PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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17 Abril 2009



“NASCEU, É MENINA.”




Naquele dia 21 de abril, começo da noite, um trabalho de parto tem início em meio a dores, orações e panos mornos, numa casa modesta do Beco Mangueira, periferia da cidade. É um parto difícil, o sétimo daquela mãe pobre. Da cozinha ao quarto, do quarto à cozinha transitam panos e trapos ralos de uma vida, panelas furadas com água quente derramando, caldeirões velhos de água morna. As ajudantes de parto gritam “depressa vai nascer”. Uma oração ao pé do leito, uma vela e um escapulário no espaldar da cama são sinais desesperados de uma crença. A aflição e a fé em Deus se mesclam na dor. Confundem-se com as contorções e contrações, com os repuxos e puxões do agoniado trabalho de parto. Dói para fazer nascer. Misturada a panos sujos de sangue e lençóis amarelados de secreção, uma palavra de ordem se faz ouvir, irritada: “bote força, bote mais força, que está nascendo”. Dói para chegar à luz. Com esforço, a cabeça desponta na boca da cratera, está nascendo. “Nasceu, é menina”. Naquele feriado de Tiradentes, noite fechada de 21 de abril, o estertor de quem nasce reboa pelo corredor da casa, vai à praça, invade as ruas, os becos. O grito faz vibrar os sinos da matriz. “Nasceu”. É menina e, arroxeada, expele a primeira lufada da respiração. Após a consumação do fato, o cheiro insosso do parto normal impregna as paredes da casa, esfrega-se nos gemidos da rua. Fedem os adultos e crianças do Beco Mangueira, fede a agonia de nascer. Daquela noite em diante, a cada feriado de 21 de abril, o Beco recorda o nascimento da menina.



Quando ainda criança, tem o perfil delicado, quase perfeito, linda menina. Fina e educada com as pessoas de seu universo, bonita no jeito de ser e no corpo, a menina desentoa das demais que moram no Beco.



Aos catorze anos, a adolescência marca-lhe o corpo com os trejeitos da idade e da pobreza. A face se torna angulosa, salpicada de espinhas. O andar é descompassado, sem ritmo, as pernas em desconexão com os braços. O caminhar da existência é inexorável.



Hoje casada, aquela menina é mãe de quatro homens e seis mulheres a quem amamentou enquanto teve leite nos seios. Muitos gritos reboaram rua acima rua abaixo ao som de seus dez partos, a cada nascimento. Teve os seios tão sugados, suas sustanças tão tragadas pela miséria que hoje em dia, descalcificada, não tem um dente natural sequer. Resigna-se a sorrir com as próteses mal feitas, manipuladas pelo protético da esquina. O protético se chama Dr. Assis Belarmino, mais conhecido na comunidade como “Tiradentes”.


















13 Abril 2009


MAIS-VALIA


No fundo de minha casa, estendido no varal, meu salário
balança ao vento, desfraldado. As cédulas afetam meu organismo e eu adormeço, chorando.





07 Abril 2009

AOS QUE ME VISITARAM ENTRE JANEIRO E COMEÇO DE ABRIL DE 2009:



Muitos entraram aqui, poucos comentaram. Não há de ser nada.



A Ricardo Mainieri, amigo que mora em Porto Alegre e que tive o prazer de conhecer pessoalmente, agradeço os comentários ao meu mini conto “Estranhos sinais”. Além de comentar, Mainieri coloca esse texto nos mesmos patamares de alguns renomados escritores. Muito grata, Mainieri. Ainda não cheguei lá, mas chegarei, com certeza.



Ricardo Mainieri também falou sobre meu conto “Eu sou amiga dos Rolling Stones”, inclusive tecendo comentários sobre a doença Distúrbio Bipolar que afeta centenas de pessoas e conturba vidas de muitas famílias e muitos amigos. É muito bom quando um contista escreve um texto e recebe um retorno assim. Abraço.



Ao neo-contista Ramon Limeira, primo distante, grata pelo comentário ao meu conto “Eu sou amiga dos Rolling Stones”. Além de ter comentado sumariamente no blogue, Ramon me enviou, por e-mail, um comentário crítico. Aliás, o comentário não se limitou apenas ao "Eu sou amiga dos Rolling Stones". Foi muito mais abrangente, quando se referiu ao meu estilo e às minhas temáticas de maneira geral. Por sinal, o comentário ficou tão bem escrito, que decidi inseri-lo em meu livro, na contra capa ou na orelha (ainda estou resolvendo). Ramon, agradeço a você pela gentileza. Agradeço pela autorização que me concedeu de colocar seu texto em meu livro. Abraço.



Ao contista e dramaturgo Carlos Cartaxo, membro ativo do Clube do Conto, os agradecimentos pelo comentário ao meu Um relaxante estado de “Sem”, da série Contando a História do Clube do Conto. Grata pelo seu lembrete. Calculei mal o tempo entre a concepção e o nascimento da Antologia do Clube do Conto. Grata por você ter feito essa observação ou essa ressalva. Abraço.





01 Abril 2009



QUERO COMER BRIGADEIRO.



Era menino, ainda. Mas suspeitaram que fosse bandido. Era preto, traje roto, sandálias de dedo. Ágil de movimentos, seu corpo fazia mogangas no alto do morro. Brincava de ser cristo redentor, braços esticados em cruz. As mãos se estendiam sobre um corcovado de brasilites e isopores rasgados. De tanto repetir a brincadeira, ganhou um apelido: “Cristo Redentor”, Cristinho na intimidade. Era franzino, comprido. Não tinha medo de nada. Ao invés da escola, freqüentava semáforos. Na frente dos carros, fazia cambalhotas e malabarismos. Comia fogo, canivetes, tesouras. Assim, ganhava uns trocados. Um dia, final de tarde, postou-se junto à vitrine de uma lanchonete. Foi quando suspeitaram que fosse bandido. Olhava os doces e bolos confeitados, empadinhas e pastéis. As glândulas salivaram. Com a fome nos olhos e a boca babando, Cristinho apalpou os bolsos rasos da bermuda. Ouviu o tilintar das moedas arrecadadas nas últimas mogangas. Tinha comido tesouras no último semáforo. Retirou as moedas do bolso e pensou quero comer brigadeiro. Mas não houve tempo. Um jato de sangue jorrou-lhe das entranhas e as moedas tilintaram no chão. Rolaram ladeira abaixo, alegres. Para Cristinho, já não mais valiam. Seu corpo deu entrada no IML, sem identificação, sem sinais especiais, sem dono. Pensaram que era bandido. Serviu de exemplo nos noticiários de televisão. O rosto morto foi capa de revista policial. Tarjas pretas cobriram-lhe os olhos desbotados, envergonhados. Cristo Redentor era menor de idade idade, um menino ainda. Em casa, sua mãe esperou a noite inteira. Não sabia que Cristo jazia, frio, numa gaveta de frigorífico.







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