Era uma sala pequena, sem janelas, porta única. Havia muita gente naquela sala. Ele estava morto, e era tão jovem ainda. Muito pálido, quase verde, inchado, seu corpo jazia dentro de um ataúde acolchoado, recoberto internamente com cetim branco, ornamentado com rendinhas nas bordas. O pesado ataúde de madeira de lei tinha tonalidade roxo-enegrecido, mesclado de marrom, e firmava-se sobre quatro apoios de alumínio que tinham bases redondas.
Ele morrera, após uma rápida agonia. Seu peso quando da última vez que esteve no consultório médico era setenta e três quilos. Trinta e oito anos, filhos pequenos e mulher fogosa, ele ainda tinha mil projetos de vida. Além de planos de trabalho, havia a meta de abandonar o cigarro, definitivamente. Agora, dentro do caixão, suas metas vagueavam em algum ponto do infinito, e já não valiam mais nada.
A mulher, a mãe, as irmãs, alguns vizinhos, colegas de trabalho, todos adentraram a sala de velórios, rostos sérios, fisionomias sentidas. Organizaram-se em volta do ataúde, para uma olhada na fisionomia do morto e para um discreto menear de cabeças: “Sim. Tão moço”. Assim, os gestos se resumiram. Tão moço.
O relógio, no alto da parede da sala, marcou oito horas da manhã. Previa-se o enterro para as dez horas, em ponto. O ambiente fúnebre recendeu a jardim pisoteado, folhas de bambu e mato, ainda molhado.
Um homem sério que estava na porta, e que devia ser o chefe da repartição onde o falecido trabalhara, contou mentalmente a quantidade de coroas de flores que cercavam a urna funerária. Uma grinalda de rosas vermelhas, mesclada com alguns sorrisos de maria, exibiu uma inscrição chorosa: “Saudades dos colegas de trabalho”. Algumas formigas graúdas e luzidias passearam, despretensiosas, em cima das rosas. Havia também uma coroa de flores silvestres, misturadas com rosas em botão. A inscrição desenhou-se em letreiros compungidos: “Teus filhos e tua esposa sentem saudades”. Uma outra coroa, esta de cravos brancos, se destacou pelo volume de flores e pela inscrição: “Saudades de sua mãe. Descanse em paz”.
Ouviu-se um soluço comedido de vez em quando no recinto, permeado pelo som sussurrado: “Meu filho”. A mãe do morto, dentro do seu traje de luto cinza, sacudiu os ombros, a cada soluço e a cada sussurro. Seus lábios gesticularam ave marias cheias de graças, e os dedos bolinaram as continhas de seu interminável rosário. Pai Nosso, que estás no céu.
De repente, burburinhos e cochichos percorreram aquele ambiente fechado, e um canto tímido se escutou: “Segura na mão de Deus. Só ela te sustentará. Não temas, segue adiante. E não olhes para trás. Segura na mão de Deus e vai”. Uma moça da Congregação das Filhas de Maria, exibindo fita azul no pescoço, puxou o responsório fúnebre: “Descanso eterno dai-lhe, Senhor. A luz perpetua e o resplendor”. O refrão se repetiu, duas, três, quatro vezes em volta do caixão, tornando o ar mais abafado. O cheiro muito forte e enjoativo de jardim pisoteado tornou-se mais incisivo. “Descanso eterno dai-lhe Senhor. A luz perpétua e o resplendor”. A monótona ladainha comoveu a velha mãe, seus soluços se fizeram mais nítidos e seu grito cortante fez vibrar todas as flores de coroas fúnebres: “Meu fiiilho”. Um cravo branco despencou de um arranjo que estava junto ao ataúde, e foi ao chão. Não valia mais nada, já estava murcho.
O morto jazia quieto e cego, surdo e mudo, dentro de seu vazio. Os familiares fecharam-lhe os orifícios, evitando assim que secreções pútreas escapassem daquele monte de carne morta e exalassem odores desagradáveis pela boca, nariz, ouvidos e outras cavidades mais recônditas.
Assim feio, pálido, esverdeado e inchado, as unhas roxas, o morto foi enterrado e compareceu à presença de Deus. Uma névoa azulada cobriu seu rosto de defunto tão precoce. Ele adentrou a eternidade e seu corpo baixou à sepultura, onde baratas, formigas, ratos, minhocas, lesmas e todos os vermes do mundo já o esperavam. Que festa, que banquete.
Outra forma de vida nasceria daquele amontoado de matéria orgânica podre, sob o olhar sonolento de Deus.
Dôra Limeira

Nome: Dôra Limeira



