PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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11 Maio 2008



NAQUELE MAIO DE 68


No ano do golpe militar, deixei a casa dos meus pais e fui morar com o maestro Pedro Santos que,desde então, se tornou meu companheiro até o dia em que a vida e a morte assim permitiram.

Em maio de 68, estava grávida da minha filha caçula, cinco meses de gravidez, a barriga já proeminente. Minha última gravidez. Ensinava História em Santa Rita, no colégio estadual. Depois de ver colegas de trabalho presos, outros demitidos pela ditadura, tentei resistir à repressão encenando com os meus alunos pequenas peças que falavam sobre liberdade. Por exemplo, escrevi um texto chamado O Auto da Inconfidência, onde por incrível que pareça, Felipe dos Santos, o precursor da Inconfidência, foi o personagem mais forte. Em torno dele, se passaram as cenas com maior carga dramática. O Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles me serviu de inspiração para elaboração do texto. Tentei envolver o maior número possível de alunos nessa montagem. Lembro que o final do “espetáculo” foi um tanto quanto apoteótico. Todo o elenco e os figurantes em palco, com violão, cavaquinho, pandeiro, caixa, surdo. A um leve aceno que fiz com a mão, os alunos dispararam cantando Joaquim José / da Silva Xavier / morreu a 21 de abril / pela independência do Brasil / foi traído / e não traiu jamais / a Inconfidência de Minas Gerais. Depois, escrevi outros textos, montei outras encenações, sempre tentando envolver o maior número possível de alunos.

Eram tempos difíceis, de atropelos políticos, financeiros, existenciais. Meu companheiro Pedro Santos também era professor do Estado, dava aulas em Sapé, aulas de Música. Antes, em 1964, tinha perdido o emprego pró-labore no Lyceu Paraibano juntamente com outros professores considerados subversivos.

Em maio de 68, a televisão tentava anestesiar a população brasileira com slogans ufanistas, apelos hipócritas, enquanto nos porões da repressão espancava-se, coagia-se, matava-se.

Em maio de 68, eu era jovem, trinta anos, tinha bastante energia, trabalhava muito, não somente dando aulas. Além da carga horária em sala de aula, assumi um compromisso comigo mesma de atuar junto aos alunos para que eles percebessem que estavam sob o jugo de uma ditadura ilógica. Eles precisavam perceber que era preciso cultivar a liberdade dentro dos estreitos limites que nos impunham, sob pena de sucumbirmos ao peso da mediocridade, da opressão.

Em maio de 68, eu tinha quatro crianças pequenas e uma menina na barriga. Foram tempos de muitas privações materiais, dificuldades sem conta. Carregando meus sintomas de gravidez, meus tédios e meus antojos, eu enjoava, vomitava dentro do ônibus a caminho do colégio onde dava aulas. Tinha a pele do rosto manchada de “pano preto”. Dizia-se que aquilo era próprio da gravidez. Alias, desde 1964, que eu tinha pano preto a me afear o rosto. Foi no ano de 1964 que engravidei pela primeira vez. Desde então, não parei de engravidar, ano após ano, até o dia em que nasceu minha filha caçula.

Em maio de 68, não tínhamos carro, nem telefone nem casa própria. De despejo em despejo, nossas coisas foram parar na casa da vizinha da frente. Ela acolheu nossa geladeira, nosso fogão, nossas coisas enfim. Era outro despejo, era a CEF me dando dois ou três dias para que eu desocupasse o imóvel, em nome da pátria, da propriedade e da família. A troçalhada ficou na casa da vizinha e eu com as crianças e Pedro Santos nos alojamos na casa da minha mãe.

Enquanto fui obrigada, no colégio, a dar aulas de Educação Moral e Cívica e de Organização Social e Política do Brasil – OSPB, minha vida era desorganizada, tudo quanto era de prestação estava em atraso, sarampo e catapora atacavam os meninos. Até sarna tivemos. Eu madrugava para apanhar fichas de médicos para as crianças no IPEP. Em maio de 68, Pedro dava aulas também fora do Estado, a convite de universidades. Tentava assim equilibrar nosso orçamento.

Nunca fui presa, não fui torturada, não perdi meu emprego, visto que não pertencia a qualquer organização clandestina. E foi bom que tenha sido assim. Felizmente que me deixaram livre para circular e eu pude fazer, na surdina, um trabalho de conscientização junto a meus alunos, sem deixar rastro explicito.

Hoje, em 2008, temos um outro maio. Mês das flores e de Nossa Senhora, mês das noivas, mês de Nara minha filha caçula, mês de Dilma Roussef que soltou seu grito, seu desabafo histórico numa célebre sessão da Câmara Federal: “Eu me orgulho de ter mentido para os torturadores, porque sabia que assim estaria salvando vidas de companheiros. Eu não tenho e nem tinha compromisso com a ditadura. Por isso menti com muita honra”. Brava mulher.

