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Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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25 Setembro 2008





ACALANTO OBSESSIVO.



Não fique assim transtornado, meu filho. Sim, se é isso que você quer, eu vou sair à procura dela. Em algum lugar do mundo ela há de estar. Tranquilize-se, meu filho, que eu dou seu recado. Vou dizer para ela que não dá para continuar assim, que desse modo você pode até morrer. Você parece muito abatido, quem sabe esteja em depressão profunda. Sim, meu filho, posso fazer todas as coisas que você me pede. Dói-me ver você desse jeito, cabeça baixa, chorando, sem comer, sem ao menos tomar banho. Estou decidida. Se for preciso, sou capaz de me ajoelhar e rezar diante dela. Pedir-lhe que volte, que devolva a harmonia desta casa. Posso dizer para ela que aqui tudo é feio, triste, tudo é melancolia depois que ela foi embora. Ajoelhada, vou dizer que a depressão tomou conta de você, filho, e não dá sinais de que vai sair. Sim, digo-lhe todas essas coisas que você está me pedindo. Que, se ela regressar e esquecer tudo que houve, será a coisa mais linda que Deus já viu. A casa vai ficar mais bonita, o jardim florido, sorrisos de maria se abrindo ao sol. Parece que estou vendo a cena. Sim, prometo que digo tudo. Não fique triste. Escute esse meu acalanto, filho. Eu juro que percorro todos os pontos cardiais e colaterais da cidade. Hei de encontrá-la em algum lugar. Transmito-lhe tudo o que você está me dizendo agora. Falo sobre sua insônia, sua inapetência, sua indisposição para tudo. Conto tim tim por tim tim. Tome um banho, meu filho, pare com esse choro. Preparei almoço especial, experimente. Está tudo em cima do fogão. Fiz carne assada na grelha, verduras e legumes cozidos no vapor, sobremesa de frutas. Levante a cabeça, meu filho, sacuda a poeira, como aconselha aquele poeta. E dê a volta por cima. É bom que você consulte um médico. Quem sabe existe um medicamento para essa sua tristeza. Fique certo, meu filho, de que sua amada voltará muito em breve. Se você se erguer e fizer o que estou aconselhando, ela pode até voltar com milhões de abraços apertados. Quem está falando com você é sua mãe, essa mulher experiente, de muitas estradas percorridas, você sabe disso. Lembra de quando seu pai foi embora? Quase morri, fiquei muito tempo assim como você, meu filho. Passei dias chorando, sem comer, sem auto-estima, a cabeça baixa. Fumava um cigarro após outro. Eu era a mais reles pessoa do planeta, nem sequer tinha energia para escovar os dentes, muito menos para trocar um vestido. As pessoas me viam naquele estado e se benziam. Temiam que eu me matasse. Mas, não há dor tão grande que não possa ser amenizada, nem infelicidade tão grande que não possa ser minorada. Aprendi isso num grupo de ajuda mútua. Além de meus companheiros e companheiras de grupo, duas pessoas me ajudaram a sair da crise, pessoas que eu nunca tinha visto antes. Conhecia de fotografias e de ouvir falar. Uma dessas pessoas se parecia com você, meu filho, assim branco, alto, bonito, cabelos lisos, talentoso em muitas coisas. A outra pessoa era um senhor grisalhando, cabelos compridos e finos jogados para trás. Grande poeta, gostava de uisque, das noites e das farras. Ambos cantavam acalantos pelas ruas da cidade, alegrando as praças, afugentando tristezas. Pena que esses dois seres humanos já tenham morrido. Podiam ter ajudado tanta gente ainda. Você recorda os nomes dessas duas pessoas? Nao recorda? Isso mesmo, meu filho, Tom e Vinicius, você lembra bem.







21 Setembro 2008




A PROFESSORA TEM A TRANQUILIDADE DAS COISAS ETERNAS.



O que estaria pensando aquela moça, assim tão séria, tão maquiada, no dia de sua formatura? O que a faz se recostar assim naquela cadeira de espaldar? Seu traje de formatura cor de vinho, tem uma pala branca sobre o peito. Na pala, o desenho de uma coruja se destaca em cima de um livro. A moça aparenta ser muito jovem ainda. Vê-se que é uma professora, a julgar pela presença da coruja bordada em seu traje. Com a ajuda de um secador e um pente grosso, a moça penteou e escovou bem os cabelos, tentando lhes dar mais volume. Usou batom rosa-choque, base facial e outros cosméticos. Nesse instante, longe de seus cotidianos apáticos que a entediam e lhe afeiam o semblante, a moça parece estar mais bonita. Sem saber que está sendo observada e sem pestanejar, ela examina algo à sua frente, e seu olhar é como o olhar da coruja do livro: parado, pensante, quase vítreo. A beca, o labéu de formatura, o penteado, a maquilagem, tudo combina. O rosto não se move, não se percebem movimentos respiratórios por baixo da bata. Para que ponto infinito daquela pequena sala a moça estaria olhando? O que estaria vendo? O que estaria pensando? Um inseto passeia na parede, no ponto onde os olhos da professora descansam. Mãos inertes, repousando ao colo, a professora tem a tranqüilidade das coisas eternas. Assim nessa pose estática, atravessa muito tempo de sua vida, muitas estações. A cidade cresceu, mudou de nome, dois papas morreram. O baile de formatura acabou, muitos bailes acabaram. As amigas da professora quase todas têm netos. Quarenta anos decorreram. Um dia, sob os escombros de uma casa abandonada, o corpo da professora foi encontrado intacto. Não se explica o porque de os vermes não terem corroído uma só de suas células. Olhando bem para ela, percebem-se os mesmos olhos vítreos, mesmo traje de formatura, mesma expressão indefinida, depois de tanto tempo. A fotografia amarelecida data de 11 de setembro de 1964.






01 Setembro 2008






AQUELA PESSOA




3344-1250 foi o número do telefone que me deu dizendo que eu ligasse amanhã. Perguntei a que horas eu devia ligar, mas ela já tinha desaparecido. Dobrou a esquina da Guido Mota e eu não a vi mais. Era 10 de agosto, sábado à tarde.



No domingo pela manhã, liguei 3344-1250. Escutei quinze toques, e o sinal de ligação terminada reboou em meu ouvido. Tentei novamente 3344 1250 e ouvi o sinal de ocupado. Pensei que devia tentar logo mais à tarde.



De fato, eram quinze horas em ponto quando liguei novamente. Surpreso, escutei uma voz feminina metálica dizendo que esta é uma mensagem gravada da Smile este número que você discou não existe em nossos registros favor consultar a lista telefônica.


Resignado, aquietei-me, decidido a percorrer as linhas dos destinos que se traçavam para mim. Aquela pessoa não me estava reservada.


Na segunda feira seguinte, deparo-me, na primeira página do jornal, com a fotografia daquela pessoa. Estava legendada com os dizeres: Maria de Monte Serrat foi vítima de um bandido na esquina da Guido Mota. Testemunhas disseram que, nesse último sábado passado, Maria de Monte Serrat, 23 anos, foi atacada e levada para um matagal, onde a estupraram e assassinaram a golpes de faca de cozinha. As testemunhas não quiseram ser identificadas com medo de represálias. A polícia encontrou, na mão direita da vítima, um papel amassado com um número de telefone: 3227 4122.


Passado o impacto inicial, arrumei algumas roupas em minha valise de viagem, tomei o primeiro ônibus e sumi na estrada.







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