ARRUME MINHAS COISAS QUE ESTOU VOLTANDO.
Eu sei disso, amor. Sei que você já me esperou muito, que você chorou tanto. Porém não chores mais. Eu volto para nossa casa na próxima semana, morto de saudade. Esse tempo que passei fora, senti falta de tudo. De seu beijo, das manhãs orvalhadas, as flores molhadas. Senti falta de nossa rua, saudade da lua nascendo nos fins de tarde. Eu pensava que aqueles raios eram somente meus. Tenho a lembrança de quando você ciciava ao meu ouvido, dizendo que me amava, que me queria. Você dizia que, em mim, tudo agradava, meu hálito morno, meu esperma viçoso, meu jeito de colher seu orgasmo em minha lingua. Senti saudades de quando enlouquecíamos na cama, você gemia, pedia mais. Ah, como sinto falta, estou quase chorando. Porém me espere, amor, que eu volto nos próximos dias.
Aqui em terras tão distantes, estou sempre lembrando nossa casa, lembrando as coisas que você me disse quando me despedi. Confesso a minha frieza, minha indiferença, eu só queria grandeza e fama. E nada me comoveu, nem suas palavras, nem as palavras de minha mãe, nem o olhar triste de meu pai me olhando de longe. Eu soube que meu pai nunca mais cantou depois que fui embora. Soube que ele não falou mais, que suas pálpebras foram derreando até que, um dia, morreu sem se despedir de mim.
Reconheço que eu quis ser grande. De repente, a cidade me pareceu acanhada, um ponto obscuro no mapa. Quis conhecer outras plagas, outras gentes, eu quis a fama, a glória. Pensava que, correndo meio mundo, iria me encontrar. Meus sonhos de grandeza me afastaram do que eu mais amava. Você, nossos amigos, meus pais, a atmosfera pacata da cidade, o oxigenio passeando em meus pulmões. Eu me afastei dos passarinhos cantando de manhã bem cedo, as frinchas das janelas de nosso quarto anunciando os primeiros sinais de cada dia. Distanciei-me da velha mangueira florida de nosso quintal que se preparava todo ano para me dar aquela manga-espada doce. Tive saudade do sumo da manga escorrendo pelos recantos da boca, descendo pelo queixo. Eu quis tanto ser alguém na vida, ter um lugar ao sol, eu queria ser conhecido e reconhecido por onde passasse. Mas tudo que consegui foi me perder, eu me tornei mais um dos que se estraviaram.
Hoje, eu enxugo minhas lágrimas e lhe peço, amor. Não chores mais, acalme esse seu sofrer. Tranquilize-se, aninhada debaixo de seu cobertor. Agasalhe-se que estou voltando para casa, assim morto de saudade. Eu errei quando larguei tudo para buscar a felicidade muito longe, eu não sabia que era feliz no enlaçar de nossas pernas, contente de poder conversar dentro de sua boca, dizendo para você se levantar e fazer um café bem forte. Eu nao sabia que a felicidade estava bem ali, pertinho de mim, num bule de café quentinho em cima daquele fogão rural, naquele pano bordado que cobria a mesa da cozinha.
No entanto, amor, tudo há de passar. A saudade, a ausência, essa vontade angustiosa de chorar. Arrume as coisas, espane a casa, passe a vassoura em tudo, limpe o quintal. É dezembro, é tempo de manga, eu conto os dias e as horas de chegar em casa, chupar uma manga espada bem madura, o sumo escorrendo.
Estou morrendo de saudade. Aqui nesta cidade grande comprei uma viola nova, uma sanfona moderna. Comprei roupas bonitas para me parecer atraente. Mas nada me satisfez, faltou alguma coisa. Descobri que minha felicidade estava no lugar que deixei, nas coisas simples e antigas, nos passarinhos cantando por entre as folhas do pomar, no chuveiro do banheiro sem porta, fechado com uma cortina de plástico. Eu era feliz com você que era minha mulher cheirosa quando se banhava. Se não se banhava, tinha cheiro de coisa natural nas axilas, no entre pernas, aquele odor que tanto me excitava.
Na próxima semana estarei chegando. Prepare minha viola velha, minha sanfona antiga que eu gostava de tocar. De tanto abandono, minhas coisas devem estar empoeiradas num recanto qualquer da casa. Eu quase morro de saudades de minha rede armada na varanda, cheirando a sol. Sinto falta de você me embalando, cantando qualquer canção de ninar. Eu ainda imagino minha rede cheirando a coisa bem lavada, bem guardada. Arrume tudo, querida, que este seu amor está voltando. Eu conto os dias, as horas e os metros de estrada que faltam para que eu chegue aos seus braços. Se, a cada anoitecer, eu não tiver chegado ainda, deixe a porta encostada para que eu entre sorrateiro e me aproxime de seu ressonar macio. Deixe o bule de café em cima do fogão, me esperando. Conserve sempre minha rede armada na varanda, as franjas balançando ao vento dos dias e das madrugadas. Organize tudo, que este seu amante vai voltar. Eu estou morrendo de saudade, querida, morrendo, morrendo, morrendo.
(Texto inspirado em “Fogão de Lenha”, de Carlos Colla / Maurício Duboc / Xororó).
Dôra Limeira

Nome: Dôra Limeira

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