PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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Preces e orgasmos dos desvalidos (contos)

Arquitetura de um abandono

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24 Julho 2006

CADEIAS NACIONAIS


Nos tempos da ditadura, eu ensinava numa escola da Barreira São José, dizendo que o Brasil era o paraíso, e era como se estivesse dizendo a verdade. As casas da barreira se inclinavam infinito abaixo, como se fossem despencar. Havia restos de lixo burguês em cada habitação: carrinho quebrado de bebê, pernas arrancadas de cadeiras, varais vergando ao peso de roupas encardidas. A fome se desfraldava, colorida, a céu aberto, sem ordem. Sem progresso, a novela das oito levava uma hora de felicidade às casas daquele lugar. Cala a boca, menino. Em meio à novela, interrompia-se a programação. Formavam-se cadeias nacionais. Cala essa boca.


Dôra Limeira





19 Julho 2006

VOCÊ ESTÁ BONITA

Ontem, sonhei com meu filho. No meu sonho, ele tem quatro anos de idade. Debruçado sobre minha cama, desajeitado, com lapis grafite e papel, tenta desenhar meu retrato. Aqui é seu rosto, mãe. Aqui, os cabelos. Aqui, um olho. Aqui, outro olho. A ponta do lapis passeia o papel. Sinuosos, meus traços fisionômicos se delineiam. Mãe, não se mexa. Aqui é o nariz. Aqui, a boca. Vou passar batom na sua boca. Pressiona a ponta do lápis grafite sobre minha boca desenhada. Pronto. Você está bonita, mãe. Nesse momento, o rosto do meu filho se deforma e eu acordo sobressaltada. Se não tivesse se matado em julho do ano passado, meu filho estaria aniversariando hoje. Trinta e um anos.

Dôra Limeira





18 Julho 2006

A ÚLTIMA VELA


Esperou muito naquele cenário à luz de velas, alcova perfumada. Mergulhouo corpo na banheira em água morna, respirou fundo e relaxou. Depois, enxugou-se em toalha de felpa, vestiu-se em camisola transparente e pôs um robe à antiga por cima da camisola. Maquiou-se, perfumou-se, e postou-se, pensativa, a esperar. O tempo passou. Meia-noite. Meia noite e meia e Mário não veio. Chorando, ela se agasalhou e se contraiu dentro da própria camisola. Uma lágrima se encaixou na primeira ruga abaixo dos olhos. Antes de dormir, tocou-se, massageou seios, coxas e vulva. Contorceu-se, gemeu e foi feliz sozinha ali mesmo, no quarto. Na sala, a última vela se apagou. Sobre a mesa, a cera quente derreteu a toalha de plástico. Mário não deu notícias.

Dôra Limeira







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