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30 Outubro 2008
“AO SOM DAQUELA VALSA, CONSTRUÍ MEU DESTINO, MEUS PROJETOS, MEU CASAMENTO.”
Agrada-me este seu perfil, este seu jeito de me cativar dia após dia. Eu gosto de sua voz, da maneira como você se veste, como você fala. Usando traje simples e leves fragrâncias, sorriso fácil, você sabe como se fazer encantador. Sabe estudar poses e nuances de olhar. Sabe variar os tons de voz, ora seduzindo, ora fingindo-se de ausente, ora aceitando, ora negando.
Naquela noite, você vestiu a roupa mais bonita. Pôs uma calça imitando jeans, tecido desbotado como nos anos 70. Vestiu uma camiseta de malha flexível, cor de girassol e calçou sandálias de lona desfiada. Quanto a mim, trajei uma túnica solta, estampada, cores fortes, e usei sandálias delicadas de couro. Joguei meus cabelos finos e lisos para trás, em gestos de estudado descuido. Propositalmente, deixei que deslizassem algumas mechas para um lado do meu rosto. Eu gosto de me fazer misteriosa. Usei uma camada de blush e um batom hidratante, tom suave, róseo-claro. Para reforçar o charme, coloquei pulseiras com pingentes nos tornozelos, de modo que fossem realçados os movimentos das pernas e da túnica, quando eu estivesse dançando.
Uma banda animada agitou a festa. O repertório diversificado abrangeu desde funk, ska e mangbeat até pagode, forró e seresta. Você me acenou de longe, no extremo direito do recinto, convidando-me para dançar. Através de gestos, eu disse que não, prefiro esperar que a banda toque em ritmo lento. Naquele instante, o maestro adivinhou meus pensamentos e fez irromper os primeiros acordes de uma valsa antiga: “Eu sonhei que tu estavas tão linda”. Você atravessou o dancing e se aproximou de mim. Tomou-me em seus braços, nossos corpos se encaixaram em terno abraço e, calados, começamos a dançar. Havia outros pares dançando em volta de nós. Em meio aos tons nostálgicos da valsa, ouvimos sussurros e juras de amor percorrendo todo o dancing, os casais murmurando à meia voz, como se segredassem coisas obscenas. Guitarras, baixos e outros instrumentos musicais fizeram contraponto aos murmúrios. Você me disse frases, você me enlaçou, seduziu, brincou comigo. Aspirando o cheiro de seu hálito e da camiseta limpa, deixei-me levar pelos seus braços, sem resistências. Em dado momento, você tentou provocar-me ciúmes, fitando o corpo bonito de minha colega de classe que dançava com um senhor calvo, mais baixo do que ela. Notei que a colega correspondeu ao seu olhar. Imaginei que, no íntimo, ela preferia mil vezes estar com você, ao invés de estar com aquele senhor calvo. Fiz beicinho de ciúme, nem sei que formato meu rosto tomou. Mas sei que, para minha tranqüilidade, você me conduziu para o lado extremo da cena. Notei que, a partir daquele momento, você olhou só para mim. Eu cantei vitórias de amor. Você jurou, disse que me amava, que me adorava, disse que queria casar comigo, você me sufocou com palavras de paixão, sem me deixar espaço para falar. Invadida pelos seus beijos em pleno dancing e ao som daquela valsa, planejei minha vida, meu destino, meu casamento. Naquela festa, eu era muito feliz.
Mas foi tudo um sonho. Acordei tonta, urinada. Onde estão minhas sandálias. Onde deixei minha prótese. Lembro agora que perdi a hora de tomar meus remédios. Tenho andado meio esquecida ultimamente, esses meus noventa anos me atacam.
(Inspirado no poema “Eu sonhei que tu estavas tão linda”, de Lamartine Babo e Francisco Matoso).
Dôra Limeira
14 Outubro 2008
DE TODAS AS VIDAS E DOS GESTOS BANAIS
Em agosto, numa segunda feira, ele completou sessenta anos de vida e de mágoa. Eram também sessenta anos de chão, sortes e desditas. Tudo organizado burocraticamente. Tudo por tudo. Naquela segunda feira, de manhã cedinho, ele dividiu o que tinha. Sobrou quase nada. Restou-lhe somente a face, assim tão lívida, tão furta cor. O rosto todo partido, fatiado em pedaços iguais. Fatias simétricas, todas. Apenas uma coisa estava desproporcional: a dor. Seus olhos doíam muito, mais do que a boca e a testa. O nariz queimava, as narinas ressequidas. O que mais doía, no entanto, eram os ouvidos. Aquela dor persistente, cansada. O sofrer dos ouvidos repuxava-lhe os lábios. Era um sofrimento que lhe imprimia traços espasmódicos ao rosto, desenhos contorcidos e retorcidos. Sua capacidade auditiva tinha se desgastado com o fragor do tempo. Os ouvidos escutavam apenas a dor, e ensurdeciam. Ele era muito calado nos seus sessenta anos.
