PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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Preces e orgasmos dos desvalidos (contos)

Arquitetura de um abandono

(contos)




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03 Setembro 2008

(foto de Josenilgon.Alm.EidaDiniz,projetovamosbaterfoto)


“CUIDADO, MEU FILHO.”



(dedicado ao menino Ricardo que, um dia, morou no meu bairro).




Moro no Conjunto dos Bancários. Diariamente à tardinha, eu visto uma bermuda azul escuro, uma camiseta de malha branca, ponho meias róseo-azuladas e tênis claros, confortáveis. Assim trajada, dirijo-me à praça que fica perto de minha casa e empreendo minha caminhada de rotina. De verão a verão, a praça do meu bairro está ali, graciosa, com o nome de Praça da Paz, serena no remanso de minha cidade pacata. Considera-se que a Praça da Paz seja o maior jardim do lugar onde moro. Sua vastidão e seu chão nivelado me permitem fazer longos passeios diários..



Andando desengonçada e sem pressa, com este meu corpo pesado e esta minha idade adiantada, respiro ar puro e aprecio a paisagem. Em plena praça, ponho-me a observar ao meu redor. O grande campo ajardinado assimila as cores das crianças que, alegres, chegam de todos os recantos. São meninos e meninas de tamanhos, idades e condições sociais variadas. Na imensidão do jardim, elas se soltam sem medo e assumem suas identidades, desinibidas. Não têm vergonha nem medo de nada, são crianças. E como são lindas as crianças da Praça da Paz.



As mães acompanham as brincadeiras dos meninos e meninas, passo a passo. Zelosas, elas atentam para tudo. Observam os movimentos de balanços e gangorras, cuidam das subidas e descidas nos escorregos de alvenaria. Cuidado, meu filho, suba devagar. Uma mãe escala os degraus do escorrego com um bebê nos braços, senta lá em cima, põe o bebê no colo e desce em velocidade máxima. Assim., escorrega junto com as demais crianças até em baixo. E seu sorriso é largo como se também fosse ela uma menina. Tão entretida está em brincar com o bebê ao colo, que não repara quando o vento levanta-lhe a saia e deixa-lhe as coxas à mostra. As mães da Praça da Paz não se cansam. Balançam os filhos nos balanços e impulsionam as gangorras. Perdem-se com os meninos nos labirintos coloridos de alvenaria. São mães de crianças que moram em casas, apartamentos, em condomínios fechados ou favelas. Santa Bárbara, Nossa Senhora Aparecida e outras santas, Colibris e outros passarinhos, Anatólia, Eucaliptos e outras plantas, são nomes de comunidades que preenchem a praça de meu bairro e respiram seu ar libertário.



A alegria na praça oferece uma trégua aos problemas do cotidiano: um marido que bebe e incomoda, um adolescente que não quer estudar, as dívidas do dia a dia, as contas a pagar, um doente terminal na família. Nos instantes da praça, meninos e meninas se desprendem dos televisores. Desapegam-se das xuxas, das angélicas e das elianes. Crianças e adultos se libertam de todas as mediocridades, soltam-se das novelas de TV e abraçam a vida. Nesses instantes, as mães esquecem as belezas fantasiosas dos big brothers, heróis de plástico. As mães se revitalizam. Na Praça da Paz, os vizinhos se encontram, cumprimentam-se, boa tarde, boa noite, como vai. Quase tudo se ameniza e se acalma, sempre às tardinhas.



Quando finalmente a noite adentra, a criançada volta aos lares, na segurança de mãos e colos maternos. A alegria da convivência e das brincadeiras oxigena pulmões e cérebros de meninos, meninas e pessoas adultas. As mães regressam aos lares, renovadas para reagir aos problemas e às suas rotinas domésticas sem graça. As mães enfrentam tudo, não têm medo de nada, essas mães da Praça da Paz.




Com o anoitecer, também volto para minha casa, mais relaxada, serena. E quase tudo se acalma. Agora, sim, sou mais feliz, apesar de meu andar desengonçado, meu corpo pesado e as pernas trôpegas, apesar de minhas rugas e meu olhar embaçado.





