos dias vendo aquilo, Sebinho se acostumara. Sentada no pé da escada que dava acesso ao tablado, Sebinho entrava num tédio de boi. Para se proteger, derreava as pálpebras e chupava o dedo “maior de todos”, até que o sono chegasse e ela se recolhesse para dormir, exausta.
Sebinho cresceu assim, entre a estação ferroviária e a estação rodoviária. Forjou seu corpo e sua alma varrendo a casa, espanando os moveis, em meio a bolinações, coitos escancarados. Preservou seu juízo chupando o dedo maior de todos, lambendo o mindinho, o vizinho, o fura bolo e o cata piolho. Lambia-se até que finalmente as pálpebras se prostravam de sono, exauridas.
Nessa lida, Sebinho tomou corpo, tornou-se moça bonita e sem estudos. Mal assinava o nome Maria de Fátima, em garranchos. Sem instrução e sem perspectivas de vida, Sebinho se quedava à mercê da tia Lolina que a explorava de várias maneiras. Ora limpava, ora lavava, ora seviciava-se nas mãos dos machos freqüentadores da casa que lhe pagavam de acordo com os serviços prestados, desde a simples bolinação até os adentramentos mais profundos.
Tia Lolina não viu quando o tempo passou, embevecida em seu palco mágico, ofuscada pelo letreiro luminoso do tablado. Não viu quando as rugas se aprofundaram, não sentiu a pele enflacidar. Cantava e dançava como se o tempo tivesse parado em 1951. Lolina não percebeu que os homens não mais a procuravam, preferindo Sebinho para suas safadezas. Com o decorrer do tempo chegou-se ao ano de 1981. O movimento do teatro decaiu, a cidade cresceu em outras direções, os trens foram desativados, a estação rodoviária mudou de lugar, foi para mais longe. A voz de Lolina se apagou gradativamente, o traje de lantejoula caiu fora de moda, o repertorio de piadas se tornou obsoleto. Lolina entrou em depressão. Um dia, chamou Sebinho em particular e confessou que estava cansada, que estava velha, sem futuro. E Lolina passou para Sebinho a responsabilidade de reorganizar a casa, gerenciar as meninas e o tablado. Numa segunda feira de movimento fraco, poucos clientes, Lolina recomendou que Sebinho não deixasse “Meu Teatrinho” morrer, que descerrasse o cortinado do tablado aos sábados e tocasse o barco. Após essa recomendação, Lolina se recolheu ao último quarto, no final do corredor e, sem fazer barulho, enforcou-se com o cinto do vestido de sua primeira comunhão. O corpo foi velado sobre o tablado, ladeado por duas velas de luzes mortiças. As meninas, trajando escuro, rodearam o caixão e rezaram, pedindo ao Senhor que tivesse piedade da alma de Lolina, que levasse as almas todas para o céu e que socorresse principalmente as que mais precisassem. Após o enterro, o estabelecimento permaneceu fechado por sete dias. No oitavo dia, a frente da casa amanheceu com uma faixa grande anunciando: “Casa do Meu Teatrinho”, nova administração sob a responsabilidade de Maria de Fátima”. Nunca mais alguém falou no nome de Sebinho. Ainda hoje Maria de Fátima chupa o “dedo maior de todos”, com medo.
Dôra Limeira
30 Agosto 2009
ABENÇOEM O LEITO DA MINHA CAMA.
Hoje é meu aniversário. Eu quero que todos estejam em minha casa. Forrem a mesa de aniversário com aquela toalha branca que desde muito tempo usamos em nossas festas de Natal e Ano Novo. Sim, aquela mesma toalha que me foi dada pelo meu filho. Hoje eu quero uma torta de abacaxi muito enfeitada com calda de caramelo por fora, com recheio de creme de maracujá. Uma travessa de frutas coloridas deve ornamentar a mesa e deve ser servida ao longo da comemoração. Quero a presença das vizinhas nessa festa, elas me têm grande apreço e sempre me foram prestativas em minhas necessidades. Para mim, é importante que meus filhos se acheguem junto à torta no centro da mesa e soprem a vela, com entusiasmo. É uma homenagem que estarão me prestando hoje, que estou completando 67 anos de vida. Estarei feliz se todos os meus familiares e amigos cantarem “Saudemos o grande dia que tu hoje comemoras. Seja a casa onde moras a morada da alegria, o refúgio da ventura. Feliz aniversário”. Quero Adeildo Vieira entoando “Companheiros, cruzem a porta da minha casa. Encham a sala de sorriso e de suor. Abençoem o leito de minha cama. No jardim, podem pisar na grama, sei que não pisam na flor.” Na festa de meu aniversário, eu quero meus sobrinhos tocando violão, cantando as músicas de que gosto. Que Francisco Limeira e Ana Regina cantem “Samba sem bem”, cantem “Talo de capim na minha boca”. Não esqueçam de cantar “Fogão de lenha”, em alto e bom som. São tantas as músicas, que chego a não lembrar de todas. Façam de conta que estou presente, recebendo os cumprimentos, solfejando as canções que sei solfejar, sendo abraçada e abraçando todos. No momento em que meus filhos estiverem achegados junto à torta de abacaxi para o sopro da vela, estarei perdoando a todos os familiares e amigos que, direta ou indiretamente, me ofenderam no decorrer dos tempos. Fiquem certos de que meu perdão será muito maior. Ao mesmo tempo estarei, em espírito, pedindo desculpas aos que magoei em algum momento da vida, atingindo-os com minhas palavras, pensamentos e ações. Agradeço de coração aos que puderem e quiserem atender a meu convite para participar da minha festa. Desejo que, por um fenômeno telepático qualquer, eu possa perceber as coisas que deverão acontecer. Que eu possa escutar as canções, ouvir as mensagens de parabéns, os aplausos. Que eu possa ver os sorrisos estampados nas faces de meus filhos, dos demais familiares e dos amigos. Se assim estou me expressando, é porque não sei o que me acontecerá amanhã. Neste leito de hospital, sem fala, sem mobilidade, com essa respiração artificial, alimentando-me através de sonda, eu não sei de nada. Não sei se vivo, não sei se morro. Não sei se durmo, se acordo. Tudo que eu quero neste momento é um copo de suco de laranja.
(Homenagem a Maria José Limeira que está aniversariando hoje, 30 de agosto)
Dôra Limeira
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