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19 Março 2009
SE EU NÃO FOSSE TÃO MENINA.
Meu vizinho me deu um anel, dizendo que era de ouro, que a pedra era de brilhante . Pus o anel no dedo e andei por todo lugar. Fui à escola, à igreja e ao cinema. Apostei corrida na praça, brinquei de roda e esconde-esconde. O anel brilhou, chamou a atençao dos meninos. Ontem, levei um tombo. Bati com o anel no chão, a pedra se espatifou. Minha mãe ralhou comigo. Meu pai me deu castigo. Os meninos riram de mim. De toda essa história triste, restou-me uma coisa boa: o vizinho me deu o anel, sua graça e seu amor. Beijou-me e disse não chore, vai-se um anel e vem outro. Junto com a lágrima, um pensamento me apareceu: se eu nao fosse tão menina, punha vestido de noiva. Colocava véu, grinalda e me casava com o vizinho.
Dôra Limeira
SINAIS ESTRANHOS
Ontem minha mãe cantou uma canção de ninar. A canção dizia durma filhinha, não tenha medo, que a lua clareia a rua. A mata se abre, dócil, para você passear. Durma, que o bosque é tranquilo, os animais serenos. Enquanto eu ouvia o canto sussurrado de minha mãe, avistei carneirinhos percorrendo o ceu, pra lá, pra cá. Durma, meu bem, que o anjo da guarda agasalha e Deus protege as boas filhas. Na canção de minha mãe, eu escutava sons de anjos. Percebia passarinhos e ovelhas brincando nas nuvens. Mergulhei em meu sono sem perceber. Não ouvi mais nada, nem sussurros nem acalanto. De manhã cedo, eu acordo e noto sinais estranhos no quarto. Há penugens de carneiros, plumas de pássaros e pegadas de anjos. A partitura e a letra do acalanto se aninham, quietas, bem junto à cama. É segunda-feira, faz dois anos que minha mãe morreu.
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