Fazia algum tempo que ela estava na sala de espera daquela estação de trem. Tinha comprado passagem para a cidade onde nascera. Viajaria num vagão de primeira classe. Moça vistosa, muito corada, cabelos loiros, ela atraia os olhares dos homens na estação. O vendedor de passagens no guichê, o moço carregador de bagagens, o pipoqueiro e os passageiros olhavam a moça e disfarçavam seus sentimentos. O vestido vermelho e decotado realçava-lhe as formas do corpo. Que moça exuberante. Mesmo ali sentada, percebia-se que era muito alta. Pelo jeito arrogante do rosto erguido, percebia-se um certo orgulho por ter aquele tamanho avantajado. Saltos altos, bolsa a tiracolo e a maquiagem bem feita salientavam seu porte de moça rica. O rosto exibia maçãs rosadas, o sangue parecia querer saltar-lhe dos poros. O decote exagerado deixava o pescoço à mostra, a jugular exposta, os seios com os mamilos salientes modelados pelo vestido de seda apertado.
Seria casada aquela moça? Sentada no banco da sala de espera, na estação de trem, ela consultava o relógio e se impacientava. Tirou um livro da bolsa. Saco de Ossos, de Stephen King. Mergulhou na leitura, sob o olhar concupiscente de um senhor que estava sentado no banco em frente. Aprofundou-se tão intensamente na leitura do Saco de Ossos, que o tempo passou, anoiteceu na estação e a moça não percebeu. O senhor concupiscente, que a olhava desde o início, se achegou a ela e quase a tocava.
Quando a moça caiu em si, era tarde da noite, as luzes da estação todas acesas. O trem tinha partido, as pessoas tinham ido embora. Somente o senhor concupiscente estava ali bem juntinho, farejando, estendendo os dedos com as unhas crescidas em direção aos seios polpudos da moça. Ela teve medo. Fechou o livro rapidamente e guardou na bolsa. Não tenha medo, moça. O homem tinha o timbre roufenho, a voz gutural. Huuummm. Não tenha medo. Ele inspirou e expirou como um cachorro, com a boca aberta. A moça viu a garganta do homem concupiscente se abrindo, parecia querer engolir algo muito grande. O relógio de parede da estação entoava doze toques, anunciando que já era meia noite em ponto. Os dentes caninos do homem cresceram de repente, como num filme de ficção. Ela se lembrou de Drácula. Quando se levantou do banco e tentou correr, o homem rosnou. Huuummm. Uma saliva branca escorreu-lhe da boca e ele avançou. Fixou os olhos no decote da moça e abraçou-a. Ela se debateu, tentando gritar. Me solta. Me solta. Ele falava com concupiscência: “Minha filha, minha querida”. E abraçava, apertava e beijava-lhe o rosto e a boca. A moça sentia cheiro de enxofre na roupa daquele senhor lascivo. “Minha puta”. Dizendo isto, o homem foi acometido de lancinantes espasmos, beijou avidamente os seios da moça e abocanhou-lhe a jugular exposta. Ela se contorceu, retesou todos os músculos e perdeu os sentidos.
Acordou no dia seguinte, bem cedo, em seu quarto. Os lençóis pareciam intactos. Correu ao espelho, examinou-se, apalpou o pescoço. A jugular estava perfeita. Olhou seu corpo inteiro no espelho. Percebeu que estava com um vestido vermelho de seda, apertado. O decote grande modelava e ressaltava-lhe os mamilos salientes. De repente, lembrou-se que seu nome era Chrysley, e que morava em Londres, no começo do século XIX.
Não. Não era casada, aquela moça.

Nome: Dôra Limeira