Um dia, no final daquele mesmo mês de agosto, verificou sua vida, passo a passo, documento por documento. Verificou contas pagas e contas não pagas. Examinou toda a sua trajetória à luz da burocracia. Sabia que tal burocracia era vã, mas, mesmo sabendo-a vã, adotara-a desde o primeiro emprego, a primeira compra, a primeira dívida. Fez um balanço de suas dores físicas e morais. Passou a limpo desavenças e listou pessoas diante das quais deveria se retratar. Fez um inventario das saudades que guardava: saudades do filho que morrera ainda adolescente, da mulher companheira que zarpara no primeiro desentendimento. Saudades de quando era moço. Tinha saudades do cachorro. Quando pensou no filho e na companheira, uma lágrima lhe rolou semblante abaixo. As fatias do rosto se banharam em lágrimas. Enxugou a face e inventariou todas as saudades numa pasta única. Naquele dia, à tardinha, ele resmungou entre dentes, sussurrando entrecortado: “Minhas páginas amarelas são meus classificados, organizados nos conformes da vã burocracia. Meus planos de morte estão catalogados em páginas amarelo-ouros, estão documentados e selecionados em prestações. Tudo registrado: as datas de emissão e as datas de vencimento. Planejo minha vida, as doenças, meus acidentes, minha morte. Meus planos univivência, unisex, unitudo, tudojunto estão aqui neste arquivo geral. Contas pagas e não pagas se perfilam em pastas distintas, sendo que as contas a pagar se avolumaram. Tornaram-se impagáveis, sem possibilidades. As dores do meu rosto estão se arquivando em pastas suspensas, sendo que a dor de ouvido se organiza numa pasta mais densa, as outras menores em sub pastas”.Ele pensou em voz alta e juntou todas as contas atrasadas. Enfeixou tudo, guardou no bolso da calça pendurada no cabide.
Despiu-se ali mesmo na sala e se dirigiu ao banheiro. Abriu o chuveiro, a água fria penetrou em cada fatia do seu rosto e escorreu pelo corpo. Lembrou-se que no banheiro não havia sabonete nem xampu. Deixou que a água escorresse e refrescasse sua face retalhada. E cantarolou baixinho, trincando os dentes, quase que num murmúrio sincopado: “Se eu te amo e tu me amas, e outro vem quando tu chamas, como poderei te condenar, infinita é tua beleza, como podes ficar presa que nem santa num altar”. A água tépida percorria seu corpo, penetrava entre os pelos e dentro das reentrâncias íntimas. “Quando eu te escolhi para morar junto de mim, eu quis ser tua alma, ser teu corpo, tudo enfim, mas compreendi que além de dois existem mais”. Após o ritual, enxugou-se, vestiu a roupa que jazia dependurada no cabide, vestiu a calça com o feixe de contas a pagar no bolso. “Amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade, sofro mas eu vou te libertar, lá lá lá rá lá rá, o que é que eu quero, se eu te privo do que eu mais venero, que é a beleza de deitar”. Naquele momento, seu canto tornou-se mais sofrido, mais entre dentes. Mais sussurrado.
E saiu de casa sem olhar para trás. Caminhou até a Basílica, onde estava havendo missa com celebração de casamento. Da soleira da porta, ele olhou para o interior da igreja e viu que estava repleta de pessoas rezando e cantando, o casal de noivos no centro da nave principal. Um portentoso órgão fulminava acordes da Ave Maria de Schubert. Ele decidiu ficar no adro externo da igreja, distante da porta, onde um mendigo babava e comia farinha seca com uma colherinha de plástico.
Quando a liturgia terminou, uma multidão saiu porta a fora da igreja. Foi, então, que ele retirou do bolso o feixe de contas a pagar, acendeu um palito de fósforo e transformou as contas a pagar num só feixe incandescente com o qual ateou fogo às próprias vestes em frente à Basílica. Foi tudo muito rápido. Meu Deus, chamem uma ambulância, chamem um médico. Chamem uma ambulância. Tarde demais. Diante dos olhares atônitos da multidão, uma tocha humana ciscou no chão e de repente se aquietou. Não havia mais nada. Nem saudades, nem dores. Nem mais contas a pagar.
Alguns metros mais adiante, o mendigo, babando, colocava sua última colherada de farinha na boca.
(Do meu livro “Preces e Orgasmos dos Desvalidos”)
Dôra Limeira
01 Outubro 2008
COMO QUEM REZA, EU FAÇO GESTOS OBSCENOS.
Sou Deivinha e sou portadora de uma vergonha tóxica. Envergonho-me do meu próprio nome: “Deive”. Sofro dessa agonia de ser gorda, feia e velha aos quinze anos. Sou tímida, acanhada, muito mais alta do que todas as meninas da rua. Carrego esse acanhamento como se carregasse meus próprios braços, minhas pernas. A vergonha é traço indelével em minha vida. Não sirvo para nada, não sou nada, não quero nada. Nos meus monólogos de todo dia, sou Deivinha inútil, não sei fazer nada. Errei em tudo, eu erro em tudo. O fracasso dorme comigo, na minha cama, meu travesseiro, minha penumbra. Olho-me no espelho da sala: sou horrorosa, sou gorda. Minha derrota é maior do que todas as minhas preces. Sou Deive, um ser humano amputado, essa vergonha me dói. O corpo verte secreções por todos os poros e eu choro, desfragmentada. Meu ser se descostura e se estilhaça em mil cacos, milhões de gotas. É como um sangramento interno. Eu, nessa idade, repuxo os cabelos para cima do rosto, quero me esconder. Envergo-me para disfarçar minha altura, para não me destacar entre as outras meninas. Eu inalo meu acanhamento como quem sorve uma droga. E, como quem reza, eu me masturbo com fervor, ao longo de cada desespero. Em meu corpo, se aloja uma gota de orgasmo e uma prece. Reboam palavrões e gestos obscenos em meu quarto, na cama, no meu travesseiro.
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