PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

LIVROS PUBLICADOS

Preces e orgasmos dos desvalidos (contos)

Arquitetura de um abandono

(contos)




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10 Julho 2009

VINGANÇA.


Dentro daquele latifúndio, filhos, agregados, empregados e cachorros, todos tinham medo de Petúnia, arrogante dona da terra. Naquele dia, pela manhã, Petúnia recusou ajuda para descer a escadaria e sua vista escureceu. O corpo despencou degraus abaixo. A quina de cada batente esmurrou sua cabeça. No hospital, constataram-se várias fraturas cranianas e morte cerebral. Petúnia tinha 86 anos. A família autorizou o desligamento dos aparelhos. Duas noites depois, aconteceu ruidosa festa no latifúndio de Petúnia. Uma orquestra animou o baile. Filhos, parentes, agregados, empregados, cachorros e meninos, todos dançaram, sem medo. Petúnia se aninhou na eternidade e não soube de nada.



Dôra Limeira



(do meu livro de mini contos “O Beijo de Deus”, Ed. Manufatura).



(a imagem foi recolhida do blogue adivinha.blogs.sapo.pt)





28 Junho 2009

AGRADECENDO AOS QUE ME VISITARAM ENTRE ABRIL E JUNHO/2009:



Ricardo Mainieri é poeta gaúcho, amigo virtual e presencial que tem me acompanhado desde meus primeiros contatos literários com a internet, em sites de literatura. Sou grata a você, Mainieri, por se fazer sempre presente, incentivando. E, sobretudo, sou-lhe agradecida por ter atendido ao convite para prefaciar meu segundo livro – Preces e Orgasmos dos Desvalidos. Muito obrigada por suas visitas frequentes ao meu blogue que é tão escondido e despercebido nos recônditos deste mundo virtual. Finalmente, grata por tudo, Mainieri. Um grande abraço e um beijo.



Tere Tavares é poeta natural do Rio Grande do Sul, atualmente morando no Parané, cidade de Cascavel. Tive o prazer e a sorte de conhecer a Tere num site de literatura, o mesmo site onde tive meus primeiros contatos com o poeta gaúcho Mainieri. Que achado. O ano passado a Tere esteve aqui em minha cidade – João Pessoa, e assim pudemos nos ver e conversar pessoalmente. Foi um contato rápido que precisa ser renovado. Você pretende voltar aqui no próximo mês de julho, Tere? Eu te espero. Sou grata pela visita e comentário ao meu blogue. Beijo.



Quanto à
dora de limeira... não a conheço, mas tive prazer imenso em ver seu comentário ao meu texto “Otila”. Muito grata, e volte sempre, dora de limeira. Beijo.



Ronaldo Monte, amigo, poeta, professor, psicanalista. Às vezes, dócil. Irascível, sempre. Desde meu primeiro livro que o Ronaldo tem me acompanhado, ora sugerindo, ora criticando, mas sempre contribuindo. Juntos, participamos do Clube do Conto da Paraíba, onde temos oportunidade de interagir mais, seja nos arranhando, seja nos alisando. Com desdém ou com carinho, mas sempre com amizade e cumplicidade. Grata, Ronaldo, por você ter visitado meu blogue e por ter se comovido com “Otila”. Grata pelo apoio de sempre. Beijo.

Um grande abraço a todos de

Dôra Limeira






05 Junho 2009





OTILA

Nasci nu e perfeito. Meus sinais eram vitais. Eu não tinha essa ferida deformando meu rosto. Quem fez isso comigo? Fale, Otila. Quem fez isso? Foi alguma doença, alguma maldição. Meus olhos eram azuis, cabelos lisos, castanhos-claros.



O som dos meus ossos se desmanchando percorre-me o corpo. Chega aos meus ouvidos. Se Deus, em sua louca decisão, ordenar que se derretam estes ossos, que coisas restarão de meu tênue esqueleto? O que restará, Otila?



Otila, venha me dizer, Otila, não me deixe. Cuide das minhas feridas. Mal posso levantar o que sobrou de meu corpo. Você jurou um dia que na saúde ou na doença. Você jurou isso. Na fartura ou na pobreza. Você jurou.




Otila, venha me banhar. Meu corpo cheio de escamas fede. Imagino o odor do desuso e do abandono. Minhas narinas se entorpecem, não tenho olfato. Mas vejo as escamas escorrendo secreções. Tudo me diz que meu corpo fede. Otila, tenha piedade. Olhe para meus cabelos. Estão colados de suor, poeira e pus. Onde o oxigênio? É muito pouco o ar que respiro. Otila, abra essas janelas. Abra, pelo amor de Deus. Chame um médico.



Perdi a intimidade com minhas partes íntimas. Tenho medo de que não respondam aos meus toques. Não sinto minhas reentrâncias nem minhas saliências. Onde estarão minhas pernas, meus pés? Minhas mãos dormitam numa leve dormência.



