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Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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16 Junho 2007

ABRA ESTA PORTA, MEU FILHO.

Dona Maria Helena e Sr. Amaro tinham um filho único: Luis Saviano. Moravam no sítio Cacimba de Nossa Senhora, perto da capital, numa casinha pequena: dois quartos, sala, cozinha, varanda e quintal, num vilarejo de poucas casas.
Desde criança, o filho tinha a tendência de se entristecer, por nada. Fazia muito tempo que Dona Maria Helena e Sr. Amaro vinham percebendo. De tempos em tempos, Luis Saviano se trancava no quarto e ligava o rádio de pilha. Permanecia assim durante horas, dias e até meses. Às vezes saía para satisfazer necessidades biológicas. Não falava. De quando em quando, resmungava ninguém sabia o que. Depois de curtir sua melancolia por intermináveis dias, Luis Saviano voltava ao normal. Por nada, acordava, dava bom dia aos pais. Tomava banho, escovava os dentes e sentava à mesa, para comer cuscús com café. Era como se nada tivesse acontecido. Do jeito que Luís Saviano adentrava profunda tristeza, saía, sem motivos aparentes ou explicações.
Naquele mês de dezembro, Luis Saviano sofreu um dos seus mais profundos ataques de tristeza. Permaneceu trancado em seu quarto por muito tempo, o rádio de pilha sempre ligado. Sr. Amaro e Dona Maria Helena adormeceram e acordaram durante vários dias, ouvindo os resmungos prolongados e incompreensíveis do filho. Num daqueles dias de dezembro, pela manhã, os pais se entreolharam, preocupados. Ouviram Luis Saviano chorando um pranto soluçado e desvalido: “Quero morrer”. A mãe tentou tirar Luis Saviano de dentro do quarto, despregá-lo de sua tristeza. "Abra a porta, Luisinho". Mas Luis Saviano apenas resmungou e aumentou o volume do rádio. Reginaldo Rossi cantava numa emissora local: “Eu hoje quebro esta mesa, se meu amor não chegar.” A canção brega de Rossi fazia contraponto ao choro convulsivo de Luis Saviano. Aquele pranto desprotegido feriu os ouvidos dos pais, cada vez mais apreensivos. “Luisinho, vamos ao médico. Você está precisando de ajuda. Abra esta porta, pelo amor de Deus”. Dona Maria Helena e Sr. Amaro observavam que o desvario do filho se agravava a cada dia, a cada hora. Foi assim durante todo o mês de dezembro, até o dia 31. No dia primeiro de janeiro, manhã cedinho, a cidade despertou com a voz estridente do locutor da rádio difusora local:

“Fato lamentável aconteceu na madrugada de ontem para hoje, no sírio Cacimba de Nossa Senhora. O aposentado Luis Amaro da Silva, 74 anos e a aposentada Maria Helena da Silva, 72 anos, foram atacados pelo próprio filho, Luis Saviano da Silva – Luisinho -, 52 anos, enquanto dormiam. O filho desferiu vários golpes de faca peixeira nos pais indefesos. Após o delito, trancou-se em seu quarto. Alertados por gritos e pedidos de socorro, os vizinhos arrombaram a porta da casa. As vítimas estavam deitadas na cama, ainda vivas, esvaindo-se em sangue. Os vizinhos os transportaram até o hospital da cidade mais próxima, em estado grave. Após chamar a ambulância, arrombaram a porta do quarto de Luis Saviano que ainda estava segurando a faca peixeira e acompanhava um jogo de futebol no rádio de pilha. A Polícia foi acionada e conduziu Luis Saviano à capital, onde será submetido a exames psiquiátricos, já que há suspeitas de problemas mentais.”

Rezava-se a missa de ano novo na igreja matriz, para comemorar a data de confraternização universal. A temperatura estava muito alta. Naquele momento, o aposentado senhor Luis Amaro da Silva e a mulher dele senhora Maria Helena da Silva se ultimaram em macas, no corredor do hospital, sem leitos que lhes ninassem os corpos feridos e cansados, sem planos de saúde que lhes recompusessem as vísceras dilaceradas pelo filho insano. Assim à míngua, vislumbraram a presença de Deus.

Na delegacia, Luisinho Saviano disparou num choro convulsivo. “Não lembro de ter feito nada. Não me lembro de nada”.

Dôra Limeira







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