PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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Preces e orgasmos dos desvalidos (contos)

Arquitetura de um abandono

(contos)




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27 Dezembro 2008

IRREVERSÍVEL


Em sonhos desvairados, Francelino, 49 anos, tinha tudo o que um homem podia desejar para ser feliz: casa própria quitada, ajardinada, dois filhos educados, ordeiros, cidadãos de bem. Eram bonitos os sonhos de Francelino, eram doces seus delírios. Mas, na realidade, numa madrugada chuvosa de junho, Francelino acordou com o catre velho machucando-lhe a coluna. Escutou disparos de armas de fogo e barulhos de pessoas gritando na rua. Tentou levantar, mas doeu-lhe o corpo. A polícia invadiu a comunidade à procura dos filhos de Francelino, que, na vida real, eram marginais foragidos. Quando os policiais adentraram a casa e não encontraram os dois rapazes, dispararam contra a cabeça de Francelino, obscurecendo-lhe a visão. Ele ciscou tentando se apoiar no pé da cama. Mas apagou, irreversível, sem casa, sem família, sem mais nada. Seus devaneios de casa própria ajardinada repousaram sobre uma poça de sangue.





09 Dezembro 2008


COISAS SIMPLES


(Em memória do amigo, poeta paraibano Jurandyr Moura)


Olhava-se no espelho, observava seu corpo e se identificava com os jeitos da mãe. Gostava das roupas e dos sapatos que a mãe usava, do modo como se penteava. Gostava do jeito como vasculhava os estojinhos de quinquilharias no penteador, procurando um batom. A mãe destampava o batom, pressionava os lábios com as costas das mãos, limpava bem os lábios, e desenhava como se fosse um coração na boca. Em seguida, pressionava os lábios um no outro para espalhar a cor e fechava o batom, satisfeita. Ela ficava muito bonita com aquele batom “trade”, de um róseo muito vivaz.

A mãe tinha modos especiais de manusear os objetos com que se enfeitava para sair. Sobre o penteador, havia alguns vasilhames pequenos que serviam para guardar miudezas. Batons, pó compacto, blush, serra de unha, grampos de cabelo, pente, escova, brincos. Havia um outro estojinho cheio de bijuterias miúdas. A mãe manuseava e escolhia tudo com muita delicadeza. Seus dedos se confundiam com colares, pulseiras, anéis. Eram lindas as suas mãos, lindos os seus dedos finos, brancos, as unhas bem cortadas e limpas.

A menina observava a mãe, o corpo, as pernas, os braços, olhava os cabelos. Detinha-se na barriguinha discreta que ela sempre tratava de comprimir na tentativa de disfarçar. A menina descansava o olhar num sinal escuro abaixo do pescoço da mãe, na altura do decote, bem pertinho do rego dos seios. Tudo na mãe era lindo, delicado, perfumado. A menina também observava a delicadeza com que ela abria as gavetas do guarda-roupa e escolhia as indumentárias. A calcinha, o sutiã, o par de meias e o absorvente, caso estivesse menstruada. As coisas da mãe eram delicadas. Quando se preparava para sair, escolhia a vestimenta com todo o cuidado. Manuseava blusas, saias, calças compridas, shortes. Verificava as combinações de cores. Blusa amarela com saia preta, ela que era morena clara. Amarelo lhe sentava muito bem, realçava mais ainda, se combinado com o preto. Como era bonita a mãe da menina.

Às vezes, demorava-se na cozinha, fazendo algum prato especial, ou se entretinha na faxina de sábado. Punha o avental, ligava o som, sintonizava em alguma música animada e trabalhava. A cozinha era pequena, tudo estava à mão: a pia de pratos, o fogão, a geladeira, liquidificador e espremedores de frutas e legumes. O guarda-louças estava afixado na parede acima da pia de pratos. Um simples levantar de braços e alcançava os pratos, talheres e os outros utensílios. A máquina de lavar roupas também estava num recanto da cozinha. Tudo junto e harmonioso. Tudo acessível e prático. A mãe inventava quitutes diferentes. Em suas mãos mágicas, os restos do almoço de ontem se transformavam em pratos granfinos. Tão criativa, a mãe da menina. Trabalhadeira, limpava a cozinha em seus detalhes. Esfregava azulejos, piso, limpava panelas com grudeiras acumuladas, higienizava as bancadas de marmorite. Colocava a roupa suja na máquina de lavar junto com sabão e amaciante. E plugava, muito zelosa. O som tocava um samba bem marcado, um bossa nova. Em meio à faxina, lembrava-se da menina e pensava em fazer uma guloseima doce, a sobremesa. Passava alguns minutos pensando na guloseima, indecisa entre um pudim, um musse ou um doce de morango. Ah, faço um musse de chocolate. Lembrava o quanto a menina era dengosa. Na confusão da limpeza geral, ela juntava os ingredientes do musse, colocava tudo sobre o balcão da cozinha e dava início à feitura da sobremesa. A faxina estava concluida. O rádio tocou as notas finais de “Fim de noite”, bossa velha, sempre tão nova. A mãe escutava, contrita. Como se escutasse um hino de igreja.

A menina aproveitava esses instantes de limpeza da casa e se trancava no quarto da mãe. Mirava-se no espelho, demorava-se olhando o corpo, fitava a cintura, avaliava a barriga. Espremia-se visando aparentar estar mais magra, mais esbelta. Esticava-se, punha-se nas pontas dos pés, alongava o corpo. Em tudo, copiava a mãe, tão bonita. Manuseava as coisas com cuidado, procurava o batom, o blush, o pó compacto, a fragrância da lavanda preferida da mãe - Banho de Amor. Comprimia os lábios, depois passava o batom “trade”. Arrumava os cabelos em coque, prendia-os com um grampo. E deslumbrava-se, parecida com a mãe.

