
O PARÁGRAFO DA HORA DA MORTE, AMÉM.
(Comentário de Ramon Limeira)
Dôra, preciso fazer algumas observações sobre nosso conto “Duas rubricas e um ponto final”. Depois que você revisou, eu fiz mais umas alterações no texto. A mais importante delas foi mesmo naquele parágrafo que descreve a situação de cada um dos pacientes à hora da morte, amém. Não sei se você vai querer discutir a versão definitiva para esse parágrafo. Se quiser, tudo bem, embora eu tenha gostado muito da forma atual. Veja bem: eu imaginei o mundo e a época em que ocorrem esses procedimentos de eutanásia (2049) como sendo indiferente ao subjetivo, ao que há de particular em cada ser humano, à singularidade que dá autenticidade às emoções. Esse mundo não estaria, a meu ver, interessado no último pensamento ou na última emoção de ninguém, e foi isso que eu quis ressaltar. Todos os trâmites descritos ignoraram as pessoas, suas dores e prazeres únicos, uma riqueza que está inacessível aos aparatos tecnológicos mais avançados. O parágrafo em questão faz um contraponto a todos os outros, antes e depois dele, porque humaniza os pacientes, ao tratá-los em sua singularidade, e não, como siglas e números de identificação. A meu ver, para mantermos a coerência do texto, isso não pode ser feito por nenhum instrumento criado com essa finalidade, ou por iniciativa do médico, da clínica ou dos familiares. Na versão anterior, havia um painel eletrônico mostrando os últimos pensamentos dos moribundos. Mas, pelo motivo alegado, eliminei o painel. Só quem viu cada paciente submetido à eutanásia em sua individualidade fomos nós, leitores, e o narrador ou narradora do conto. Só nós sabemos de suas intimidades e até da impossibilidade intransponível de saber tudo a seu respeito, como no caso da última paciente citada, sobre a qual nada se conhecerá, embora fique indicado que havia algo a conhecer que ficou perdido para sempre. Eis minha defesa do parágrafo como está. Fique à vontade, obviamente, para contra-argumentar e tentar me convencer de alguma parte que lhe pareça precisar de mudança. Olhe, eu preciso lhe dizer mais uma coisa: gostei muito dessa experiência de construir um texto com você. Espero que se repita a dose.
Beijos,
Ramon
11/08/2009
11/08/2009

Nome: Dôra Limeira

1 Comments:
Li o conto de vocês, duas pessoas cuja escrita costuma me agradar. Realmente o conto tem pontos altos que fazem jus aos autores, mas não chega a constituir um bom conto. Creio faltar uma caracterização mais convincente do futuro, porque o clima de ficção científica criado ficou aquém do desejável. Com isso, não quero desencorajar a parceria, que pode render bons frutos. Para a primeira vez, estão de parabéns. Imagino que tenham ficado cheios de dedos um para com o outro, temerosos de ferir susceptibilidades. Nas próximas tentativas, a coisa deverá fluir melhor.
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