01 Setembro 2008






AQUELA PESSOA




3344-1250 foi o número do telefone que me deu dizendo que eu ligasse amanhã. Perguntei a que horas eu devia ligar, mas ela já tinha desaparecido. Dobrou a esquina da Guido Mota e eu não a vi mais. Era 10 de agosto, sábado à tarde.



No domingo pela manhã, liguei 3344-1250. Escutei quinze toques, e o sinal de ligação terminada reboou em meu ouvido. Tentei novamente 3344 1250 e ouvi o sinal de ocupado. Pensei que devia tentar logo mais à tarde.



De fato, eram quinze horas em ponto quando liguei novamente. Surpreso, escutei uma voz feminina metálica dizendo que esta é uma mensagem gravada da Smile este número que você discou não existe em nossos registros favor consultar a lista telefônica.


Resignado, aquietei-me, decidido a percorrer as linhas dos destinos que se traçavam para mim. Aquela pessoa não me estava reservada.


Na segunda feira seguinte, deparo-me, na primeira página do jornal, com a fotografia daquela pessoa. Estava legendada com os dizeres: Maria de Monte Serrat foi vítima de um bandido na esquina da Guido Mota. Testemunhas disseram que, nesse último sábado passado, Maria de Monte Serrat, 23 anos, foi atacada e levada para um matagal, onde a estupraram e assassinaram a golpes de faca de cozinha. As testemunhas não quiseram ser identificadas com medo de represálias. A polícia encontrou, na mão direita da vítima, um papel amassado com um número de telefone: 3227 4122.


Passado o impacto inicial, arrumei algumas roupas em minha valise de viagem, tomei o primeiro ônibus e sumi na estrada.





21 Agosto 2008



CARTA PARA ARUANDA



Meu filho, Deus guarde você.

Estou com saudades. Você deixou muitas lembranças na sua casa. Até o logotipo do seu grupo de ajuda ainda permanece lá. Você o imprimiu, com as pontas dos dedos, quando o cimento ainda estava mole, na soleira do seu quarto. Lembro-me do seu entusiasmo quando você criou esse grupo aqui na cidade, eu tinha muita esperança que você se encontrasse nele. Mas você se perdeu cada vez mais. Eu lamentei que isso tivesse acontecido. Busquei viver minha vida, pois era o que me restava buscar.


Estou zelando pela sua casa dentro dos meus limites financeiros, tentando cumprir com seu pedido. Antes de você ir embora, você me disse: “– Mãe, vou viajar. Faça tudo para que esta casa fique para Pedrinho”. Notei que você estava muito esquisito, falava com os olhos muito abertos, as mãos muito geladas, pálidas. Achei que você estava mais angustiado do que comumente. Mas também pensei: vai passar. Hoje me arrependo de ter respondido, impaciente, que você fosse dormir, que você largasse de tolices. Falei que amanhã conversaríamos melhor. Eu acreditava, de fato, que no dia seguinte poderíamos conversar.

Logo em seguida ao seu pedido, você fechou a porta da sala e se retirou para seu quarto.

Eu não tinha fé nessa viagem, repetidamente anunciada. Um dia era para Recife, outro dia era para São Paulo, outro dia era pro Rio, outro dia era sei lá para onde. Diante de sua agoniada insistência, pensei: “Puxa, acho que amanhã devo providenciar uma consulta para ele”.
Mas nas primeiras horas do dia seguinte, você foi embora. Não vi quando você saiu, não lhe dei um beijo. Era sábado, 15 de junho de 1997. Faltavam seis dias para o seu aniversário.

Meu filho, de vez em quando eu escuto a Rádio FM, aquela que você gostava de sintonizar. “Run Away” é uma musica que toca muito, três ou quatro vezes por dia. Eu gosto desse rock-balada. Você também gostava muito. Você sempre me pedia para que eu cantasse, mas eu não sabia cantar em inglês, e você insistia: “Cante em português mesmo”. Você pegava o violão e me acompanhava, e eu era feliz de estar cantando com você me acompanhando. Você dava os acordes da introdução e eu começava: “Vou seguindo a caminhar, / não me canso de esperar / o amor que me deixou / e nunca mais voltou, / eu quero / que volte aos braços meus / o amor / que um dia disse adeus/ e me deixou, ai, como eu quero/ achar o amor ô ô ô / que um dia me deixou / ôôô que um dia me deixou.” Quando eu terminava, você fazia um gesto com a cabeça e pedia com o olhar para que eu reiniciasse tudo. No final, eu comentava com você que no meu tempo de faculdade, eu tinha um disco com essa música orquestrada e executada pela orquestra de Henry Mancini. Um amigo me presenteara. Era muito lindo. Nunca mais ouvi outro rock tão bonito.
Estou chorando. Creio que vou continuar chorando por muito tempo, até que Deus me dê a dádiva do alheamento. Continuarei escrevendo cartas para você, para o seu endereço, na mesma rua, mesmo bairro.