Hoje, neste maio de 2008, vejo a meninada nas ruas de novo. Querem mais liberdade, querem fumar maconha, querem comprar seu baseado no boteco da esquina em vez de comprar ao traficante. Querem a irreverência contra a mediocridade. As mulheres querem ser as donas de seus próprios corpos, sem hipocrisia.

Quarenta anos se passaram desde aquele maio de 68. Meus cabelos estão brancos, as rugas se acentuaram, minha aparência perdeu a forma, mas a memória está acesa. Antes do meu último suspiro, com toda a minha lucidez, quero dizer que valeu a pena.

(Este texto é dedicado às minhas filhas Dea, Raquel, Ruth, Nara e à memória do meu filho Aruanda)

Dôra Limeira






AINDA É MAIO

Ronaldo Monte (*)


Não sei o que Dôra Limeira estava fazendo em maio de 68, ou antes e depois dele. Sei que ela tem o hábito de usar a bolsa com a alça cruzada no peito, sinal de que ela já levou muita carreira da polícia. Agora, eu sei bem o que Dôra estava fazendo no fim da tarde do dia quatro de maio de 2008. Estava participando da Marcha da Democracia, junto com a filha e o namorado desta. Quero só esclarecer que esta marcha foi organizada como protesto à proibição pela justiça de uma marcha anterior a favor da legalização da maconha. Vamos deixar a própria Dôra dizer o que viu, do alto dos seus setenta anos:

“Havia muitos jovens, muitas cores, sorrisos, brincadeiras e palavras de ordem. Era muita a energia que ali estava canalizada. Portavam e exibiam toscos cartazes em cartolinas, com mensagens escritas com pincel atômico. O que queriam aqueles jovens assim irmanados naquele momento, naquele espaço? O que diziam aqueles cartazes e faixas rústicas, algumas, podia-se ver, confeccionadas em casa? (...) Queriam eles que fossem respeitadas as suas opiniões, seu direito de ir e vir, queriam falar, dizer. Queriam sorrir, jogar fora mordaças, bradar por liberdade de manifestação.“(...) No entanto, em dado momento, percebi um tumulto se formando em torno do carro de som. O que seria? Policiais de trânsito e policiais militares anunciaram que o carro não podia prosseguir, alegavam irregularidades burocráticas.“Aquilo foi mesmo que jogar água fria na fervura. Mas a turma acatou, mesmo que a contragosto, fazer o quê?. A turma era gente do bem. Fariam a festa ali mesmo, em volta do carro, os microfones ligados, a música tocando, a multidão dançando no meio da rua. Não haveria a caminhada, mas apenas um protesto. Gentes sentavam no asfalto, encenavam mordaças, alguns iniciavam coros dizendo abaixo a repressão, democracia sim.

"Mas as autoridades só queriam truculências, tumultos. Policiais desligaram o som do carro, repuxaram fios, danificaram a instalação e fizeram um cinturão em torno do carro de som, como quem diz aqui ninguém encosta mais. Exacerbaram-se os jovens, até então muito calmos. Os policiais disseram ‘vamos levar o carro’. Os jovens disseram que não. Um rapaz se deitou na frente do carro para impedir, os policiais arrastaram o corpo do rapaz para que saísse da frente à força. Os policiais extrapolaram em suas posturas e levaram o carro embora. Vi quando os policiais espancaram um moço. (...) Ouvi impropérios, gritos de ‘abaixo a repressão’, insultos de lado a lado.

“De repente, que horror. Tropa de cavalaria invadiu a rua, os cavalo’s se postaram em posição de atacar. A turma se irmanou (...). O hino nacional avançou nas vozes afinadas dos manifestantes. Os cavalos ameaçaram pisotear todos. Vi repentinamente quando os animais avançaram na multidão, bombas de efeito moral explodiram. Meninos, rapazes e moças, senhores e senhoras, anciãs e anciãos correram atabalhoados para escapar das patas dos animais. Entrei em pânico, todos entraram em pânico. Algumas pessoas tentaram se proteger entrando nos bares, os cavalos entraram também nos bares, uma multidão correu para a areia da praia, tentando se proteger, os cavalos invadiram a areia galopando atrás da multidão.

"Eu não via mais nada, sabia apenas que precisava correr muito na areia. Finalmente, senti braços protetores em meus ombros e ouvi alguém me dizendo palavras de conforto. Era minha filha e o namorado dela falando comigo. Alguns rapazes desconhecidos também me cercaram em gestos de proteção."

