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27 Janeiro 2009
“EU ACREDITO EM DEUS, PORRA.”
Eis que seu nome era Sandrinho, menino de muitas ruas e becos. Ficou órfão desde muito cedo, sem credenciais e sem referências. Criança muito pequena ainda, Sandrinho presenciou quando sua mãe foi assassinada pelo padrasto acometido de furor alcoólico. Sozinho, morou em calçadas de quaisquer ruas, esgotos e bueiros. Assim errante, muitas vezes foi preso ao longo da infância, trancafiado em reformatórios, aos cuidados de ninguém. A vida se alternou entre ruas e casas de correção. Em meio a pequenos furtos, cansaços e tonturas, no caos dos entorpecimentos, das vontades de inalar e de vomitar, Sandrinho perambulou, vagou ao leu. Seus cotidianos foram iguais aos de tantos outros que ziguezaguearam nas ruas, sem itinerários. Aos dezesseis anos, teve visões alucinatórias. Escalou muros, barreiras e prédios para roubar, embalado com qualquer papelote de cocaína que lhe servisse de acalanto às fantasias de menino. No entanto, ano após ano, o rosto delicado do antigo moleque se perdeu na fuligem, na poeira, nas feridas da vida. Paulatinamente Sandrinho se transformou num adulto de fisionomia grosseira, semblante embrutecido. Assaltou tudo quanto esteve ao alcance das mãos. Tênis, relógios, celulares, carteiras de cédulas, bijuterias. Certa vez, arrombou um carro e se apoderou de um revolver que estava no porta-luvas. Foi nesse momento que pensou “eis-me, que já sou homem”. Um dia, teve um pensamento mais audacioso. Munido do revolver e de um canivete, tentou assaltar um ônibus. “O ônibus é este”. O busão 174 parou, majestoso, bem perto dele. Eram três horas da tarde, pouco movimento, poucos passageiros. “Um assalto”. Os passageiros, em pânico, lançaram ao chão seus pertences, suas pequenas vidas, suas poupanças, sua fé em Deus. Pentes, absorventes, batons e blushs se esparramaram no piso espaçoso do ônibus, bolsas femininas abertas, segredos de mulheres despedaçados. “Cala a boca. É assalto.” O interior do ônibus 174 tinha poltronas para idosos, crianças e deficientes na dianteira. Eis que um som ambiental espalhou no ar vozes de Roberta Miranda e dos irmãos Xororós cantando uma sinfonia de pardais, A Majestade o Sabiá. “Cala a boca!” O motorista, fingindo indiferença, desligou o som. Nas paredes, misturaram-se propagandas de analgésicos, anúncios de passeatas pela paz, avisos de “não fumar”, um cartaz dizendo não à violência e o retrato do papa. Os passageiros, na maioria, eram mulheres. Havia duas crianças e quatro homens, sendo um deles adolescente franzino, pálido, afeminado. Dois homens idosos, sentados nos primeiros bancos, se aquietaram feito cães adestrados, os olhos lacrimejando, secreções e cataratas de seus medos, visivelmente expostos. Ao todo, doze passageiros. Então Sandrinho pensou “É moleza”. O 174 foi a primeira grande ousadia de sua vida. Mas, no instante em que pensou “É moleza”, os alarmes dos carros de polícia espocaram vindos de todas as direções. Muito depressa, Sandrinho recolheu dentro de uma sacola de supermercado os objetos jogados pelos passageiros ao chão. Sem largar o revolver e o canivete, os dedos trêmulos, viu que não havia alternativa. Precisava fugir dali. E, na esperança de escapar ileso, manteve os passageiros como reféns durante várias horas, com a arma de fogo apontada para a cabeça de uma adolescente. Desorientado e atordoado, o motorista vagou com o ônibus pelas ruas da cidade. O motorista desfilou seu medo, vomitou o almoço de meio-dia. Quando Sandrinho pensou “preciso fugir” foi tarde demais. Anoiteceu e eis que policiais o capturaram e espancaram ainda dentro do ônibus. A adolescente que Sandrinho mantinha sob a mira do revolver foi abatida. Um policial errou o alvo de sua fúria e, num único disparo perdido, atingiu o rosto da menina. Em meio ao pânico geral, entre palavrões, choros de crianças e gritos de mulheres pedindo misericórdia, tudo o que Sandrinho desejou naquele instante foi inalar profundamente e voar. Mas, em verdade em verdade, a única coisa que conseguiu foi gritar com a boca escancarada e a voz rouca: “Porra! Eu acredito em Deus!” Os soldados conduziram-no, algemado, ao interior de um camburão da polícia, ao som de vozes que gritavam na rua: “Cala a boca bandido fela da puta!” Em questão de segundos, eis que Sandrinho foi assassinado dentro do camburão, por asfixia. Sandrinho acreditou em Deus.
