(Trechos do texto de apresentação do livro “Preces e Orgasmos dos Desvalidos”, por ocasião de seu lançamento, em 02 de abril de 2005)
Por Tarcísio Pereira
Escritor e Teatrólogo
Certa vez, dois escritores passeavam pelas ruas de uma cidade discutindo sobre a arte de escrever. Faziam alusões e comparações sobre tudo o que viam – um objeto, um carro, uma pessoa, um detalhe de qualquer outro detalhe – e filosofavam sobre a relação dessas coisas com o ato de escrever.
Era um escritor jovem e outro bastante idoso – ou seja: o aprendiz e o mestre! Deste, o aprendiz tentava absorver todas as lições para se tornar um escritor como ele. Em dado momento, estavam debatendo sobre a necessidade da síntese, da frase curta, subjetiva, daquilo que em poucas palavras se pudesse expressar a amplitude de uma essência.
O mestre citou vários exemplos de síntese, e o aprendiz ainda questionava sobre pontos que não ficavam claros na frase. Ao passarem num mercado público, deram com os olhos numa pequena barraca onde estava escrito numa tabuleta: “Aqui vende-se peixe”. O mestre considerou que a frase era longa para esse tipo de comunicação, e pediu ao aprendiz para suprimir alguma coisa.
- Tira-se o “aqui” e fica “vende-se peixe” – arriscou o aprendiz.
O mestre refletiu e disse que a frase ainda estava longa.
“Vendo Peixe” – opinou novamente o aprendiz.
O mestre considerou que já existia aí um grande avanço, mas disse-lhe que, se estivesse escrevendo um conto colocando essa tabuleta como imagem, ele ainda tiraria o verbo e deixaria, apenas, “Peixe”. E explicou:
- Se alguém olha para essa barraca, e vê apenas a inscriçao “Peixe”, está implícito e claro que aquela é uma barraca que vende peixe. A comunicação está realizada.
O aprendiz de escritor achou aquele exemplo genial, e decidiu que a partir daquele momento, ao escrever seus contos, teria o cuidado de retirar todos os excessos para chegar à frase exata.
Cito esta história, tão conhecida por muitos autores, como princípio de uma reflexão sobre os aspectos mais positivos da obra de Dora Limeira. Entre tantas qualidades que procuraremos observar, Dora Limeira possui, no elemento-frase de suas narrativas, uma dessas particularidades que mais nos chamam a atenção.
Os que escrevem poemas, em particular, conhecem muito bem o drama e sabem das dificuldades que geralmente enfrentam para a construção de um verso enxuto, curto, preciso e, portanto, estético. Eliminar proposições, adjetivos e outros excessos de linguagem, é uma tarefa das mais estafantes no poema. Quando o autor é um contista, ou mais ainda se for um romancista, ele goza de uma certa folga em relação a esse trabalho, já que a prosa é aparentemente livre e não exigiria tanto quanto o poema.
Nos contos de Dôra Limeira, percebemos um cuidado de frase tão exigente que a nossa primeira impressão é a de que ela agoniza diante de cada período, pois os textos revelam todo o cuidado de alguém que fabrica prosas como quem faz versos. Por outro lado, o que pode parecer uma agonia revela-se, também, uma habilidade muito natural de quem escreve de forma fluida, deixando-se levar ao sabor da tinta, como se o texto já morasse dentro de si. Acredito que, no caso de Dôra, funciona mais o segundo método, pois aquilo que nos parece técnico é, ao mesmo tempo, uma espontaneidade.
Vejo também uma outra particularidade: a capacidade de composição de histórias que, à primeira vista, poderiam parecer banais, relatos corriqueiros ou meras elocubrações confessionais. É preciso chegar a cada última linha para que essa aparência seja desfeita, pois é nesses finais que encontramos uma outra característica de Dora: é a revelação de uma outra história, ou a história da história, a parte que não foi contada.
Neste sentido, os seus contos contêm, subjetivamente, outras histórias não narradas, mas que instigam o leitor a imaginá-las. É como se cada conto fosse apenas a chave do segredo. Dôra fornece o básico, e essa narrativa externa é a chave que ela coloca em nossas mãos para que possamos abrir esse baú de mistérios, de revelações de seus personagens.
Convém destacar que os temas, a grosso modo, revelam vários dramas sociais da forma mais discreta possível. Dôra possui a glória de expressar mazelas sociais com a introspecção de uma literatura que se diria Intimista. O livro expõe uma galeria de personagens que está permanentemente repleta de débitos e sem saldo de créditos. É comum encontrarmos, de uma folha à outra, a passagem de uma gente que trabalhou a vida inteira e não conseguiu uma aposentadoria decente, gente que teve ambições, sonhos e planos, e que agora amarga de um vazio material que redunda num sentimento de negação do espírito. São tristes essas criaturas. São tristes as criaturas de Dôra. São vítimas, são sós, são quase sempre suicidas. Expressões de um perfeito casamento entre Sociedade e Intimidade.