Otila, este é o resto do meu antigo corpo. Aquele corpo que lhe deu prazer, que trabalhou para manter você bonita. Você se orgulhou de mim. Porque eu fui bonito. Fui um homem trabalhador, esforçado. Otila, meu corpo foi o depositário de suas agonias que se liquefizeram em prazer. Meu corpo sussurou dentro do seu. Agora, o que restou de tudo? Estou gemendo de dor. Hoje, meu ser se desmorona e se desfragmenta à sombra de alguma praga.



Otila, não escuto você. Venha mais para junto. Olhe o que ficou do seu homem. Mas eu não fui sempre assim. Eu fui perfeito, fui bonito. Você se lembra. Você disse te amo. Eu respondi te amo. E agora? Olhe o que restou. Mas, sou a mesma pessoa. Sou seu marido. Sou o pai dos meninos. Onde estarão os meninos? Cresceram. Ou morreram. Eram tão bonitos, todos dois. Otila, o que você disse aos meninos? Eles nunca me consideraram. E eu sou o pai deles. Com certeza, você falou mal de mim. Disse aos meninos que sou um monstro, que sou desalmado. Otila, não sou monstro nem desalmado. Eu só tenho essa ferida no rosto, essas escamas mal cheirosas. Mas eu não fui constantemente assim, você sabe disso. Eu fui normal como qualquer pessoa, fui bonito, vigoroso. Você sabe perfeitamente disso. Por que não fala isso pros meninos? Por que? Eu ainda tinha muito amor pra lhe dar, Otila, se não fosse esta ferida no rosto e estas secreções saindo das escamas. Que sina, meu Deus. Que sina.



Otila percebo seu vulto passando junto à minha cama. Seu corpo tem contornos fortes. Saliências e reentrâncias hidratadas. Os músculos de seus braços roliços brilham de aquosidade. Ah, Otila. Seu corpo gostoso de beber. Eu chamo você, Otila. E você não olha para mim. Não me escuta. Chamo novamente Otila. E entro em desespero. Mergulho no pânico. Ajude-me, Otila. Estou morrendo, chame um médico.


(o desenho que ilustra o texto é de Vant)





29 Maio 2009




VIVA BARRETO


“Dôra, você está elegante neste seu traje amarelo, tom sobre tom.” Foi assim que Barreto me cumprimentou logo que desci do carro na porta da Escola Aruanda, nesse último sábado passado. Entre risos e brincadeiras, dirigimo-nos ao recinto da reunião do Clube do Conto.



Fizemos reunião normal, como se nada fosse acontecer que nos alterasse a rotina do dia a dia. Discutimos um pouco sobre literatura, um pouco sobre essa fase de refluxo do grupo e sobre a hipótese de buscarmos outro lugar para reuniões. Barreto ponderou as coisas com a serenidade que lhe foi sempre muito peculiar.



Chegamos a ler dois contos. Valéria leu o seu “Platéia”, eu li o meu “Uma tia misteriosa”. Durante todo o tempo que estive lendo meu conto, Barreto, como sempre costumava fazer, acompanhou a leitura com atenção e sua caneta riscou, sublinhou, anotou ao lado, sugeriu. Ah, Barreto, essa era uma de suas marcas, o companheirismo. Sentirei falta disso.



Eu gostava de chamar Barreto de "meu galã preferido", fazendo alusão à sua semelhança física com um ator chamado Edward G. Robinson, do cinema antigo. Notava-se que expressava sua boa vaidade com um discreto ar de riso. Barreto vai fazer falta às estranhas criaturas do Clube do Conto.




Geraldo Maciel, este era seu nome de cartório, foi o editor de meus três livros. Meu quarto livro estava em suas cuidadosas e meticulosas mãos para a edição.



Não sabíamos, mas naquele último sábado, Barreto estava se despedindo de nós, do Clube do Conto, sem nos dizer que viajaria no dia seguinte, domingo, às 10 horas da manhã. Já era noitinha quando encerramos a reunião e nos nos dissemos até logo. Despediu-se sem estardalhaços, assim como nos amou, sem alardes. Foi equilibrado, sóbrio, ponderado, inspirou confiança em todas as empreitadas que abraçou.



No que teria pensado Barreto em seu último e rápido instante? Na família? No apartamento novo? Nos amigos? Na literatura? No Clube do Conto? Nunca se vai saber. Agora, está dormindo. Que tenha um sono tranquilo.





Viva Barreto, sim.