Não se preocupe nem repare em minhas lágrimas. Não fique triste, o que estou sentindo é natural. Você sofreu muito aqui. Fez bem em ir embora. Esse lugar era péssimo para você. Se viajou para tão longe, foi com o consentimento de Deus. Esteja em paz, meu filho, aninhado no colo de algum anjo.
Um beijo de sua mãe.

Agosto de 1996.


Dôra Limeira





04 Agosto 2008



“ADEUS, ELIANE.”

Sábado à noite, estive vendo um espetáculo comovente - “Jesus, uma Paixão”, encenado em praça pública no centro de minha cidade. As arquibancadas estiveram lotadas. Pessoas de todas as idades e condições sociais se apinharam para acompanhar as cenas, de olhos fixos nos tablados, no sofrimento e na humanidade de Jesus. O final apoteótico da ressurreição arrebatou aplausos da multidão em lágrimas.
Eliane, não consigo explicar porque estou te dizendo essas coisas agora. Tudo que sei é que, quando cheguei em minha casa, já tarde, na madrugada do sábado para o domingo, consultei e viajei internet adentro. Após me inteirar do que se passava nesse mundo velho de Deus, comecei a abrir meus e-mails particulares. Ah Eliane, que dor. Surpreendi-me quando uma amiga me informou sobre teu passamento. “Pas-sa-men-to”, essa palavra é triste desde quando eu era menina. Antigamente, de quando em quando, ouvia-se no rádio que “A família Tal lamenta informar aos amigos e parentes que hoje se deu o passamento de Fulano. O corpo está sendo velado, etc”. Na minha cabeça de menina, passamento era mil vezes mais fatal, milhares de vezes mais irreversível do que falecimento. Olha, Eliane, as coisas que vejo pela internet, nas caladas da noite, ganham dimensões densas e profundas. Notícias de morte, de catástrofes, notícias e fatos emocionantes em geral me atingem de modo direto, exatamente quando estou sozinha, concentrada, a casa, o prédio, o bairro, tudo está quieto, dormindo. Lendo sobre teu falecimento, acredite-me, Eliane, nunca me senti tão só. Alguma coisa muito esquisita me oprimiu o tórax. Sinceramente, desejei que a notícia não passasse de trote ou vírus ou brincadeira de mau gosto.

Não sabia que estavas muito doente. Por que, Eliane? Fala, criatura de Deus. Mas tu não podes mais falar nada. Quem me dera que tudo isso fosse apenas literatura. Mas, não, Eliane, não é literatura. Foste embora de verdade, sem ficção. As palavras são tão bobas, tudo é tão tolo. Dá-me vontade de parar esse texto por aqui, mas não posso. Preciso deixar registrados meus pensamentos. Interagi contigo por muito tempo em listas de discussão literária, em blogues, sites e outros canais de convivência internáutica. Se não for bastante tolo te dizer agora, preciso dizer que de ti guardo amáveis lembranças. Que bobagem. Já não podes me ler, nem me ouvir, nem me falar, nem mais nada. Estás lembrada que me deste um blogue de presente? Não, Eliane. Não deves estar lembrada, já que tuas lembranças hoje vagam infinito afora, infinito adentro. Mas mesmo sabendo que não recordas, não ouves, não vês e nem falas mais nada, eu, de tão boba talvez, preciso repetir o quanto te sou grata por tudo. Logo que soube do teu passamento, corri aos e-mails antigos que me enviaste. Poxa, Eliane, teus últimos e-mails para mim estão com datas exatamente da primeira semana de fevereiro. Dizias-me que tinhas recebido meu livro – Preces e Orgasmos dos Desvalidos - e que tinhas gostado muito da capa. Depois disso, transcorreram apenas dois meses até abril. Foram apenas dois meses, Eliane. Creio que não deves ter lido meu livro. Não houve tempo. Não houve tempo para despedidas, nem para abraços e beijos, nem para mais nada.

