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26 Setembro 2006
TERMINAL Sabia quanto de vida lhe restava viver. Sabia quanto de pensamento lhe restava pensar. Só não sabia o quanto estava urinado, deitado por sobre aqueles lençóis de seda, colchão de plástico. Diante da exigüidade do tempo, pediu com urgência: "Dê-me um cigarro, depressa". Sorveu uma última tragada, tossiu e asfixiou-se. Seu tempo esgotou.
Dôra Limeira
13 Setembro 2006

OS RESTOS DE DÔRA
Ronaldo Monte – Poeta e psicanalista
Dôra Limeira é barra pesada. A tinta de sua escrita é feita metade de adrenalina, metade dos excrementos do corpo e da alma dos humanos.
Dôra escreveu dois livros de contos. O primeiro é Arquitetura de um abandono, de 2003. O outro é Preces e orgasmos dos desvalidos, de 2005. Desaconselho os dois às almas leves e afeitas a desmaios. Os contos de Dôra doem como uma espremida de carnegão.
A escrita de Dôra se faz com o que sobra, o que resta, o que excede dos corpos. Mas os donos desses corpos, eles mesmos, restam, sobram, excedem num mundo de lugares e cartas marcadas. E estes seres nos incomodam de dentro da escrita de Dôra, da mesma forma que nos causa incômodo vê-los nas ruas. Mas se nas ruas podemos virar os olhos a estas exceções humanas, não podemos evitá-las nos textos de Dôra.
O trabalho de Dôra se assemelha ao de uma irmã de caridade que vai ao encontro dos sofredores nos lugares sórdidos do mundo e os acolhe nas páginas dos seus livros. E ao nos mostrar o sofrimento em toda sua crueza, Dôra nos convoca a ser co-responsáveis por este sofrimento. Coisa não muito difícil de alcançar, pois, no fundo, aqueles lá somos nós, sem tirar nem pôr. Apenas relutamos em nos reconhecer. Encontro com Dôra quase todo sábado, no Clube do Conto. Para brigar e beber chocolate quente. Com o tempo que sobra, lemos e ouvimos contos nossos e alheios. A cada novo conto de Dôra que conheço, mais me aproximo de sua humanidade. Mais me aproximo de minha própria humanidade. Quanto mais ela apura o seu estilo, mais me sinto instigado a escrever melhor a cada dia. Ninguém sai de perto de Dôra Limeira do mesmo jeito que chegou. Eu já disse e repito: esta senhora é barra pesada.
03 Setembro 2006

CRISTO REDENTOR Um dia, suspeitaram que era bandido. Traje roto, suado, sandálias de dedo, rosto semi-coberto com a camisa, seu corpo fazia mungangas no alto do morro. Simulava ser um cristo redentor, pernas e braços bem esticados, mãos estendidas sobre um corcovado de barracos, brasilites, papelões e isopôs velhos, rasgados. Vez ou outra trocava a escola pelo semáforo. Fazia cambalhotas na frente dos carros. Assim, ganhava uns trocados. Preto, pernas compridas, físico esguio e franzino, ele não tinha medo de nada. No dia que suspeitaram que era bandido, ele estava postado diante de uma vitrine de uma lanchonete. Na calçada da lanchonete, diante da vitrine, olhava os doces e bolos confeitados. Com olhos gulosos, a boca babando, instintivamente apalpou os bolsos rasos da bermuda e ouviu o tilintar das moedas que tinha arrecadado em suas últimas mungangas no semáforo da esquina. Mas, não houve tempo para mais nada. Um jato de sangue jorrou de suas entranhas. Seu corpo deu entrada no IML, sem identificação, sem sinais especiais, sem dono. Considerado suspeito, serviu de exemplo na televisão. Dôra Limeira
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