“ – Filha, venha almoçar. Terminei a faxina e o almoço está pronto. Fiz musse de chocolate para você. Venha."

Ao perceber a voz da mãe, a menina se recompunha. Arrumava as coisas sobre o penteador. Sentia-se aconchegada ouvindo a voz chamando. "Filha? Onde você está?" A casa, a mãe, a menina, o almoço: que ninho sossegado. A paz das coisas simples, as coisas integradas de Deus. Em frente à mesa de refeições, na parede branca, os olhos da fotografia de um homem se fixavam naquela tranqüilidade doméstica. Fazia um ano que o pai da menina tinha morrido num acidente de moto. Coisas de Deus.


(Do meu livro “Preces e Orgasmos dos Desvalidos”)


Dôra Limeira





02 Dezembro 2008




“O DESCANSO ETERNO DAI-LHE, SENHOR. A LUZ PERPÉTUA E O RESPLENDOR.”




Naquela sala sem janelas, porta única, estão reunidos familiares, amigos e curiosos. Ele está morto, tão jovem ainda, trinta e oito anos. Dorme dentro de um ataúde acolchoado, recoberto internamente com cetim branco, ornamentado com finas rendas nas bordas. O caixão de madeira de lei tem a tonalidade roxo-enegrecida, mesclada de marrom e sustenta-se, firme, sobre quatro apoios de alumínio com bases redondas.



Ele morreu após rápida agonia numa sala de UTI. Com filhos pequenos e mulher fogosa, tinha a vida pela frente, mil projetos a realizar. Além de planos de trabalho, havia a meta sempre adiada de abandonar o cigarro. Agora, dentro do caixão, suas metas vagueiam, e já não valem mais nada.



A mulher, a mãe, as irmãs, alguns vizinhos e colegas de trabalho, todos adentram a sala de velórios, rostos sérios, fisionomias sentidas. Organizam-se em volta do ataúde, para mais um olhar sobre a fisionomia do morto e para um discreto menear de cabeças: “Coitado, tão moço”. Assim, os gestos se resumem: “tão moço”.



O relógio, no alto da parede, marca oito horas da manhã. O enterro está previsto para as dez horas em ponto. O ambiente fúnebre recende a jardim pisoteado, mato e folhas de bambu ainda molhadas.



Um cidadão macambúzio, em pé na porta, conta mentalmente a quantidade de coroas de flores que cercam a urna funerária. Pela aparência, presume-se que seja o chefe da repartição onde o falecido trabalhou. Uma grinalda de rosas vermelhas, salpicada com alguns sorrisos de maria, exibe uma inscrição chorosa: “Saudade dos colegas de trabalho”. Formigas graúdas e luzidias passeiam, despretensiosas, sobre as rosas. Há também uma coroa de flores silvestres, misturadas com rosas em botão. A inscrição se desenha em letreiros compungidos: “Teus filhos e tua esposa sentem saudades”. Uma coroa de cravos brancos com folhas de bambu, destaca-se pelo volume de flores e pela inscrição: “Saudade de sua mãe. Descanse em paz”.



Um soluço comedido permeia o recinto, em murmúrio: “Meu filho”. A cada soluço e a cada sussurro, a mãe do morto agita os ombros, dentro do traje de luto. Seus lábios gesticulam ave marias cheias de graças, e os dedos bolinam as contas de um interminável rosário. Pai Nosso, que estás no céu. Salve rainha mãe de misericórdia.



De repente, burburinhos e cochichos percorrem o ambiente abafado, e um canto tímido se escuta: “Segura na mão de Deus. Só ela te sustentará. Não temas, segue adiante. E não olhes para trás. Segura na mão de Deus e vai”. Uma moça da Congregação das Filhas de Maria, tem uma fita azul no pescoço e puxa o responsório fúnebre: “O descanso eterno dai-lhe, Senhor. A luz perpétua e o resplendor”. O refrão se repete, duas, três, quatro vezes em volta do caixão, tornando o ar mais quente, mais opressor. O cheiro muito forte e enjoativo de jardim pisado torna-se incisivo. “O descanso eterno dai-lhe Senhor. A luz perpétua e o resplendor”. A monótona ladainha comove a velha mãe, seus soluços se fazem nítidos e cortantes, fazendo vibrar as flores das coroas fúnebres: “Meu fiiilho”. Um cravo branco despenca de um arranjo junto do ataúde, e vai ao chão. Não serve mais, já está murcho.



O morto jaz apático, quieto feito uma pedra esquecida. Familiares fecham-lhe os orifícios, evitando que secreções pútreas lhe escapem das cavidades e das partes recônditas. É preciso evitar que odores desagradáveis se exalem daquele monte de carne morta.



Assim feio, pálido, as unhas arroxeadas, o morto é enterrado e comparece à presença de Deus. Uma névoa azulada cobre-lhe o rosto de defunto precoce. Ele adentra a eternidade e seu corpo baixa à sepultura. Baratas, formigas, lesmas e todos os vermes do mundo já o esperam. Que banquete, irmãos. Outra forma de vida há de nascer daquele caos de matéria podre. Deus observa tudo, entediado.



Dôra Limeira










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