Durma em paz, Eliane, estou chorando. Creio em Deus, creio na ressurreição. Adeus.

Dôra Limeira

Em 09 de abril de 2007.
Obs: A escritora Eliane Stoducto morava no Rio e morreu no dia 08 de abril de 2007, às 18:00 horas.





01 Agosto 2008


“É NOITE EM MENININHA. ”


Elizabete Silva, 36 anos, mora com o companheiro e quatro filhos na comunidade Menininha, perto de Arati, riacho de águas sujas. Seus três filhos mais velhos estão em idade escolar, o mais novo tem dez meses e ainda mama. O casal improvisou as instalações hidráulicas e elétricas do lugar por conta própria, clandestinas. O espaço onde Elizabete Silva vive com a família é um vão dividido em duas partes separadas por divisórias engendradas de papelão e isopor. Um retrato das crianças, uma flor de papel crepom e um Sagrado Coração de Jesus enfeitam uma das divisórias. Na parte anterior do vão estão algumas tábuas de andaime estendidas no chão, apoiadas sobre tijolos. É onde dormem e brincam as crianças. Um ventilador alivia o mormaço. Caixas de papelão fazem as vezes de armários e guarda-roupas improvisados. Restos de brazilite adquiridos em sucatas e pedaços de latarias de carros servem de coberta para os utensílios domésticos e de aconchego à família. Acomodado sobre tábuas de andaime, o casal dorme numa parte do vão onde estão o televisor, a geladeira, fogão, bujão de gás e demais apetrechos de cozinha. Um calendário colorido dos armazéns Guria ornamenta o ambiente e orienta para que a família não se perca no tempo. Com a consciência em paz, Elizabete da Silva e o marido dormem os sonos do dia a dia, de noite a noite. Descansam, satisfazem as necessidades íntimas de todo casal e umedecem os panos. Elizabete da Silva é mãe cumpridora dos deveres. Seu corpo atarracado recende a suor, o companheiro recende a urina permanente. Suor, urina e esperma são os odores do companheirismo naquela pobreza organizada, cada coisa em seu lugar, nos estreitos e precários limites.
O chão de Menininha é de terra batida, semi-úmido devido às proximidades do Arati. As coisas de Elizabete da Silva se distribuem cuidadosamente. Tudo se arruma dentro daquele despojamento, panos, pratos, copos e demais vasilhames. Quem visita o barraco e observa com atenção, percebe que nos recantos estão dispostos, pela ordem das necessidades, os dois ventiladores, um do casal e outro dos meninos, o liquidificador e o ferro de passar. A TV colorida e a geladeira se destacam no recinto, pela imponência. Incluindo o fogão e o bujão de gás, tudo foi comprado em lojas, mediante pagamentos parcelados, com comprovantes e notas fiscais. Foram muitas as parcelas, intermináveis pagamentos.
Elizabete Silva é morena clara, tem o tronco, pernas e braços roliços. Os seios grandes e semi-derreados amamentaram cada menino, filho após filho, em sua rotina de mãe pobre. O corpo calorento parece estar sempre pegajoso, hidratado, poluído. Dona de casa zelosa, Elizabete Silva cuida de seus utensílios domésticos, com desvelo. Orgulha-se de ter adquirido os próprios pertences com trabalho honesto, dela e do companheiro.
Mas, de todo o seu pequeno patrimônio, as coisas que mais a entusiasmam são o televisor e a geladeira. O televisor, adquirido há dois anos, teve o pagamento parcelado em quinze mensalidades. É objeto de distração para a família. É o lazer, como se diz na comunidade. Os meninos passam as tardes aquietados, vendo desenhos animados. Ultimamente, estão mais calmos, arengam menos. Antigamente, os meninos incomodavam a vizinhança, queriam ver filmes. Exasperavam-se com facilidade. Com o televisor, Elisabete Silva agora tem mais sossego para trabalhar em casa e nas faxinas das casas ricas, tem mais tempo para amar os filhos. A geladeira facilita que a comida se conserve por mais tempo, graças a Deus. Elizabete Silva a adquiriu mediante pagamento estipulado em vinte e quatro parcelas mensais. Antigamente, Elizabete Silva apelava para que os vizinhos deixassem que ela guardasse os alimentos nas geladeiras deles. Um transtorno, dizia ela ao companheiro.
Em primeiro lugar, Elizabete Silva é mãe. Em segundo lugar, é companheira. Em terceiro lugar, é dona do que chama de “minha casa”.
Conversando com os vizinhos nos fins de tarde à beira do meu fio, Elizabete Silva se excita quando fala sobre os meninos e sobre as vantagens de seus bens materiais. Os lábios grossos se umedecem sob efeitos da empolgação. “Não é fácil. Meu marido é pedreiro e ganha pouco, eu também ganho pouco, faço faxinas e lavo roupa nas casas ricas. O Bolsa-Escola dos meninos também ajuda. Pouco, mas ajuda. Não passamos fome. Mas tudo que entra em casa já entra comprometido, devido aos gastos extras”. Elizabete Silva gesticula a cada frase significativa. Com os lábios molhados de saliva e de emoção ela espevita bem as palavras. “Deus dá um jeito”. Ao dizer esta frase final, acena para o alto, como quem está rezando. Os vizinhos escutam atentamente e dizem sim, mil vezes sim. Com o passar dos minutos, Elizabete Silva percebe que seu vestido está se molhando na altura dos seios. E se despede dos vizinhos, apressada. “Com licença, minha gente, Juninho está querendo mamar, sinto os sinais aqui nos bicos de meus seios”. E Elizabete Silva corre para dentro de casa, pressurosa para dar os mamilos molhados ao filho mais novo. Anoitece em Menininha.