(Do meu livro de contos “O Quarto Livro”. Inspirado em fato verídico).
22 Janeiro 2009
VINGANÇA. Dentro daquele latifúndio, filhos, agregados, mpregados e cachorros, todos tinham medo de Petúnia, arrogante dona da terra. Naquele dia, pela manhã, Petúnia recusou ajuda para descer a escadaria e sua vista escureceu. O corpo despencou degraus abaixo. A quina de cada batente esmurrou sua cabeça. No hospital, constataram-se várias fraturas cranianas e morte cerebral. Petúnia tinha 86 anos. A família autorizou o desligamento dos aparelhos. Duas noites depois, aconteceu ruidosa festa no latifúndio de Petúnia. Uma orquestra animou o baile. Filhos, parentes, agregados, empregados, cachorros e meninos, todos dançaram, sem medo. Petúnia se aninhou na eternidade e não soube de nada.
(do meu livro "O Beijo de Deus", ed. Manufatura)
14 Janeiro 2009
QUEM ME DERA ENVELHECER
Dôra Limeira
Quem dera envelhecer com bom humor, envelhecer com riso fácil. Quem me dera chegar aos oitenta e cinco anos agarrando-me ao bem querer, sempre generosa, inocente. Que a velhice não me prive da vontade de beijar. Quero envelhecer livre para dizer que você é lindo, sem medo de censura. Você é lindo.
Quem me dera envelhecer acreditando no elogio fácil. Envelhecer feliz dos filhos que tenho, chorando os que perdi. Quem dera chegar à idade difícil na companhia daqueles que, durante toda a minha vida, ficaram comigo, na virtude e no defeito. Que me amaram sem limites, seja no meu heroísmo seja na minha covardia.
Envelhecer recebendo uma flor e um beijo a cada aniversário, ouvindo alguém me dizer você é bonita, mesmo eu já estando velha e feia.
Quem dera aos oitenta e cinco anos me deslumbrar com um pé de cacto e exclamar: o cacto dá flor, sim, olha a flor do cacto, como exclamou o poeta Fausto Valle com braços estendidos e mãos espalmadas.
Quero chegar aos oitenta e cinco anos e ainda poder arrancar da minha neta uma risada e ouvi-la dizer essa minha avó é tão safada, depois de eu ter lhe contado uma piada obscena.
Quem me dera envelhecer com a boca pintada de batom rosa-choque, cabelos loiro-cheguei, a tintura sempre renovada. Quem dera envelhecer trajando vestidos de tons claros, sapato combinando com a bolsa e com algum detalhe do vestido. Atravessando a rua sem precisar de ajuda. Mas aceitando ajuda se alguém me der a mão.
Quem me dera envelhecer com a sabedoria de quem ainda tem muito a descobrir. Sentindo o cheiro da rosa, machucando-me com os espinhos. Beleza, cheiro e espinhos são uma roseira. E eu, já velha, quem dera ser ternura, amor, desamor, afeto e desafeto.
Quero que as utopias sejam o alimento de minha velhice. Acreditar que alguma coisa ainda pode acontecer. Uma criança, um cachorro, um vizinho, uma planta, uma flor. Quero acreditar, mesmo estando velha e feia, que alguém ainda chegue inesperadamente e que compartilhe comigo uma dose de Martini ou um cafezinho feito na hora.
Por isso, quero envelhecer ainda menina, como o poeta Eulajose que, aos oitenta e cinco anos, era menino.
(do meu livro Arquitetura de um Abandono, ed. Manufatura)
A imagem que ilustra esta crônica foi tirada de clubenaturalis.wordpress.com
06 Janeiro 2009
“ROSA E URTIGA PARA UMA MENINA”
Naquela manhã de junho, véspera de São João, Patrícinha foi assassinada aos 17 anos num terreno murado e abandonado do bairro. A polícia não sabe quem disparou a arma, ninguém sabe. No terreno existem duas piscinas inacabadas, uma área espaçosa tomada pelo mato e um subterrâneo de concreto. Dizem que o subterrâneo seria originalmente destinado a abrigar os motores das piscinas. O local é sombrio, a vegetação rasteira agride durante o dia, à noite a escuridão sufoca. Os vizinhos têm cismas do muro alto, manchado pelo tempo e pelas sujeiras humanas. Marcas de urina, fezes, catarro, vômitos e sangue ressequido compõem sua aparência. Os quatro lados da amurada parecem urinóis de demônios. Ninguém sabe quem é o proprietário, em que cartório está registrada aquela propriedade.
