
DUAS RUBRICAS E UM PONTO FINAL
(Conto de Dôra e Ramon Limeira)
Na Clínica Soft Life, doutor Mariênio adentrou seu gabinete pressurizado e sentou diante do computador. Imediatamente, a voz metálica do alto-falante wenb lembrou-lhe que precisava requisitar kits-eutanásia. O médico pronunciou "boa morte", e a tela da máquina apresentou-lhe o formulário eletrônico de requisição e uma lista dos arquivos já encaminhados. Seu braço conduziu mecanicamente à boca a xícara com café branco dinamizado, que, além de não escurecer os dentes, era cafeína-free. Sorveu-o gole a gole, degustando-lhe o sabor artificial, e autenticou o pedido dos kits com o próprio DNA, por meio de um dispositivo capaz de ler seu genoma com uma microgota de sangue. A voz difusa do computador informou a Doutor Mariênio as estatísticas atualizadas, ressaltando que, naquele dia, somente uma dúzia de procedimentos seriam encaminhados. Isso não chegaria a ameaçar o equilíbrio entre a ocupação e a desocupação de leitos na clínica. Ele remeteu o pedido dos kits-eutanásia, depois de especificar marca, modelo, doses e fabricante.
Naquela mesma semana, mais precisamente no dia 20 de dezembro de 2049, doze enfermos terminais morreriam na Clínica Soft Life. Eram oito cancerosos em estado desolador - rubrica CED - e quatro idosos sem perspectivas vitais significativas - rubrica IPVS. Os pacientes tinham suas rubricas afixadas nos espelhos das camas. Os CEDs, ainda jovens, traziam nos rostos as estampas da agonia de quem nem vive nem morre, apenas respira. Os IPVS, todos acima de oitenta anos, pareciam bois desolados, olhares fixos em algum ponto, remelando. Cada doente tinha familiares muito atarefados, que pagaram à clínica para que seus hologramas fossem reproduzidos ao redor dos pacientes. Todos já tinham assinado termos de autorização, cujas cópias assinadas digitalmente seriam retidas nos servidores da clínica, para fins judiciais.
Na data aprazada, consumou-se o trâmite sereno, sem dor nem culpa. No exato momento em que o procedimento foi acionado, nenhum dispositivo orgânico ou inorgânico notou ou detectou que CED20491220-1 despediu-se da vida com um bocejo, que CED20491220-2 não conseguiu armar um sorriso ao ver a filha no recinto, que CED20491220-3 recordou o inverno de leite e queijos de coalho no sertão onde nasceu, que CED20491220-4 era cego havia sete anos e vira a vida passar depressa, que CED20491220-5 sentiu um gosto doce na ponta da língua, que CED20491220-6 pensou em Deus e pediu perdão, que CED20491220-7 teve idéia para uma poesia e que CED20491220-8 quis tomar banho de mar. IPVS20491220-1 não conseguia lembrar-se do rosto da mãe, IPVS20491220-2 já estava morta, e IPVS20491220-3 perdera um filho tragicamente anos antes. A IPVS20491220-4, ninguém nunca saberá o que lhe sucedeu.
Envolvidos em sacos plásticos anatômicos, com aroma artificial de flores do campo, os corpos e seus pertences foram entregues aos familiares. Doutor Mariênio comandou todo o procedimento, cenhos franzidos, competente, à frente de sua equipe de unidades médico-assistenciais computadorizadas. O médico se comportou como se fosse um monumento cinzento esquecido numa das antigas praças que tinham existido nas cidades pelo mundo. Tudo transcorreu muito asseado. As pessoas falecidas jaziam, despidas e ainda moles, dentro daqueles invólucros. Os músculos, tecidos e toda a massa corpórea ainda se quedavam flexíveis, por um processo químico que evitava o apressado enrijecimento e adiava por um bom tempo o advento do mau cheiro característico. A clínica tudo previa. Os parentes assinaram comprovantes de recebimento, conforme exigência da lei e da instituição hospitalar em apreço.
Coletivo e mecânico, o velório aconteceu num único ambiente, programado por computador. No recinto funerário fechado, os familiares se entreolharam e as lágrimas irromperam, sob efeito de lacrimogêneos sprays aspergidos em volta dos doze ataúdes. Aqueles que não puderam comparecer encomendaram na loja virtual da funerária carpideiras eletrônicas, que diziam o nome do cliente e choravam um choro de comover acetilenos. O monitor de cem polegadas instalado acima dos caixões mostrou o perfil de cada um dos falecidos no Orkut, com mensagens de saudades eternas e dores infindáveis. As flores de fibra óptica, organizadas em guirlandas, exalaram odores de essências industrializadas, e as velas eletrônicas, sem cheiro nem fumaça, arderam frias sob o ar condicionado enregelante.
Na hora do enterro, como previamente programado, acelerou-se o procedimento. Potentoso e solene, um carro funerário revestido de tecido sintético cor cinza abrigou e conduziu os doze ataúdes. Os familiares seguiram em automóveis últimos modelos ultraleves, equipados de sons apropriados para a ocasião. Ao longo do trajeto, réquiens de Mozart deram o planejado tom de tristeza ao comboio. O desfile fúnebre se desenrolou sob um Sol ardente, diante dos olhares indiferentes das ruas.
