PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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Preces e orgasmos dos desvalidos (contos)

Arquitetura de um abandono

(contos)




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29 Maio 2009




VIVA BARRETO


“Dôra, você está elegante neste seu traje amarelo, tom sobre tom.” Foi assim que Barreto me cumprimentou logo que desci do carro na porta da Escola Aruanda, nesse último sábado passado. Entre risos e brincadeiras, dirigimo-nos ao recinto da reunião do Clube do Conto.



Fizemos reunião normal, como se nada fosse acontecer que nos alterasse a rotina do dia a dia. Discutimos um pouco sobre literatura, um pouco sobre essa fase de refluxo do grupo e sobre a hipótese de buscarmos outro lugar para reuniões. Barreto ponderou as coisas com a serenidade que lhe foi sempre muito peculiar.



Chegamos a ler dois contos. Valéria leu o seu “Platéia”, eu li o meu “Uma tia misteriosa”. Durante todo o tempo que estive lendo meu conto, Barreto, como sempre costumava fazer, acompanhou a leitura com atenção e sua caneta riscou, sublinhou, anotou ao lado, sugeriu. Ah, Barreto, essa era uma de suas marcas, o companheirismo. Sentirei falta disso.



Eu gostava de chamar Barreto de "meu galã preferido", fazendo alusão à sua semelhança física com um ator chamado Edward G. Robinson, do cinema antigo. Notava-se que expressava sua boa vaidade com um discreto ar de riso. Barreto vai fazer falta às estranhas criaturas do Clube do Conto.




Geraldo Maciel, este era seu nome de cartório, foi o editor de meus três livros. Meu quarto livro estava em suas cuidadosas e meticulosas mãos para a edição.



Não sabíamos, mas naquele último sábado, Barreto estava se despedindo de nós, do Clube do Conto, sem nos dizer que viajaria no dia seguinte, domingo, às 10 horas da manhã. Já era noitinha quando encerramos a reunião e nos nos dissemos até logo. Despediu-se sem estardalhaços, assim como nos amou, sem alardes. Foi equilibrado, sóbrio, ponderado, inspirou confiança em todas as empreitadas que abraçou.



No que teria pensado Barreto em seu último e rápido instante? Na família? No apartamento novo? Nos amigos? Na literatura? No Clube do Conto? Nunca se vai saber. Agora, está dormindo. Que tenha um sono tranquilo.





Viva Barreto, sim.



Dôra Limeira





24 Maio 2009

UMA TIA MISTERIOSA



Quando eu era criança, tia Pepina administrava um hotel chamado Hotel Américo Vespúcio, que ficava perto do Teatro Sanhauá. Importante na época, o hotel hospedava gentes de destaque do Estado e até do país. Tia Pepina era pessoa exótica aos meus olhos de menina. Todo dia eu passava na porta do hotel a caminho da escola primária. Havia a recomendação explícita de minha mãe no sentido de que nem eu, nem nenhuma de minhas irmãs e nenhum de meus irmãos entrasse ali. Tia Pepina era separada do marido, dizem até que morava com outra pessoa. Ora, na década de 50, uma mulher separada do marido viver com outro homem representava o cúmulo da transgressão. Nós, a meninada, tínhamos muita curiosidade de conhecer o hotel de Tia Pepina, vontade de ver as coisas, de saber como era por dentro. Em nossa fantasia, o hotel devia ser grã fino. Tia Pepina era magrinha, desenvolta no andar e no conversar, assim ouvi dizer. Falavam que gostava de se maquiar ao modo de Carmem Miranda. Usava pulseiras e colares, balangandans coloridos, vários anéis. Arrumava os cabelos lisos em "trunfa", coisa muito em voga naquele tempo. Tia Pepina era figura que habitava o imaginário da meninada de meu tempo, mulher misteriosa. Eu cheguei a vê-la uma única vez, infelizmente quando já muito doente, perto de morrer, num hospital. Pálida e alquebrada, tinha-se-lhe estrangulado uma apendicite. Seu estado de saúde era grave, diziam as enfermeiras. No dia que eu a visitei com minha mãe de criação, fazia muito calor. Tia Pepina se agoniou, agitada e ofegante. Eu era criança ainda, mas percebi-lhe o desejo de dizer alguma coisa. O mormaço se tornou insuportável naquele momento. Minha mãe se chegou mais para perto de seus lábios tentando ouviu-lhe os sussurros. Mas, asfixiando-se, somente houve tempo de Tia Pepina dizer: “O ventilador, o ventilador, liguem o ventilador”. Veio a óbito sem saber que o ventilador
estava quebrado, faltando uma palheta, sem turbina.
(a ilustração foi tirada do site








13 Maio 2009

RÉQUIEM




Eles sofreram demais. Catapora, bexiga, maus vizinhos e falatórios. Sofreram crises de verminoses, meninos chorando com dor de ouvido. E entoaram a ladainha: “Não é nada, não é nada, um dia seremos ditosos”.



Perderam a casa própria, contrairam doenças malignas. Sofreram epidemias de tédio e dores de parto. Cansaram-se em filas da previdência. “Não é nada, não é nada, um dia seremos ditosos”. Depois de muitos responsórios e tantos padecimentos, assistiram quando os filhos se drogaram e a filha virou puta.



Já velhos e muito doentes, aposentaram-se. Não suportando os espasmos, gemeram os últimos estertores.
Mataram-se sem réquiens e sem ladainhas e reviraram os olhos.



(do meu livro O Beijo de Deus, ed. Manufatura, 2007)







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