OTILA
Nasci nu e perfeito. Meus sinais eram vitais. Eu não tinha essa ferida deformando meu rosto. Quem fez isso comigo? Fale, Otila. Quem fez isso? Foi alguma doença, alguma maldição. Meus olhos eram azuis, cabelos lisos, castanhos-claros.
O som dos meus ossos se desmanchando percorre-me o corpo. Chega aos meus ouvidos. Se Deus, em sua louca decisão, ordenar que se derretam estes ossos, que coisas restarão de meu tênue esqueleto? O que restará, Otila?
Otila, venha me dizer, Otila, não me deixe. Cuide das minhas feridas. Mal posso levantar o que sobrou de meu corpo. Você jurou um dia que na saúde ou na doença. Você jurou isso. Na fartura ou na pobreza. Você jurou.
Otila, venha me banhar. Meu corpo cheio de escamas fede. Imagino o odor do desuso e do abandono. Minhas narinas se entorpecem, não tenho olfato. Mas vejo as escamas escorrendo secreções. Tudo me diz que meu corpo fede. Otila, tenha piedade. Olhe para meus cabelos. Estão colados de suor, poeira e pus. Onde o oxigênio? É muito pouco o ar que respiro. Otila, abra essas janelas. Abra, pelo amor de Deus. Chame um médico.
Perdi a intimidade com minhas partes íntimas. Tenho medo de que não respondam aos meus toques. Não sinto minhas reentrâncias nem minhas saliências. Onde estarão minhas pernas, meus pés? Minhas mãos dormitam numa leve dormência.
Otila, este é o resto do meu antigo corpo. Aquele corpo que lhe deu prazer, que trabalhou para manter você bonita. Você se orgulhou de mim. Porque eu fui bonito. Fui um homem trabalhador, esforçado. Otila, meu corpo foi o depositário de suas agonias que se liquefizeram em prazer. Meu corpo sussurou dentro do seu. Agora, o que restou de tudo? Estou gemendo de dor. Hoje, meu ser se desmorona e se desfragmenta à sombra de alguma praga.
Otila, não escuto você. Venha mais para junto. Olhe o que ficou do seu homem. Mas eu não fui sempre assim. Eu fui perfeito, fui bonito. Você se lembra. Você disse te amo. Eu respondi te amo. E agora? Olhe o que restou. Mas, sou a mesma pessoa. Sou seu marido. Sou o pai dos meninos. Onde estarão os meninos? Cresceram. Ou morreram. Eram tão bonitos, todos dois. Otila, o que você disse aos meninos? Eles nunca me consideraram. E eu sou o pai deles. Com certeza, você falou mal de mim. Disse aos meninos que sou um monstro, que sou desalmado. Otila, não sou monstro nem desalmado. Eu só tenho essa ferida no rosto, essas escamas mal cheirosas. Mas eu não fui constantemente assim, você sabe disso. Eu fui normal como qualquer pessoa, fui bonito, vigoroso. Você sabe perfeitamente disso. Por que não fala isso pros meninos? Por que? Eu ainda tinha muito amor pra lhe dar, Otila, se não fosse esta ferida no rosto e estas secreções saindo das escamas. Que sina, meu Deus. Que sina.
Otila percebo seu vulto passando junto à minha cama. Seu corpo tem contornos fortes. Saliências e reentrâncias hidratadas. Os músculos de seus braços roliços brilham de aquosidade. Ah, Otila. Seu corpo gostoso de beber. Eu chamo você, Otila. E você não olha para mim. Não me escuta. Chamo novamente Otila. E entro em desespero. Mergulho no pânico. Ajude-me, Otila. Estou morrendo, chame um médico.
(o desenho que ilustra o texto é de Vant)

Nome: Dôra Limeira

5 Comments:
Dôra,
Sua Literatura é envolvente e forte. A cada linha o irrefragável ir e vir. Beijos
mui triste, xará!
dora de limeira
Dôra, querida: este conto é de dar nó nas visceras. Você está cada vez melhor nesse ofício de nos mostrar a beleza da fratura exposta, da ferida aberta, do nosso desamparo. Um beijo. Rona.
Dôra, acabo de esbarrar com sua literatura. Caí neste blogue casualmente e estou boquiaberto com o conto "Otila". Ainda não li o resto das postagens, portanto não reconheço as recorrências de sua produção, mas achei extraordinária a maneira como, neste conto, a escatologia não é gratuita, ela não está ali com a ingênua intenção de chocar o leitor com imagens de efeito, como acho que acontece a muitos escritores iniciantes, que sucumbem aos atalhos de matar um personagem apoteoticamente ou de falar de cocô e sexo cruamente. É pungente tanto a situação do homem asqueroso e meio morto, mais óleo-cera, menos água, que ainda vive, sente, carece de afeto, e, de outro lado, Otila, cujos sinais são vitais, cujo passado está atrelado a um homem que ela não mais deseja. Você pontua muito bem o texto, encurtando as orações nos momentos exatos. A cada parágrado e meio, pelo menos, oxigena-nos com uma frase poética, com uma imagem vibrante, como "o odor do desuso e do abandono", "Onde o oxigênio?", "Meus sinais eram vitais", "Perdi a intimidade com minhas partes íntimas", "meu corpo sussurrou dentro do seu", "músculos brilham de aquosidade", "seu corpo gostoso de beber" etc. Não sei quem você é, desconheço seu passado, seu presente e seu futuro, ignoro se já soma muitos anos, mas lhe peço: escreva muito!
Dôra, esqueci-me de comentar uma coisa: sua escolha em apresentar essa história em forma de carta não poderia ser mais acertada. Não consigo imaginar como o drama desse personagem seria tão bem representado de outra forma.
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