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Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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07 Fevereiro 2007




SEIS HORAS DA TARDE


Ela pediu-lhe que ficasse. Pôs-se jovem, perfumada, pôs ousadia nos seios, um decote provocante. Ele disse não quero, não quis ficar. Ela deitou-se junto, deu-lhe recantos macios, almofadas, travesseiro, ares refrigerados, enlaçou-lhe com amor. Na cozinha, junto à mesa, ele a olhou e disse não, não quis ficar. Ela falou, insistiu, fez birra, marejou os olhos. Prometeu-lhe tudo, comida e água, casa, presentes, anéis e fama, prometeu-lhe agasalho, carinho, amor sem fim. Não, não quis. Ela retocou os cabelos, pintou-os de cinza-ouro, impostou a voz, deu-lhe acentos roucos e sussurrantes. Disse meu amor com lânguidos timbres, uivou e até gargalhou, nervosa. Mas, ele não quis nada. Ouro, prata, roupas finas. Não e não, recusou tudo. Ela implorou, aprofundou o decote, lambeu e mordeu os lábios. Retocou o batom, usou essências orientais, sombreou os olhos castanhos, sombras pretas, verdes, azuis, sombras de todas as nuances. A cada tonalidade de batom, a cada nova essência de perfume, ele disse que não, não quis nada, iria embora. Ela ofereceu seu próprio corpo para esquentar o corpo dele. Daria sua respiração para que ele respirasse. Ele falou que não queria. Não, não e não, não precisava daquilo, não quis ficar. Ela se prostrou, desesperada, blasfemou, bradou palavras desconexas. Não obtendo respostas, de repente adormeceu e envelheceu. Prendeu a voz sussurrada, os desejos impossíveis. Prendeu os sorrisos parvos e as gargalhadas sem sentido. Parou de respirar e, diante da apatia dele, morreu. Era final de tarde, hora do ângelus. No instante de sua morte, ela estaria completando oitenta e dois anos de idade. O relógio da matriz executou seis badaladas. Ele lhe deu uma última olhada, cobriu-lhe o rosto com um véu, apanhou o guarda-chuva e saiu resmungando: que insistência, ora.

Dôra Limeira





01 Fevereiro 2007




FINITUDES

Meu horizonte é longínquo. Tento alcançá-lo com os dedos da mão direita, apoiando-me nas pontas dos pés. Minha sapatilha é de bronze, como de bronze é todo o meu corpo. Meus pés pisam o caos, e doem. Posiciono minha finitude corporal em direção ao infinito. Alongo as vértebras, estico toda a coluna, tensiono os pulmões. De nada me adiantam os esforços. O horizonte está longe. E sou feita de chumbo. Quem me dera
ser humana.

Dôra Limeira







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