PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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18 Maio 2007




CARTA ABERTA AO PORTEIRO DO INFERNO


Meu querido e sofrido Porteiro. Tenho acompanhado tua trajetória de vida, desde teu nascimento. Conheci Jackson Ribeiro, esse artista que te concebeu, te deu forma e vida. Foste construído sob encomenda, porque Jackson tinha uma dívida com o governo do Estado. A princípio sem nome, foste instalado num canteiro florido próximo ao Lyceu Paraibano, em 1967. Fui até lá para te ver. Como estavas tão elegante, garboso. Muito expressivo, teu corpo de ferro retorcido parecia querer falar. Tua ferragem combinava com flores e folhas dos ipês da avenida. Essa estranha aparência fez com que o escritor Virginius da Gama, num de seus arroubos poéticos, te chamasse de “Porteiro do Inferno”, inspirado em Cérbero da mitologia grega. Isso gerou controvérsias, polêmicas e discussões. Cada pessoa emitia um parecer. Dizia-se até que, oficialmente, te chamavas “O Homem Astronauta”. Mas o fato é que o insólito nome “Porteiro do Inferno” pegou, logo foi aceito nas rodas poéticas, acadêmicas e sociais. “Mais fortes são os poderes do povo”, daí que o nome se popularizou. Meu querido Porteiro, tem sido longa tua peregrinação pela cidade. O obscurantismo, a intolerância, o preconceito de grupos minoritários têm se mobilizado contra tua existência e contra teu nome, num explícito desrespeito à memória do artista que te concebeu. Religiosidade é confundida com cegueira e fanatismo nesta cidade. Tamanha confusão tem tentado jogar lama na tua figura e em tudo que representas. Assim, ameaçam apedrejar a liberdade de expressão. Em dados momentos, a estupidez chegou mesmo a vencer a sabedoria. Num desses momentos de obscuridade, foste retirado do jardim florido onde estavas há trinta anos e banido para algum lugar escondido, onde a cidade não mais pudesse te ver. Ah, meu querido Porteiro. Pude observar a situação de sucata a que foste relegado, indefeso, naquele Espaço Cultural decadente, corroído pelo abandono. Vi o quanto foste vítima do desprezo e do preconceito de grupos e instituições políticas atrasadas, mentes retrógradas. Quando se pensou em te colocar no girador da Beira-Rio, nova onda de reacionarismo te atingiu. Mas, o mundo dá muitas voltas. Nesses novos tempos, a cidade respira ares de liberdade. E assim, meu querido Porteiro, voltaste a lume. Novamente aureolado de luzes, gramas e flores, em frente à UFPB, lá estás, com toda a tua dignidade, pujança e galhardia, tal como um dia Jackson Ribeiro sonhou. Muito me comovi quando te vi assim, cercado de carinho e respeito. Pensei: “Agora sim, Porteiro. Encontraste teu lugar definitivo, tua quietude”. Mas, poucos dias se passaram e novamente tua paz está sendo ameaçada. Já se escutam cochichos e rumores, comentários velados e desvelados de pessoas pertencentes a grupos reacionários e resmungões. “Afastem o Porteiro do Inferno! Afastem o Porteiro do Inferno! Tirem-no daqui, levem-no para longe!”, é assim que eles sussurram. Uma onda de histerismo percorre ruas, becos e sacristias, passam sorrateiramente por altares sagrados, passam por abaixo assinados, murmurando impropérios contra uma obra de arte, contra a memória de um artista. Que insanidade, meu querido Porteiro, quanta mediocridade. No entanto, isso não vai passar em brancas nuvens. Há pessoas esclarecidas, sensíveis e conscientes que se comovem e querem tua permanência alí, onde estás. É preciso impedir que mais uma injustiça seja perpetrada contra ti. A cidade quer te abraçar, Porteiro, quer formar uma grande ciranda em volta de ti, pela paz, pela vida, pela liberdade de expressão. Em defesa da arte e dos artistas. Peço-te que nos aguardes, pois logo, logo chegaremos junto de ti para um abraço fraterno, em desagravo.