Dôra Limeira








16 Julho 2008

RUPTURAS

As correntes de sua vida, desde nascença muito frágeis, estavam sempre se partindo. A primeira que se partiu foi ao perder a mãe, ainda quando mamava. Leites nestogenos, lactogenos e outros ninhos desviaram-no de sua rota original. Ao longo da vida, outros elos se romperam. Sua corrente de ouro, presente da madrinha, partiu-se e caiu numa boca de lobo no centro da cidade. Alguns anos depois, sua conta corrente bancária quebrou sem retorno. Um dia, a esposa olhou para ele e disse “adeus". Bateu a porta e nunca mais foi vista. De ruptura em ruptura, sua vida se esgarçou. Não suportando tanto repuxo, numa madrugada de inverno, ele provocou a quebra do último elo da corrente que o ligava à vida: perfurou a própria jugular com uma faca de cozinha. O sangue jorrou nos azulejos da parede, mas ele ainda pensou: "Merda".
Dôra Limeira





30 Junho 2008



“SANTA TEREZINHA DAS ROSAS, EIS-ME AQUI.”

Faz muito tempo que não vejo aquela moça que um dia me fez feliz. Tentei conseguir notícias dela através de amigos e telefonemas, busquei na internet e nada encontrei. Depois que aquela moça foi embora, tudo deu para trás na minha vida. De agonia em agonia, fragilizei-me, adoeci. Uma gripe forte me atingiu, amolecendo-me o corpo. Depois, sem explicação, apanhei uma gastrite que evoluiu para úlcera.


Há dias eu vinha notando que a tal pessoa estava esquisita, dissimulada, inventando coisas, arrumando motivos para dormir fora de casa nos finais de semana. Ora dormia na casa dos pais, ora na casa de alguma amiga. Já não servia meu café pela manhã, fingindo-se cansada, sonolenta. Descurava do almoço, exagerava no sal ou deixava tudo insosso. Assim, ela me desmoralizava sem me dizer nada.


Santa Terezinha das Rosas, aquela criatura não tinha esse direito, não podia ter feito isso comigo. Logo eu, que sou homem de religião, homem direito. Sou cumpridor dos deveres, respeitado na comunidade. Nunca deixei faltar nada em casa. Não, minha Santa Terezinha, ela não tinha esse direito. Eu não merecia.


