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29 Julho 2007
CARBONIZADO
Agora, preso de si mesmo, já não lhe resta mais nada. Cruza os braços, trinca os dentes e clama enraivecido: “Deus, se você existe como dizem, diga-me porque me permitiu viajar nesse dia e nesse horário”. A aparência desgrenhada de presidiário, as pálpebras gradeadas e a barba por fazer reforçam-lhe o ar macabro. Resmunga qualquer coisa inaudível e, não obtendo resposta, põe-se a cochilar de pé. E tenta dormir. Mas, sufocando em meio a fogo, fumaça, explosões e asfixias gerais, não tem outra alternativa a não ser esperar o Juízo Final que está prestes a chegar, trancado numa caixa preta.
Dôra Limeira
A QUARTA HORA
Alguma coisa estava diferente naqueles dias mais recentes. A visão era cansada e embaçada, as pernas mais trêmulas. Escutava um zumbido permanente nos ouvidos como se dentro houvesse um besouro. Ultimamente, a boca se tornava mais ressequida, as feridas mais purulentas e o fedor de seu próprio corpo se exalava mais ativo. Tudo lhe dizia que o fim estava próximo. Médicos e enfermeiros já providenciavam que a família fosse avisada. “Oscar, vá embora daqui, saia de baixo da minha cama. Tenho asma alérgica.” Fazia quatro horas que o gato estava ali postado, os olhos claros, roronando, preguiçoso. No final da quarta hora, sussurrando, ela reclamou pela última vez “vá embora, Oscar”. E uma lufada de saliva branca escorreu-lhe por entre os lábios. Tossiu, asfixiou-se, arregalou os olhos e um espasmo contraiu-lhe o tórax. Dentro de cinqüenta e oito segundos chegou à presença de Deus.
Dôra Limeira
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