No Shopping da Paz, onde seriam sepultados, enfileiravam-se doze urnas encravadas ao solo, feitas de alumínio misturado com urânio e cimento armado. Obedecendo ao disparo de um dispositivo eletrônico, as urnas abriram as bocas automáticas para receber os corpos. Os familiares tinham urgência de voltar aos seus afazeres e compromissos do dia a dia. Mal houve tempo de um último adeus aos ataúdes. Sob a ordem de um novo disparo automático, as bocas das urnas se fecharam herméticas, tragando os cadáveres, para sempre lacrados.
(a ilustração foi colhida em oglobo.globo.com/mundo/mat/2009/03/24/idosa-b...
Naquela mesma semana, mais precisamente no dia 20 de dezembro de 2049, doze enfermos terminais morreriam na Clínica Soft Life. Eram oito cancerosos em estado desolador - rubrica CED - e quatro idosos sem perspectivas vitais significativas - rubrica IPVS. Os pacientes tinham suas rubricas afixadas nos espelhos das camas. Os CEDs, ainda jovens, traziam nos rostos as estampas da agonia de quem nem vive nem morre, apenas respira. Os IPVS, todos acima de oitenta anos, pareciam bois desolados, olhares fixos em algum ponto, remelando. Cada doente tinha familiares muito atarefados, que pagaram à clínica para que seus hologramas fossem reproduzidos ao redor dos pacientes. Todos já tinham assinado termos de autorização, cujas cópias assinadas digitalmente seriam retidas nos servidores da clínica, para fins judiciais.
Na data aprazada, consumou-se o trâmite sereno, sem dor nem culpa. No exato momento em que o procedimento foi acionado, nenhum dispositivo orgânico ou inorgânico notou ou detectou que CED20491220-1 despediu-se da vida com um bocejo, que CED20491220-2 não conseguiu armar um sorriso ao ver a filha no recinto, que CED20491220-3 recordou o inverno de leite e queijos de coalho no sertão onde nasceu, que CED20491220-4 era cego havia sete anos e vira a vida passar depressa, que CED20491220-5 sentiu um gosto doce na ponta da língua, que CED20491220-6 pensou em Deus e pediu perdão, que CED20491220-7 teve idéia para uma poesia e que CED20491220-8 quis tomar banho de mar. IPVS20491220-1 não conseguia lembrar-se do rosto da mãe, IPVS20491220-2 já estava morta, e IPVS20491220-3 perdera um filho tragicamente anos antes. A IPVS20491220-4, ninguém nunca saberá o que lhe sucedeu.
Envolvidos em sacos plásticos anatômicos, com aroma artificial de flores do campo, os corpos e seus pertences foram entregues aos familiares. Doutor Mariênio comandou todo o procedimento, cenhos franzidos, competente, à frente de sua equipe de unidades médico-assistenciais computadorizadas. O médico se comportou como se fosse um monumento cinzento esquecido numa das antigas praças que tinham existido nas cidades pelo mundo. Tudo transcorreu muito asseado. As pessoas falecidas jaziam, despidas e ainda moles, dentro daqueles invólucros. Os músculos, tecidos e toda a massa corpórea ainda se quedavam flexíveis, por um processo químico que evitava o apressado enrijecimento e adiava por um bom tempo o advento do mau cheiro característico. A clínica tudo previa. Os parentes assinaram comprovantes de recebimento, conforme exigência da lei e da instituição hospitalar em apreço.
Coletivo e mecânico, o velório aconteceu num único ambiente, programado por computador. No recinto funerário fechado, os familiares se entreolharam e as lágrimas irromperam, sob efeito de lacrimogêneos sprays aspergidos em volta dos doze ataúdes. Aqueles que não puderam comparecer encomendaram na loja virtual da funerária carpideiras eletrônicas, que diziam o nome do cliente e choravam um choro de comover acetilenos. O monitor de cem polegadas instalado acima dos caixões mostrou o perfil de cada um dos falecidos no Orkut, com mensagens de saudades eternas e dores infindáveis. As flores de fibra óptica, organizadas em guirlandas, exalaram odores de essências industrializadas, e as velas eletrônicas, sem cheiro nem fumaça, arderam frias sob o ar condicionado enregelante.
Na hora do enterro, como previamente programado, acelerou-se o procedimento. Potentoso e solene, um carro funerário revestido de tecido sintético cor cinza abrigou e conduziu os doze ataúdes. Os familiares seguiram em automóveis últimos modelos ultraleves, equipados de sons apropriados para a ocasião. Ao longo do trajeto, réquiens de Mozart deram o planejado tom de tristeza ao comboio. O desfile fúnebre se desenrolou sob um Sol ardente, diante dos olhares indiferentes das ruas.
No Shopping da Paz, onde seriam sepultados, enfileiravam-se doze urnas encravadas ao solo, feitas de alumínio misturado com urânio e cimento armado. Obedecendo ao disparo de um dispositivo eletrônico, as urnas abriram as bocas automáticas para receber os corpos. Os familiares tinham urgência de voltar aos seus afazeres e compromissos do dia a dia. Mal houve tempo de um último adeus aos ataúdes. Sob a ordem de um novo disparo automático, as bocas das urnas se fecharam herméticas, tragando os cadáveres, para sempre lacrados.
(a ilustração foi colhida em oglobo.globo.com/mundo/mat/2009/03/24/idosa-b...

Nome: Dôra Limeira

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