PARTO NORMAL
Doutor, prouvera a Deus que não nasça aleijado, feio ou ruim. Coitadinho. Veja, doutor, se os dedinhos estão perfeitos. Olhe, estão perfeitos? Ah, ainda bem. Esse exame que o senhor está fazendo mostra se ele é homem? Mostra o pinto em perfeito estado? E as bolinhas? Ai, meu Deus. Minha vizinha deu à luz uma criança com uma bola somente. Deus me livre. Deus o livre. Doutor, estou sofrendo tanto. Imagino mil coisas para ele. Que seja bonito, admirado por todos, que seja inteligente. Que fale, que escute e que ande. Ai, doutor. Tinha me esquecido. Faça que não sinta dor quando nascer. Deixe a dor para mim, que sou mãe. Ele é tão pequeno ainda. Falta muito tempo para nascer? Quanto tempo, doutor? Não suporto mais esperar. O que está faltando? Tive dores esses meses todos. Perdi várias noites de sono. Faltou-me apetite. Tive enjôo. Eu só tinha pensamentos para ele. Todos os meus amigos e amigas esperam. Estão preparando uma festa. Coquetel, muita gente, música, um momento engalanado. Doutor, será que ele nasce perfeitinho? Ai, que dor. Veja se dá para apressar. Ele cresceu tanto, está incomodando aqui no pé da barriga. Coitado, deve estar tão apertadinho. Já não sabe onde colocar as pernas, os braços, seu corpo se contorce. Que espasmos são esses, doutor? Tenho medo que ele perca a respiração. Doutor, quantas horas, quantos minutos? Está doendo. Preciso de um anestésico. Preciso dormir. Não posso tomar anestésico? Me faça dormir, então, doutor, cante uma canção que me embale. Penso no rostinho dele, tomara que pareça comigo. Não sou bonita, mas também não sou tão feia. Fiz minha parte para que tudo saísse normal. Tentei protegê–lo de sustos, sobressaltos. Esforcei-me para que não se contagiasse com minhas gripes, minhas mazelas, minhas feridas. Eu quero que nasça normal. Que não seja cego, mudo ou surdo. Que não seja aleijado. Deus o livre de surdez, de cegueira, de aleijão. Deus me livre. Aaaaaahhhhhh! Nasceu! Está chorando!
(Agonia e pensamentos de uma escritora, sentada diante do técnico da editora, esperando a edição do seu primeiro livro).
Dôra Limeira
(Agonia e pensamentos de uma escritora, sentada diante do técnico da editora, esperando a edição do seu primeiro livro).
Dôra Limeira

Nome: Dôra Limeira

1 Comments:
Dôra, foi engraçada a sensação que senti, ao ler esse seu texto, porque se trata de uma mãe à espera da chegada de seu filho; eu me lembrei, no entanto, de um amigo que está indo embora para uma nova vida, como se estivesse nascendo. E a preocupação da mãe narradora pode ser a de mães que se despedem de filhos que estão partindo para longe de si. A gente lê o texto com os olhos do momento, não é? Parabéns, está pungente e belo.
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