Dôra Limeira





24 Maio 2009

UMA TIA MISTERIOSA



Quando eu era criança, tia Pepina administrava um hotel chamado Hotel Américo Vespúcio, que ficava perto do Teatro Sanhauá. Importante na época, o hotel hospedava gentes de destaque do Estado e até do país. Tia Pepina era pessoa exótica aos meus olhos de menina. Todo dia eu passava na porta do hotel a caminho da escola primária. Havia a recomendação explícita de minha mãe no sentido de que nem eu, nem nenhuma de minhas irmãs e nenhum de meus irmãos entrasse ali. Tia Pepina era separada do marido, dizem até que morava com outra pessoa. Ora, na década de 50, uma mulher separada do marido viver com outro homem representava o cúmulo da transgressão. Nós, a meninada, tínhamos muita curiosidade de conhecer o hotel de Tia Pepina, vontade de ver as coisas, de saber como era por dentro. Em nossa fantasia, o hotel devia ser grã fino. Tia Pepina era magrinha, desenvolta no andar e no conversar, assim ouvi dizer. Falavam que gostava de se maquiar ao modo de Carmem Miranda. Usava pulseiras e colares, balangandans coloridos, vários anéis. Arrumava os cabelos lisos em "trunfa", coisa muito em voga naquele tempo. Tia Pepina era figura que habitava o imaginário da meninada de meu tempo, mulher misteriosa. Eu cheguei a vê-la uma única vez, infelizmente quando já muito doente, perto de morrer, num hospital. Pálida e alquebrada, tinha-se-lhe estrangulado uma apendicite. Seu estado de saúde era grave, diziam as enfermeiras. No dia que eu a visitei com minha mãe de criação, fazia muito calor. Tia Pepina se agoniou, agitada e ofegante. Eu era criança ainda, mas percebi-lhe o desejo de dizer alguma coisa. O mormaço se tornou insuportável naquele momento. Minha mãe se chegou mais para perto de seus lábios tentando ouviu-lhe os sussurros. Mas, asfixiando-se, somente houve tempo de Tia Pepina dizer: “O ventilador, o ventilador, liguem o ventilador”. Veio a óbito sem saber que o ventilador
estava quebrado, faltando uma palheta, sem turbina.
(a ilustração foi tirada do site








13 Maio 2009

RÉQUIEM




Eles sofreram demais. Catapora, bexiga, maus vizinhos e falatórios. Sofreram crises de verminoses, meninos chorando com dor de ouvido. E entoaram a ladainha: “Não é nada, não é nada, um dia seremos ditosos”.



Perderam a casa própria, contrairam doenças malignas. Sofreram epidemias de tédio e dores de parto. Cansaram-se em filas da previdência. “Não é nada, não é nada, um dia seremos ditosos”. Depois de muitos responsórios e tantos padecimentos, assistiram quando os filhos se drogaram e a filha virou puta.



Já velhos e muito doentes, aposentaram-se. Não suportando os espasmos, gemeram os últimos estertores.
Mataram-se sem réquiens e sem ladainhas e reviraram os olhos.



(do meu livro O Beijo de Deus, ed. Manufatura, 2007)





17 Abril 2009



“NASCEU, É MENINA.”




Naquele dia 21 de abril, começo da noite, um trabalho de parto tem início em meio a dores, orações e panos mornos, numa casa modesta do Beco Mangueira, periferia da cidade. É um parto difícil, o sétimo daquela mãe pobre. Da cozinha ao quarto, do quarto à cozinha transitam panos e trapos ralos de uma vida, panelas furadas com água quente derramando, caldeirões velhos de água morna. As ajudantes de parto gritam “depressa vai nascer”. Uma oração ao pé do leito, uma vela e um escapulário no espaldar da cama são sinais desesperados de uma crença. A aflição e a fé em Deus se mesclam na dor. Confundem-se com as contorções e contrações, com os repuxos e puxões do agoniado trabalho de parto. Dói para fazer nascer. Misturada a panos sujos de sangue e lençóis amarelados de secreção, uma palavra de ordem se faz ouvir, irritada: “bote força, bote mais força, que está nascendo”. Dói para chegar à luz. Com esforço, a cabeça desponta na boca da cratera, está nascendo. “Nasceu, é menina”. Naquele feriado de Tiradentes, noite fechada de 21 de abril, o estertor de quem nasce reboa pelo corredor da casa, vai à praça, invade as ruas, os becos. O grito faz vibrar os sinos da matriz. “Nasceu”. É menina e, arroxeada, expele a primeira lufada da respiração. Após a consumação do fato, o cheiro insosso do parto normal impregna as paredes da casa, esfrega-se nos gemidos da rua. Fedem os adultos e crianças do Beco Mangueira, fede a agonia de nascer. Daquela noite em diante, a cada feriado de 21 de abril, o Beco recorda o nascimento da menina.



Quando ainda criança, tem o perfil delicado, quase perfeito, linda menina. Fina e educada com as pessoas de seu universo, bonita no jeito de ser e no corpo, a menina desentoa das demais que moram no Beco.



Aos catorze anos, a adolescência marca-lhe o corpo com os trejeitos da idade e da pobreza. A face se torna angulosa, salpicada de espinhas. O andar é descompassado, sem ritmo, as pernas em desconexão com os braços. O caminhar da existência é inexorável.



Hoje casada, aquela menina é mãe de quatro homens e seis mulheres a quem amamentou enquanto teve leite nos seios. Muitos gritos reboaram rua acima rua abaixo ao som de seus dez partos, a cada nascimento. Teve os seios tão sugados, suas sustanças tão tragadas pela miséria que hoje em dia, descalcificada, não tem um dente natural sequer. Resigna-se a sorrir com as próteses mal feitas, manipuladas pelo protético da esquina. O protético se chama Dr. Assis Belarmino, mais conhecido na comunidade como “Tiradentes”.




















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