PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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Arquitetura de um abandono

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23 Março 2007

RATOS DE SANTA MENINA


Dôra Limeira


Edmilson morava na Comunidade Santa Menina, lugarejo ribeirinho, na periferia da cidade. Santa Menina, desassistida do mundo e de tudo, era foco de doenças, tristezas e mortes. Algumas de suas ruas se alagavam nos tempos de invernada. Sem manutenção, as galerias de esgotos se entupiam e deixavam transbordar águas fétidas e excrementos, a céu aberto. Assim era a rua onde Edmilson morou com a mãe e as duas irmãs. Com as fortes chuvas e os entupimentos das galerias de esgotos, o ambiente era mais doentio. Ratos, baratas e mosquitos se proliferavam, lúgubres. Muriçocas irritavam crianças e adultos. Vermes se agitavam em êxtase nos intestinos dos meninos e ouviam-se ranger de dentes madrugada afora. Oxiúros enervavam corpos e pensamentos, atacavam e comichavam as bundas dos meninos, pobres criaturas entregues a Deus..

Edmilson morreu jovem, depois de ter convivido naquele ambiente mórbido. Ratos passearam sobre seu corpo à noite, urinaram nas beiradas dos pratos. Comeram restos de farelo, passeando nas bordas das panelas sujas sobre o fogão mal cuidado. Corria o mês de junho, pleno inverno. Edmilson, tão novo, dezenove anos, trabalhador, morreu com poucas horas de sofrimento, febre alta, vômitos e dores em todo o corpo. No Instituto de Medicina Legal, o laudo registrou “leptospirose”. A mãe e as irmãs de Edmilson choraram e o sepultaram sem delongas e sem maiores complicações. Depois do caso de Edmilson, alguns dias e meses se passaram e outros casos se verificaram, com características e desfechos fatais semelhantes.

Alarmados, os moradores de Santa Menina e de outras comunidades ribeirinhas da periferia urbana se mobilizaram durante dias e meses. Orações, apelos, abaixo-assinados, tudo que foi possível fazer foi feito. Pressionada, a Secretaria de Saúde do Estado divulgou a notícia de que : “Deve começar nos próximos dias um trabalho de combate à leptospirose”. Santa Menina consta no cadastro das comunidades que deverão ser atingidas pelas medidas saneadoras. “Todos os lugares críticos, onde a incidência da doença é maior entre os meses de abril e agosto estão no programa de assistência”, assim se manifestaram os porta-vozes da Secretaria de Saúde do Estado.

Edmilson morreu muito novo. Era rapaz solteiro, moreno, tinha namorada. Estudava e alimentava uma fantasia: queria ser médico.





21 Março 2007




AUTORITÁRIA


Numa rua qualquer da infância, ele ouviu passos que o acompanharam quando ia para a igreja. Teve medo. "Pssiu, menino! Não corra". Olhou para todos os lados, não viu ninguém, e correu. Quando alcançou o banco da frente do templo, estava cansado, arquejante, e ainda com muito medo. De cima do altar mor, a santa avisou, autoritária: “Pssiu! É proibido urinar no banco da igreja, menino”. Ele tinha se descontrolado. A urina, incontinente, escorreu-lhe pernas abaixo e desceu ao longo da nave principal, sob o olhar severo da Santa dos Impossíveis.



Dôra Limeira





16 Março 2007




NAQUELE DOMINGO DE MANHÃ

Meu nome é Antônio. Aos 48 anos de idade, sou uma pessoa derrotada pelas emoções. Considero-me senil. Fui casado duas vezes. Hoje, vivo sozinho. Meus dois filhos me visitam raramente. Tenho poucos amigos, uns três ou quatro. Já tive emprego fixo, ocupei cargos de chefia. Mas hoje sou desempregado. Dependo dos meus pais aposentados e idosos. Tenho me esforçado em busca de soluções. Mas meus caminhos são como pontes sem fim. Sobre abismos, debruço-me sem parapeitos. Vejo-me sem corrimão, sem proteção alguma contra a morte. Desvairado, não sei o que estou fazendo aqui. Eu, Antônio, 48 anos, levanto as mãos para o alto. Indago-me porque estou neste lugar que não tem ponto de partida nem ponto de chegada.

Sem quê nem pra quê, fui abandonado num depósito de lixo. Era domingo de manhã. Cambaleando aos pedaços, saí da lixeira. Hoje, encontro-me aqui, amputado, vagando sobre esta ponte sem gradil de proteção. Só o abismo é meu referencial.

Foram dois anos de relacionamento. Naquele domingo de manhã, fiquei sozinho. Não sei como a companheira me suportou tanto, uma pessoa como eu, cheia de depressões. Lágrimas de auto-piedade vazaram pelos meus poros. Sem restrições, a companheira ficou comigo durante dois anos ininterruptos. Viver assim, para ela, foi o mesmo que optar pelo inferno. Mas nunca imaginei que fosse embora um dia. Infelizmente a ficha caiu muito tarde.

Depois daquele domingo de manhã, fucei e revirei lixo na rua. Sofri como um cachorro doente. Hoje, estou aqui, sozinho, sem mulher, sem filhos. Atravesso esta ponte, tateando, agarrando-me em minhas pulsações. Até onde devo ir, não sei. Trago uma muda de roupa suja debaixo do braço, dentro da mochila. Se conseguir chegar ao término da ponte, hei de procurar abrigo, não sei se debaixo da ponte, se dentro daquele prédio abandonado.

Neste ponto de minha vida, a mim não importa aonde a companheira foi, com quem foi, onde está agora. Importa-me que estou aqui na ponte de ninguém. Firmando-me em minha força de gravidade, tenho dúvidas. Não sei mais se me chamo Antônio, nem sei se tenho 48 anos. Eis as únicas e derradeiras coisas de que tenho certeza: estou vivo e quero minha mãe.

Dôra Limeira








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