Patricinha morreu a dois metros da piscina maior, perto da borda. Quem teria abatido Patricinha à queima-roupa? Foi assalto, dizem alguns. Assalto como, se Patricinha era pobre, não tinha nada além da roupa do corpo e um celular quebrado. Foi vingança, dizem outros. Mas Patricinha não tinha inimigos, não tinha porque ser invejada ou odiada. O que estaria fazendo a menina ali no terreno abandonado àquela hora. Ninguém sabe. Trajava um vestido surrado, manchado de café e sopa de feijão. Portava um telefone celular modelo antigo, danificado, que não servia para nada. Patricinha não fazia mal a uma mosca. Mas amanheceu prostrada ali, perto da piscina, um tiro no peito, outro na nuca. Ninguém viu nada nem escutou nada.
Há mais ou menos dois anos que o local está abandonado, funcionando como quartel do crime, esconderijo e ponto de encontro de pessoas envolvidas com drogas. Na maioria, são adolescentes, é o que dizem os moradores das imediações. A construção subterrânea é um retrato explícito e descarado da desordem. Um aparelho de som espatifado, as vísceras eletrônicas expostas, duas camisas de homem muito sujas exalando cheiro de carniça, palitos de fósforos queimados e carteiras de cigarro vazias entram na composição daquela cenografia. Na área externa, observa-se que há dois sofás com os acentos rasgados de ponta a ponta e garrafas plásticas contendo restos de solvente. Naquela manhã de junho véspera de São João, perto da piscina maior, está a menina Patricinha, seu corpo inútil, de borco, o sangue coagulando na boca aberta.
Naquela mesma tarde, enquanto velam o corpo, os vizinhos se solidarizam na dor e comentam sobre Patricinha. Era menina mansa, alegre, prestativa. Pobre criatura, tão nova. Diante do corpo de Patricinha coberto de flores e matinhos de quintal, o falatório é de revolta e desgosto. Uma senhora gorda afoita, ameaça com o rosto afogueado pela ira: se até o próximo sábado não aparecer o dono do terreno, nós derrubaremos esse muro. Faz tempo que chamam pela polícia, pelo conselho tutelar, apelam para o padre e o pastor, mas ninguém faz nada. A senhora gorda assim arremata sua fala revoltada: é preciso que uma menina morra, quem sabe assim os grandes se incomodem e tomem providências. O medo tem alterado a vida da vizinhança. O movimento do meu comércio caiu muito depois que esses marginais drogados começaram a se concentrar nas imediações, é o que diz o dono do pequeno fiteiro, um senhor magro, rosto macerado. Patricinha se queda insensível feito um paralelepípedo dentro do ataúde pobre, não escuta os comentários, não escuta mais nada. Existe esquema de compra e distribuição de drogas na área murada. Existe, sim. Os sussurros são enfáticos à beira do caixão. Garotos menores de idade são envolvidas no tal esquema, usados por traficantes safados. Muitos desses menores se viciam, abandonam a escola, transgridem em casa. A sala do velório é abafada, sem ventilador, sente-se um fedor ativo de sovaqueira. A professora de Patricinha se aproxima do ataúde, enxuga uma lágrima com os dedos e comenta em voz alta: todo mundo aqui sabe, a polícia, o padre e o pastor sabem de tudo; conhecem o esquema e o risco que correm as crianças envolvidas, mas ninguém faz nada. A professora funga, assoa o nariz e enxuga mais uma lágrima com o dorso da mão direita. Patricinha, tão nova, tão inocente. A mãe de criação da menina reza uma jaculatória antiga que se repete interminável, duas, três, quatro, cinco vezes: o descanso eterno dá-lhe Senhor, a luz perpétua e o resplendor.
Patricinha desceu à cova no final daquela tarde véspera de São João. Ao enterro compareceram os vizinhos mais próximos e o vereador Dr. Ernesto Gonçalves que tinha doado o caixão.
O medo aumentou na localidade após a morte de Patricinha. Logo que o último raio de sol desaparece, as portas das residências e dos pequenos comércios são fechadas. Recolhem-se as crianças, não mais há catecismos nem missas nem cultos à noite. De madrugada, escutam-se ruídos e passos de pessoas rondando as ruas. São os marginais que percorrem acintosamente as calçadas para assustar.
No intervalo entre o sermão e o ofertório da missa de sétimo dia de Patricinha, a diretora adjunta da escola onde a menina estudou pede licença ao celebrante para convocar a comunidade a comparecer ao ato pela paz no bairro, com data prevista para dois dias após a missa de sétimo dia. O ato deve se iniciar com adoração do Santíssimo e a celebração de um Tanto Ergo dentro da área murada onde Patricinha morreu. Em seguida todos devem sair em caminhada pelas ruas da cidade, pedindo às autoridades que se faça justiça pela morte de Patricinha e que se instale mais segurança no bairro.
Meses depois, funcionários da prefeitura derrubaram o muro, limparam tudo e observaram que, onde Patricinha morreu, a dois metros da piscina, nascera um pé de rosedá junto a uma touceira de urtiga.
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