Naquela sexta-feira, quando cheguei para almoçar, não a encontrei em casa. Saiu sem nenhum aviso explícito, sem nada, nem bilhete, nem carta. Nem sequer deixou pronto o meu almoço. Se ao menos tivéssemos um filho, mas não, nem isso tivemos. Daquela sexta-feira em diante, minha vida tem sido apenas sofrer.


Santa Terezinha das Rosas, agora, passados alguns meses desde que ela foi embora, o médico do PSF perto da minha casa me disse para eu não me preocupar, disse para eu levar as coisas na esportiva. Aconselhou-me muito e deu-me um remédio amostra grátis chamado Valium 2, que é para relaxar e não pensar em besteiras. O médico me disse que evitasse emoções fortes, que aquela minha úlcera era de origem nervosa.


Evitar emoções fortes. Mas, como, minha Santa Terezinha das Rosas? Se aquela criatura foi embora, se todos os passarinhos do meu viveiro morreram? Quem primeiro morreu foi o canário belga, que começava a cantar bem cedo, a cada amanhecer. Depois, foram morrendo os outros passarinhos, por mais que eu cuidasse deles. A roseira morreu. Era a planta de estimação daquela moça, meu amor de tantos anos. Como evitar emoções fortes, minha santa, se a roseira morreu, se o pé de rosedá murchou? A grama do jardim está sem viço, parece cabelo de mulher velha ressecada, cinzenta. À noite eu tomo um valium 2 e rezo. Valei-me Nossa Senhora.


Minha casa é a imagem do desleixo, com tudo rebentado: uma vidraça quebrada e a caixa de descarga entupida. A torneira da pia de prato não pára de vazar, aumentando mais minha solidão. Cada gota desperdiçada de água me onera, pesa-me nos ombros.


O doutor falou para eu não me emocionar sem controle. Mas, como, Santa Terezinha das Rosas, se ontem estive reparando nos retratos que estão na parede da sala? Lá está o retrato dela, tamanho pôster. Lá está nosso retrato colorido, eu e ela abraçados na praça. Quando aquela criatura vivia comigo, a parede do corredor era enfeitada, havia fotos de todos os tamanhos, numa promiscuidade alegre: fotos de meninos misturadas com fotos de cachorro, paisagens de praia, céu aberto, misturadas com fotografias de urubus e lixo. Mas, tudo era muito alegre nessa desorganização. Hoje, nossas coisas estão desbotadas, prejudicadas pelas invasões indóceis do sol e da umidade.


Santa Terezinha das Rosas, já faz tempo que ela saiu sem dizer nada, sem uma palavra, um gesto, sem levar nada de substancioso na bagagem. Levou apenas saia, blusa, sutiã e calcinha. Dei por falta também de alguns de seus objetos pessoais: documentos, desodorante, sabonete, pasta e escova de dentes. Mesmo assim, tentei me acalmar.


Procurei me tratar, tomei remédio, rezei valha-me Deus. Santa Terezinha, sem aquela criatura, sem jardim, sem viveiro, minha casa toda desmantelada, não sei o que fazer. Tentarei arrumar outra pessoa. Minha santa, com a sua ajuda talvez, quem sabe, eu encontre alguém que ajeite a casa, o jardim, o viveiro, as torneiras, a caixa de descarga. Quem sabe. Agora mais calmo, pode ser que encontre uma pessoa que me entenda, que me conserte, que enfeite meu jardim. Assim, quem sabe eu me cure da úlcera, quem sabe dispense o Valium 2. Com humildade, suplico pela minha saúde e minhas coisas de volta. Peço que voltem às cores originais os retratos que estão nas paredes da sala e do corredor. Eis-me aqui diante de sua imagem, minha Santa Terezinha das Rosas. Peço humildemente que me mande nova criatura, pode ser Maria, Amélia ou Rosângela. Pode ser alta ou baixa, pode ser magra, pode até ser gorda, não importa. Importa apenas que a nova criatura me alegre e que possa preencher esses meus dias de funcionário público aposentado do INSS, meus cotidianos vazios, pensamentos monótonos, sem graça.



Dôra Limeira







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