Dôra Limeira
Maio de 2007





15 Maio 2007

COTIDIANOS AMARGOS
Todo dia ela acorda e levanta cedo. A primeira ação é verificar se ele dormiu em casa, se já acordou, se está deitado, se ainda dorme. Cumpre este seu cotidiano sofrido, como se fosse coisa religiosa, um ritual ou penitência. Preocupa-se com ele, quer saber se bebeu de madrugada, se consumiu muito, se pouco, quantos copos, quantas garrafas. Assim transcorrem os pensamentos diários de Celeste. Neste momento, ele ainda dorme. Cedo, Celeste cuida das coisas de todo dia. Tem que preparar o café dos filhos antes de mandá-los para a escola. Precisa se abastecer de material para o almoço, material de limpeza, precisa suprir outras miúdas necessidades domésticas. Mais tarde, tem que pagar contas atrasadas. Precisa depositar algo na conta bancária que está desfalcada por causa dos destemperos dele. Celeste é casada há dez anos. É pessoa simples, doméstica, vende confecções em casa. Muito católica, não falta à missa dos domingos, conversa com as amigas e com o padre, pede conselhos, estuda a bíblia. O padre supõe que o marido dela seja um dependente de álcool. “Deus me livre, padre. Ele bebe raramente. Às vezes se excede um pouco em finais de semana, nada sério. Graças a Deus, meu marido não é alcoólatra”. Mas intimamente, Celeste sabe que o marido bebe demais, que sacrifica as feiras semanais e as mensalidades do colégio das crianças que é para suprir suas necessidades de álcool. Em profundo foro íntimo, ela sabe o quanto sofre quando ele se embriaga, o tanto que se assusta com as agressões verbais e físicas, com a quebradeira de utensílios domésticos, só ela mesma sabe de sua ira e do medo. Mas, naquele dia, ele ainda dorme, tranqüilo. Celeste há muito espera que o marido se regenere um dia, quem sabe. É pessoa dócil, cidadão ordeiro, educado, cumpridor dos deveres, quando sóbrio. Mas, quando bebe, parece ser outra pessoa, aparenta estar possuído por alguma entidade diabólica. Passado o transtorno, arrepende-se, confessa-lhe mil vezes que a ama, repete quase chorando que não vai mais fazer aquilo, eu juro, eu te quero, sabes o quanto te amo, prometo que isso e aquilo. E ajoelha, e beija, e essas coisas, e outras, e outras mais. Celeste sabe que, de coração, ele é sincero. Comove-se, acredita, e vai ficando, desistindo de ir embora, dia após dia, crendo sempre que tudo vai melhorar. Passam-se semanas, meses, e antes de completar um ano, ele volta à mesma coisa. Ela lhe diz você não me ama, não me quer, você me troca por uma garrafa, por um copo de bebida, a cachaça é mais importante do que eu, se você me quisesse, parava com essas coisas, mas você não me ama, não me quer, faz essas loucuras comigo para me agredir, nem respeita a presença das crianças, um dia, sei que vou me cansar e vou embora por esse mundo afora feito uma cachorra perdida. Um violento tapa estala no rosto de Celeste e ela se tranca no quarto com os meninos, chorando de dor e de raiva. Tem sido sempre assim. Mas hoje, graças a Deus, ele dorme, ressona uma paz de nada. As vezes em que não chega em casa à noite, Celeste reza, avalia a situação e tenta compreender. Em seus recônditos mais interiores, ela procura culpados, a culpa é dos amigos que o chamam para beber, são os colegas de trabalho que o levam para as orgias, pensa ela, se eles não o convidassem para serestas, farras e inferninhos, ele se aquietaria em casa, mas não, os amigos são egoístas iguais a ele, não pensam nas famílias, nos filhos, nos trabalhos. O marido se estraçalha no álcool e transtorna a vida por culpa das más influências, dos maus amigos. Pois bem, deixe estar, pensa ela, resoluta, falta muito pouco para que me decida, vou embora para longe, mundo afora, caso ele recaia na bebedeira. Mas agora ele está dormindo tranqüilo, seminu, o corpo relaxado, uma nesga de baba escorrendo pelo canto dos lábios. Enquanto Celeste encaminha as primeiras providências do dia, pensa, reflete, fala consigo mesma. Acorda as crianças para a escola e se aquieta nos afazeres da cozinha, mansa, silenciosa. Prepara a refeição matinal dos filhos e reflete sobre o que vai fazer para o almoço, agora que ele está em casa, tranqüilo. Lembra-se, e é como se estivesse assistindo um filme, de quantas vezes preparou quitutes saborosos, receitas novas, de quantas