
OS DESPERDÍCIOS DE DÔRA
Ramon Limeira
Sobre a literatura de Dôra Limeira, concordo com o que li num comentário de Ronaldo Monte que dizia que ela tem, como matéria prima, os restos. Um poema chamado “O Apanhador de Desperdícios”, de Manoel de Barros, vem bem a calhar, para ilustrar o que é a escrita de Dôra, em minha opinião. Ela usa palavras para compor seus silêncios, conforme se pode constatar pela dedicatória do livro a todo aquele que, ao sufocamento desses silêncios da alma, prefere escrever. É a escrita de subsistência e de redenção subjetiva. Dôra, no entanto, compõe, com a sua literatura, outros silêncios, dos outros. Os silêncios de uma sociedade confrontada com injustiças, contradições e sofrimentos perenes. Mudez tanto de desvalidos quanto de remediados, estes calando aqueles, quase sempre. Ela não visa a salvar ninguém com seus contos. Quer fazer e faz literatura, e não panfleto. Suas personagens não conhecem trégua, amiúde aprisionadas numa realidade desgraçada contra a qual só ocasionalmente lutam, mas pagam um preço alto por avanços para cujo gozo não sobrevivem.
Dôra é uma apanhadora de desperdícios. Em seus contos, os excedentes excluídos do mercado ganham o proscênio. O sobejo desses corpos excedentes também inunda sua prosa. A geografia dessa literatura são os espaços periféricos marcados pela dinâmica entre sobra de gente e carência de tudo. Exploram-se as relações mãe-filho, mulher-homem, casa-rua, periferia-poder, nas quais a precariedade física, financeira e afetiva é a tônica. O humano está próximo à natureza; até pensamentos, valores e sentimentos podem ser contaminados por vermes e emporcalhados por dejetos. A fé é preservada na maioria das vezes, mas os sacerdotes são sutilmente ironizados. Embora a crença das personagens se mantenha, pouco se vê de retorno dos santos a essa devoção. Seja qual for a direção da mão que pede ajuda, não há poros por onde sejam escoados os males, de maneira que as fossas longamente acumuladas transbordam. Nada disso escapa ao âmbito da casa, refúgio contra o desconforto, o vexame e a vulnerabilidade que a rua impõe. Os grandes dramas sociais e os embates políticos não deixam perder de vista a dor individual, as necessidades imediatas de um só. É assim que, por exemplo, em “O chão de Menininha”, a conversa em tom de discurso da protagonista termina interrompido pela necessidade de dar o peito ao filho, e a perda de tudo decorrente do rompimento de uma barragem é suplantada por uma dor de dente.
É, portanto, mais ou menos dessa forma que os gemidos de uma vida inteira, de dentro e de fora, aproximam-se dos gemidos de todos os corações, lugares e tempos. Viva Dôra Limeira e sua literatura.
(Este texto foi lido pelo seu autor, Ramon Limeira, por ocasião do evento de lançamento do livro “Os Gemidos da Rua”, contos de Dôra Limeira)
João Pessoa, 30 de outubro de 2009.

Nome: Dôra Limeira

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