PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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23 Outubro 2007



CHEIRO DE FERRUGEM



Maguinha era menina ainda, mas em seu perfil alguns estranhos e implacáveis sintomas já se faziam notar. No limite entre ser menina e ser mocinha, os sinais apareciam, evidentes. Os seios endurecendo e dolorindo, as curvas se delineando e aquele desejo indefinido que sempre a atacava à boquinha da noite. Tinha vontade de experimentar coisas diferentes misturada com uma vontade muito grande de chorar, a cada anoitecer. Entre o brinquedo e o batom, o limite se desenhava, tênue. Maguinha ora brincava com o cachorro Pimpim, ora se maquiava, como se esperasse um namorado. Umas vezes abraçava o ursinho de pelúcia, outras vezes abraçava-se a si mesma. Queria ser gente grande, mas tinha medo. Naquela fronteira, no lado onde se encontrava, era mais seguro. Sentia-se mais ela, nem menina nem moça. Era pura e meramente Maguinha, o corpo esguio, a mente solta, irresponsável. Não conheço mais minha filha. A mãe de Maguinha notava as diferenças. Calada e arisca, a menina a tudo respondia com evasivas, desviando os olhos, monossilábica. Numa madrugada de sexta-feira para o sábado, Maguinha acordou com o entre pernas úmido. Uma cólica lhe percorreu o corpo entre a cintura e o pé do ventre. Na penumbra do quarto, suas mãos tatearam as coxas e tocaram toda a extensão da vulva. Maguinha cheirou os dedos sujos de secreção e sentiu um leve odor de ferrugem. “É sangue”. Finalmente, tinha atravessado a fronteira. Maguinha desatou num pranto, agarrada ao urso de pelúcia, presente recebido no último Natal. Entre espasmos lacrimosos, pensou “Mãe. Quero minha mãe”. Amanheceu e, no quarto vizinho, a mãe de Maguinha ainda ressonava.



Dôra Limeira





09 Outubro 2007

LOAS E REFRÕES DE UM SUICÍDIO


Ismália, naquele dia em que você enlouqueceu e se trancou por dentro da torre mal assombrada, eu pouco entendia de mim, pouco entendia do mundo. Mas de uma coisa eu tinha certeza: você me despertou sentimentos esquisitos, desde meus primeiros anos de vida. Sua pele macia, hidratada, seu olhar perdido, sua voz rouca, tudo em você me atingiu. Eu tão criança ainda, e meu corpo, naquele tempo, já palpitava a cada toque de seus dedos. Não, Ismália, você não foi sempre louca. Você foi meiga, delicada, você tinha um jeito estranho de se perder dentro de meu olhar. Em noites de minha infância, acalentou-me e contou histórias para serenar-me a alma de menino inquieto. Você tinha um doce modo de se retirar, pé ante pé, quando eu adormecia. Mas, naquela noite de junho, lembro-me que era um domingo, você correu, subiu a escadaria estreita gritando, desatinada: deixem-me subir, eu quero a lua. Em altos e lancinantes brados, você escalou o mundo e chegou ao mais alto da torre. Sua túnica esvoaçou ao vento, na friagem da noite. Eu pouco entendia de qualquer mundo, Ismália. Mas não sei que intuição me fez tentar deter sua escalada insana. Não sei que tipo de pensamento me atravessou o juízo e me fez dizer pelo amor de Deus, pare, volte aqui, Ismália. Mas eu era muito criança ainda, e um soluço interceptou-me a garganta. Os adultos me pegaram pelas mãos e me levaram para longe. Disseram eles que uma criança não devia ouvir aqueles seus gritos, Ismália, não podia ver aquele seu rosto desvairado. Não vi mais você, não vi mais nada. E, porque eu pouco entendia do mundo, não soube o que lhe aconteceu. Dias e mais dias se passaram e eu perguntei a um e a outro: onde está Ismália, onde está Ismália, onde está Ismália. Minha mãe me disse aquieta, menino. Um coro de adultos entoou deita, menino, vai dormir. Cresci, viajei, casei, procriei. Muito mais tarde, já homem feito, minha mãe me contou retalhos de sua história, Ismália. Naquele domingo de noite, quando subiu à torre, você cavalgou num sonho, adentrou um devaneio e não mais retornou. No seu delírio, você viu duas luas, uma no céu, outra no mar. E você se perdeu em dilemas. Ora queria alcançar uma lua, ora outra lua. Minha mãe, emocionada, me disse que você se pôs a cantar loas em todos os tons, afinando, desafinando, em desvairadas alternâncias. Entre chorando e cantando, numa loa compungida, você pediu asas a Deus. Asas, meu Deus, dê-me asas. Do mais alto da torre mal assombrada, janelas escancaradas, seu canto desentoado foi tão sentido, que toda a localidade chorou. Dê-me asas, meu Deus, foi o que você entoou em refrão. Você não sabia, Ismália, mas já estava bem perto do céu, estando tão perto do mar. Minha mãe me disse que você desejou asas para voar ao infinito ou para naufragar em profundezas. E, comovida, com a fala entrecortada, minha mãe me contou sobre o final deste sofrimento. Suas loas desafinadas, Ismália, sem tons e sem ritmos, desabotoaram o coração de Deus. Atendendo ao seu pedido, Deus lhe deu um par de asas que, imediatamente, ruflaram em direção ao infinito. Sua alma subiu ao céu, mas seu corpo, Ismália, desceu ao mar.
(O texto foi inspirado no poema “Ismália”, de Alphonsus de Guimarães).

Dôra Limeira





01 Outubro 2007

A capa d´O Beijo de Deus é uma figura de Vant. Uma mulher, uma estranha criatura. Ela está à janela olhando não se sabe o que, não se sabe para onde. Sabe-se que tem um olhar esquisito e a boca é sensual. A criatura está despida com fartos seios à mostra. A expressão de seu rosto é de quem pede um beijo. Mais uma vez, Vant adentra o sentido e o espírito do meu livro.







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