Eu sou Eliana, solteira, 35 anos, sou professora. Tenho um problema sério. Sou instável em se tratando de humor. Confesso que, quando estou bem, sou disposta, trabalho muito, tenho energia, sou uma máquina. Há dias de euforia, de entusiasmo pela vida, é quando me acho poderosa. Disponho-me a retomar os estudos na faculdade, faço projetos, desenvolvo iniciativas, chego a me desdobrar nos trabalhos. Meus problemas são nada, posso resolver tudo. Eu me alegro, uma grande euforia me faz feliz. Quando isso me acontece, é uma maravilha. Eu me relaciono com pessoas da alta sociedade. Conheço muitos políticos e executivos importantes, sou amiga dos mais proeminentes. Minha família se relaciona com exportadores de fumo industrializado em Arapiraca. Meus amigos famosos que moram longe me escrevem cartas dizendo que gostam de mim e querem passar uns dias aqui comigo. Eu sou Eliana e conheço o Chico Buarque, é meu amigo pessoal, antigamente morávamos na mesma rua. Os Rolling Stones me conhecem desde minha adolescência. Têm-me em grande consideração e, sempre que vêm ao Brasil, sou a primeira pessoa a ser cumprimentada por eles. Quero viajar, quero me encontrar com o Chico Buarque e com os Stones numa grande confraternização. Essa expectativa me compraz, eu curto minha euforia por dias e meses a fio, sem tempo para dormir ou para comer nada. Mas, infelizmente e involuntariamente, em seguida à euforia, aos poucos bate-me um torpor sem explicação. Os projetos acabam sendo largados paulatinamente no meio do caminho, esquecidos. Adeus, Stones. Adeus Chico Buarque. Quando isso acontece, a única coisa que quero é morrer. Não entendo a razão dessas coisas se passarem comigo, sem que eu tenha controle. Eu sou Eliana e, quando estou mal, não tenho disposição para nada. As pessoas dizem na minha cara que tudo isso é safadeza, dizem que sou preguiçosa. Eu conto as horas e os minutos para o dia terminar, que é para poder me recolher, sem chamar a atenção. Desanimada, minha vida tem sido assim. Ora me alegro, ora me entristeço, sem motivo, sem controle. Quando não estou bem, sou mal amada, feia, sem energia. O desânimo é tanto que me permito ficar sem fazer nada, prostrada. Eu sou Eliana e só Deus sabe o quanto invejo as pessoas equilibradas. Deus sabe o quanto desejo enxergar meus limites, o quanto desejo ter uma vida organizada. No ambiente de trabalho, ouço comentários, pessoas dizendo que sou doente e que preciso me tratar. Isso me perturba, isso me deixa mal. Meus familiares, por desencargo de consciência, me levam a um psiquiatra que me receita um remédio. Tome dois comprimidos por dia, sem relaxar, Dona Eliana. O medicamento é à base de lítio, diz o médico. Mas, sem motivo algum, acabo sempre abandonando o tratamento. O resultado é uma recaída feroz na euforia, seguida desse torpor. Sem paciência, meus familiares me internam, deixam-me nos sanatórios durante meses. Os médicos me tiram das crises momentaneamente, eles sabem que estou sempre recaindo. Eu sou Eliana e, de tanto entrar em euforias e depressões, de tanto abandonar o tratamento, meus familiares estão desistindo de mim. Estão lavando as mãos diante dos internamentos inúteis uns após outros. Deixaram até de me visitar quando estou hospitalizada. Tudo que eu faço é atabalhoada, não tenho rotina. Não consigo definir minhas prioridades. Quando estou mal, as atividades mais comezinhas, para mim, são penosas. Tomar banho me custa, é difícil organizar minhas coisas para ir ao banho. Custa-me apanhar roupa limpa no guarda roupa. Daí que chego a passar cinco ou seis dias deitada, sem ao menos me banhar, mesmo com todo este calor que vem fazendo ultimamente. Meus braços, minhas mãos, meus cabelos fedem e eu sou impotente diante disso, não disponho de domínio sobre meu próprio corpo. Quem tem esse problema que eu tenho sabe muito bem do que estou falando, entende perfeitamente minha linguagem. Não é fácil conviver com isso. Eu sou Eliana e tenho consciência de que preciso tomar uma atitude, mas não consigo. Mesmo prostrada, sem tomar banho há vários dias, eu percebo o desmazelo em minha casa. O forno do fogão até já criou tapuru, de tanto abandono, com alimentos apodrecendo dentro. Se eu receber uma visita agora, eu morro de vergonha. A geladeira também está um lixo, com restos desorganizados de comida. De molho há vários dias, em água com sabão, minhas roupas íntimas e meus vestidos até já criaram uma baba escorregadia. E eu aqui vendo as coisas acontecendo, impotente, sem controle algum sobre minha existência. Deitada, lembro que na copa, a mesa está repleta de pratos sujos, vasilhas e panelas com alimentos velhos, cheirando a vômito e a mofo. Eu sou Eliana e estou cansada. Quero ter energia de ao menos arrumar a mesa, o banheiro, a sala, mas não tenho forças. Envergonho-me de receber as pessoas em minha casa. Hoje, pela manhã, a campainha toca inesperadamente. Fecho os olhos sem coragem de atender. Não, não atendo, não tenho o que dizer a ninguém, não atendo. Que preguiça, meu Deus, que preguiça. A campainha insiste duas, três, nem sei quantas vezes. Quando consigo me levantar e calçar as sandálias, vejo pelo olho mágico. Quem seria. Imagine. É o diretor da escola onde leciono. Vem me dizer que estou demitida porque faltei muito ao trabalho. O diretor, que comumente tem um timbre afeminado, engrossa a voz e diz: Dona Eliana, por abandono de emprego, a senhora está dispensada do trabalho. Como um robô, assino um papel, dou bom dia ao diretor e fecho a porta. No meu quarto, aspiro a última e forte dose do meu veneno e adormeço antes de chegar à cama. Acordo com as chamas do inferno lambendo as pontas dos meus pés. Feito um robô, estou escrevendo, enquanto o fogo não destrói meu corpo. O diabo não espera muito. Não sei quem é essa pessoa que está lendo minha carta. Quem quer que seja, muito obrigada por ter lido até o fim. Quanto a mim, eu sou Eliana, e, neste exato momento, só quero morrer.
Dôra Limeira

Nome: Dôra Limeira