vezes organizou a mesa de modo diferente, nova decoração. Quantas vezes o almoço esfriou, tudo ficou azedo e ele só chegou à noite, inútil, embriagado, sujo. Tantas e quantas vezes que se programam, ela e a família, para viajar, passar um fim de semana prolongado numa estância balneária fora da cidade. Os meninos se excitam, organizam-se as coisas, roupas esportivas, roupas de banho, essas coisas de passeio. Enquanto Celeste agiliza para que tudo transcorra bem, ele vai ao posto abastecer o carro e calibrar os pneus. Volto logo querida, ele diz. Celeste e as crianças, depois de tudo pronto, postam-se num batente à beira da calçada de casa, sentados com as mochilas, e põem-se a esperar. Passa-se uma hora, passam-se duas horas, passam-se todas as horas do mundo. As crianças, impacientes, agridem-se, choram. A noite chega, a família se recolhe junto com as mochilas, e ele, o que dizer dele? Celeste perdeu as contas de quantos bilhetes tem escrito dizendo-lhe que se cuide, que leve as crianças para a casa da mãe dele, que esqueça tudo, que não a procure nunca mais. No entanto, não há tempo, o trinco da porta se mexe, é ele chegando, sujo, alquebrado, aos prantos. Ela amarrota o bilhete e disfarça o mau humor. E pensa que aquele ainda não é seu momento. Todo este filme desfila na lembrança de Celeste enquanto ela prepara os meninos para a escola, encaminha-os para o banho, trata de vesti-los e põe o café da manhã à mesa. Ele ainda dorme, sossegado, babando, roncando alto. Pé ante pé, ela se aproxima do rosto dele, cheira-lhe mecanicamente o hálito e pensa: não, ele não bebeu, graças a Deus. Depois que as crianças saem para a escola na esquina de casa, Celeste inspeciona tudo, procura bebida por todo canto, nos lugares mais impossíveis da casa, no medidor de luz, no reservatório geral da água, no oratório da sala. Não encontra nada. Toma um café com leite e, com o traje simples de casa, sai para o armazém que dista duas quadras. Tomara que ele não acorde tão cedo, pensa ela. No trajeto, outro filme passa-lhe pela lembrança. As crianças se recusam a comemorar seus aniversários em casa, preferem cantar parabéns, apagar velinhas e comer bolo com refrigerante na escola, porque, se a festinha for em casa, temem que os colegas e as professoras vejam o pai em estado de embriaguês, vomitando, chamando palavrão, quebrando coisas. Foi assim no Natal passado. Celeste teve medo dele. Teve vergonha, relutou muito, mas decidiu chamar a polícia. Os vizinhos viram tudo, viram quando o camburão chegou, quando o levaram, viram as crianças chorando de pavor. Que vergonha, que vexame. Um carro de polícia parado na porta da sua casa em pleno Natal, meu Deus. Celeste nunca na sua vida inteira tinha passado por tamanha vergonha. Mas ele agora está dormindo, ressonando. A vida de Celeste tem sido um calvário, com muitos problemas de toda ordem, problemas financeiros, familiares e conjugais. Mas nada, nenhum problema se compara com a aflição de ver o marido perturbado, agressivo, vomitando e chorando. Enquanto Celeste examina as prateleiras do armazém e escolhe os produtos de que precisa, pensa muito em suas questões objetivas, seus conflitos íntimos. E conclui que, se ele parasse, se ele se regenerasse, tudo estaria resolvido. No caixa do armazém, enquanto Celeste paga as coisas, conversa sozinha, sem que ninguém perceba. O transtorno do marido tem lhe trazido problemas financeiros, dívidas, contas acumuladas, feiras desfalcadas. Isso tem causado vexames para a família, principalmente para as crianças, humilhadas na escola pelas mensalidades atrasadas, às vezes envergonhadas pelo Natal com roupas velhas. Mas ele neste momento está em casa deitado, a porta do quarto aberta, ressonando alto, tranqüilo como se estivesse morto. Celeste hesitou e rabiscou no verso da nota fiscal do armazém: “Cuide-se, leve as crianças para a casa de sua mãe, esqueça tudo e não me procure nunca mais”. Chamou o moço empacotador e pediu-lhe: Por favor, leve essas compras para minha casa, no endereço tal, número tal, aqui pertinho, e entregue este bilhete ao Senhor Fulano de Tal que, a essa hora, ainda deve estar dormindo. Chame-o e entregue-lhe tudo. Fique com estes trocados, muito obrigada, bom dia.
Dôra Limeira







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