Dôra está aí para nos lembrar que ainda existe maio. Que a chama que se alastrou pelas ruas do mundo em 68 ainda não se extinguiu. Ela ainda arde nos corações de pessoas como Dôra, prontas para ir às ruas com a alça da bolsa cruzada no peito, dispostas ao que der e vier.





(*) Ronaldo Monte é poeta, romancista, contista e psicanalista.






A MARCHA PELA DEMOCRACIA




Tenho 70 anos e quero contar a quem interessar possa tudo o que ví na praia, naquele domingo, 4 de maio de 2008.

Eram aproximadamente 17 horas quando chegamos, eu, minha filha e o namorado dela, ao local de onde sairia a Marcha de Democracia. Havia muitos jovens, muitas cores, sorrisos, brincadeiras e palavras de ordem. Era muita a energia que ali estava canalizada. Portavam e exibiam toscos cartazes em cartolinas, com mensagens escritas com pincel atômico.

O que queriam aqueles jovens assim irmanados naquele momento? O que diziam aqueles cartazes e faixas rústicas, algumas, podia-se ver, confeccionadas em casa? O que queriam eles em cima de um pequeno carro de som, bradando num microfone? Por que tanta agitação naquele domingo à tarde? Em dado momento, um jovem aparentando ter 22 anos, explicou no microfone: eles estavam organizados para seguir em caminhada ao longo de toda a orla, em defesa de suas expressões. Queriam eles que fossem respeitadas as suas opiniões, seu direito de ir e vir, queriam falar, dizer. Queriam sorrir, jogar fora mordaças, bradar por liberdade de manifestação. Era um espetáculo bonito de se ver, movimento incisivo, mas ordeiro, pacifico.

A marcha deveria seguir acompanhando o carro de som, de Tambau até final de Manaira. Nesse percurso, haveria música, animação de rua, palavras de ordem, tudo dentro da ordem, da lei. No entanto, em dado momento, percebi um tumulto se formando em torno do carro de som. O que seria? Policiais de trânsito e policiais militares anunciaram que o carro não podia prosseguir, alegavam irregularidades burocráticas. Aquilo foi mesmo que jogar água fria na fervura. Mas a turma acatou, mesmo que a contragosto, fazer o que. A turma era gente do bem. Fariam a festa ali mesmo, em volta do carro, os microfones ligados, a música tocando, a multidão dançando no meio da rua. Não haveria a caminhada, mas apenas um protesto. Gentes sentavam no asfalto, encenavam mordaças, alguns iniciavam coros dizendo abaixo a repressão, democracia sim. Mas as autoridades só queriam truculências, tumultos.

Policiais desligaram o som do carro, repuxaram fios, danificaram a instalação e fizeram um cinturão em torno do carro de som, como quem diz aqui ninguém encosta mais. Exacerbaram-se os jovens, até então muito calmos. Os policiais disseram vamos levar o carro. Os jovens disseram que não. Um rapaz se deitou na frente do carro para impedir, os policiais arrastaram o corpo do rapaz para que saísse da frente à força. Os policiais extrapolaram em suas posturas e levaram o carro embora. Vi quando os policiais espancaram um moço. Até então, eu tinha permanecido distante, observando e me indignando com tudo que estava acontecendo. Ouvi impropérios, gritos de abaixo a repressão, insultos de lado a lado.

De repente, que horror. Tropa de cavalaria invadiu a rua, os cavalos se postaram em posição de atacar. A turma se irmanou mais e entoou ouviram do Ipiranga as margens plácidas, de um povo heróico o brado retumbante, o sol da liberdade em raios fulgidos brilhou no céu da pátria nesse instante. O hino nacional avançou nas vozes afinadas dos manifestantes. Os cavalos ameaçaram pisotear todos. Vi repentinamente quando os animais avançaram na multidão, bombas de efeito moral explodiram. Meninos, rapazes e moças, senhores e senhoras, anciãs e anciãos correram atabalhoados para escapar das patas dos animais. Entrei em pânico, todos entraram em pânico. Algumas pessoas tentaram se proteger entrando nos bares, os cavalos entraram também nos bares, uma multidão correu para a areia da praia, tentando se proteger, os cavalos invadiram a areia galopando atrás da multidão.

Eu não via mais nada, sabia apenas que precisava correr muito na areia. Finalmente, senti braços protetores em meus ombros e ouvi alguém me dizendo palavras de conforto. Era minha filha e o namorado dela falando comigo. Alguns rapazes desconhecidos também me cercaram em gestos de proteção. Essas coisas não são fictícias, eu vi tudo. Os canais de televisão estiveram filmando. Meu nome é Dôra Limeira, tenho identidade, cpf e endereço fixo. Pago os impostos em dia, sou professora aposentada.


Dôra Limeira
11 de maio de 2008.

(A Marcha pela Democracia foi organizada em protesto contra a proibição da Marcha da Maconha)







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