“Preces e Orgasmos dos Desvalidos” poderia se chamar, também, de “Livro das Ausências”. Digo isto não para contestar o título escolhido, mas observar que me parece o principal código temático da obra. E isto tudo por uma razão muito simples: porque não encontro um único conto em que não haja uma ausência! Ausência de pai, de uma filha; ausência de um marido, de um namorado ou namorada, de roupa; ausência de sexo; ausência de fé; ausência de Deus – ausência de qualquer coisa. Por extensão, esmiuçadamente, há em cada história um pranto, uma saudade, um desejo reprimido, um amor que não se realiza, uma dor qualquer. O fundamental, no entanto, é a Ausência – às vezes muito patente, às vezes subjetiva. Parece ser este, inconscientemente, o “carma” da autora. AUSÊNCIA, palavra determinante para definir o universo pessoal de uma obra. No entanto, mesmo sendo este o “carma”, é algo que ela dribla muito bem, como quem convive com essa experiência de forma madura, peitando de frente a realidade. Muitas vezes, o código dramático de uma obra não é nem uma predileção do autor, mas algo que advém da própria experiência como um dos fantasmas da existência.
Dôra divide o livro, e bem dividido, em três partes que se diriam “temáticas”. À primeira chama de “Lágrimas”; à segunda de “Vísceras” e a terceira de “Músicas”. Eu diria que essa divisão funciona mais a título de organização de tendências – mas, na verdade, o batismo de cada parte se aplicaria muito bem em qualquer uma delas. Encontramos lágrimas, vísceras e “músicas” em qualquer história.
Mas há um caso especial a considerar. A terceira e última parte do livro, “Músicas”, merece uma análise individual. Sem nenhum medo de exagero, arrisco em dizer que esse capítulo inaugura um tipo de narrativa que possui nuances de originalidade. Imaginem a narração de uma história em gênero musical. Perdoem minha ignorância, mas nunca ouvi falar disso. Podem existir casos isolados, mas nunca como projeto literário. A princípio, tudo parece simples e óbvio, redundante, repetitivo do ponto de vista de fabulação. Mas a grande arte reside no ritmo musical da narrativa. Quem, aqui, nunca teve a experiência de, estando em casa, ouvindo seus discos prediletos, ficar folheando encartes desses discos e, de forma prazerosa e distraída, ficar lendo as letras, ali publicadas, daquelas músicas que estamos ouvindo no momento?
Nesta parte do livro, - “Músicas” - Dôra vai narrando a aparente banalidade de todos nós como se estivesse cantando, ao invés de escrevendo. É impressionante, por exemplo, como Dôra se inspira em Roberto Carlos, naquela música intitulada “Nossa Senhora”, para nos contar, através do conto intitulado “Saliva mágica”, a história de um devoto que faz oração diante da Santa Mãe de Deus pedindo tudo o que um simples devoto precisa naquele momento. E, o que é mais importante, é que a autora narra no mesmo ritmo da música – apenas acrescentando frases, completando aquilo que na música original nos falta, revelando uma identidade social e psicológica do protagonista. Que lindo, Dora. Obrigado por essa emoção que você me proporcionou.
Vitória Lima, na contracapa dessa publicação, nos alerta para um possível perigo contra aqueles leitores que não suportam a profusão de elementos viscerais da nossa realidade humana. É verdade. E eu acrescentaria lembrando que, comumente, desde a origem da tradição oral, das fábulas encantadas e das histórias que nós contamos para que nossas crianças peguem no sono, geralmente dizemos para essas crianças: eu vou contar uma história que as faça dormir. E aí recorremos aos velhos clássicos – como Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, Pinóquio e tantos outros. O que quero dizer com isso? Quero dizer que já existe uma convenção de se contar histórias para crianças, mas nunca ouvi falar de alguém que tenha inaugurado formas de narração para que as pessoas grandes adormeçam.
Completando o que nos disse Vitória Lima, em que pese o fato de aparecer em livro, aqui e agora, donde jorra sangue, urina, sêmen, pus e vômito, Dôra Limeira nunca conta histórias para adormecer crianças. O que Dôra faz, com sua explosiva exposição da realidade, écontar histórias para acordar os adultos.
Muito obrigado.
Tarcísio Pereira

Nome: Dôra Limeira



