PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

LIVROS PUBLICADOS

Preces e orgasmos dos desvalidos (contos)

Arquitetura de um abandono

(contos)




ÚLTIMOS POSTS

<?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-micr...

REPITAM COMIGO: EU SOU FELIZ. EU SOU FELIZ. Era...

OS DESPERDÍCIOS DE DÔRA Ramon Limeira Sobr...

ARRUME MINHAS COISAS QUE ESTOU VOLTANDO.<?xml:...

OS GEMIDOS DE DÔRA Tem gente que sai para...

OS GEMIDOS DA RUA A contista paraibana Dôr...

AOS QUE VISITARAM ESTE BLOGUE NOS MESES DE JUNHO,...

LÍRIOS NO TABLADO Era Maria de Fátima, mas tod...

ABENÇOEM O LEITO DA MINHA CAMA. Hoje é meu aniv...

PARTO NORMAL Doutor, prouvera a Deus que não nas...



31 Julho 2009




SALIVA MÁGICA


Nossa Senhora, eu acordei mais triste. Ontem tive muito trabalho, fadiga e contrariedade. Doem-me as pernas, cansadas. Hoje eu preciso falar com você, senhora. Alguma coisa me oprime, me sufoca, algo parece me enfartar. Mais uma vez venho lhe pedir, minha mãe, que me cubra com sua túnica de amor, aquela túnica que Deus lhe deu de presente. Aqui estou eu, mãe, pedindo proteção.



Hoje quero seus olhos olhando para mim, e que você veja o quanto estou sofrendo. Guarde-me na mansidão de seus olhos. Eu preciso dessa paz.



Meu corpo está ferido. Tenho hematomas por todos os lugares, chagas que adquiri no meu caminhar sobre pedras. Mãe, sare-me as feridas, basta que você me toque com os dedos molhados de saliva. E aliviará minha dor e eu suportarei meu desígnio, minha sina. Mãe, umedeça com sua saliva a sola de meus pés. E agüentarei pisar nos espinhos que a mim estão reservados. Senhora, que minha caminhada não seja tão abruta que eu não possa vencer. Que os abrolhos não sejam tão ásperos que eu não possa resistir.



Se ao longo da minha vida guardei mágoas, se o ódio invadiu meu coração deixando-me sufocado, eu lhe peço, mãe: ajude-me a remover mágoas. Meus ódios e ressentimentos são facas de dois gumes. Se ferem os outros, a mim têm ferido muito mais.



Nossa senhora, quero lhe falar como se fosse a última vez. Ajude-me a pedir perdão a quem fiz sofrer. Dê-me a humildade necessária. Não suporto o remorso e a culpa. Ajude-me, senhora.



Não sei o que me espera daqui para diante. Mas, se a dor for muito grande, se meu corpo se curvar e se contorcer sob o peso da tristeza, proteja-me, mãe, contra desesperos, delírios e vontades de morrer. Faça de conta que não cresci, que ainda sou menino, que preciso do seu colo e do seu manto para me cobrir.



Se, no futuro, meu lenho for muito mais pesado, se meu corpo se vergar de dor, não permita que seja em definitivo. Peço-lhe a misericórdia de aliviar esse peso e de reerguer meu corpo. Minha coluna dói aos pensamentos da cruz.



Meu coração não comporta mais tanta taquicardia. Há momentos em que dispara. Fiz muitos eletrocardiogramas, todos dizem que estou doente. Minha mãe, tenho medo de infarto, tenho medo de entrar em pane. Cuide do meu coração. Não permita que eu morra antes de ter me reconciliado com a vida.



Mãe, tome conta do meu destino. Tome conta do meu caminho, da minha vida. Jogue a luz do seu olhar por onde devo seguir. Meu caminho tortuoso e minha vida desregrada me trazem prazeres efêmeros e dores prolongadas, quase insuportáveis. Mãe, quero a luz do seu olhar como se fosse uma lanterna a clarear por onde devo passar. Ajude-me.



Se eu ainda tiver que chorar muito, que não me afoguem as lágrimas. Enxugue-me os olhos, mãe, com seu lenço mágico. Ponha seus dedos molhados de saliva sobre meu olhar lacrimejado e sentirei alívio. Oh, mãe, traga de volta minha fé em Deus. E acalme as batidas do meu coração.



Quando vejo seu andor passando nas ruas, percebo a multidão de aflitos que clamam pela sua misericórdia. São tantos os desenganados, mãe. Uns pedem a cura do corpo, os cegos, aleijados, surdos, mudos e tantos tantos. Outros pedem a salvação da alma, outros pedem paz para seus lares e para o mundo. São tantos, mãe. Mas todos pedem misericórdia, de joelhos. Pedem que você estenda suas mãos sobre a humanidade. Que você molhe os dedos com a sua doce saliva e passe-os sobre o mundo inteiro. E que não haja mais guerra. Que não haja mais fome. Que o operário segure e goze o resultado de seu trabalho. Que todo mundo acorde todos os dias e vá para o trabalho, sem medo do desemprego. Que o homem do campo tenha terra para trabalhar e usufruir de sua lida. E assim tenham a mesa farta de frutas, verduras, legumes, cereais. Comovido, eu contemplo a procissão. Escuto a multidão cantando “Nossa Senhora, me dê a mão, cuide do meu coração, da minha vida, do meu destino.” Ave, Nossa Senhora.



Como é bom conversar com você, mãe. Que alívio. Obrigado por me ouvir.



(Texto inspirado na letra da música “Nossa Senhora”, de Roberto Carlos.) – do livro “Preces e Orgasmos dos Desvalidos”, de Dôra Limeira








25 Julho 2009

ANTIGUIDADES
No Recife de antigamente, todas as casas se parecem com a casa dos meus ancestrais: sobrados solenes, portas e janelões pesados, e esses meus pensamentos sonolentos. Apoio-me ao parapeito da janela, e ponho-me a refletir sobre meus cabelos, minha pele amorenada e minhas idéias de antiga espécie. São idéias tão remotas quanto são antigas as casas da Rua Soledade. Na desordem de meus cabelos passeiam piolhos, cismas e meditações aposentadas. Aqui neste cenário carcomido pelo desuso, somente é novo o produto com o qual polvilhei o couro cabeludo: inseticida em pó Neocid. "Mata pulgas, carrapatos, piolhos".


Dôra Limeira


(do meu livro “O Beijo de Deus”, contos)





23 Julho 2009



QUEM É RENAN?




Caríssimo Renan, você me proporcionou um prazer enorme quando visitou meu blogue e deixou seu comentário sobre “Otila”. Para mim, foi surpreendente, já que o blogue não é divulgado, poucas pessoas sabem de sua existência. Não faço a mínima idéia de como você teria acertado com o acesso a ele.



Pro meu bem ou pro meu mal, não sei quem é você, onde mora, sua idade. Não sei ao menos se você se chama Renan. Muitos usam nicks para disfarçar a identidade na imensidão dessa internet. Não me importa como você se chama, se é Renan, Ramon, Ranieri. A coisa mais significativa é que você existe e, o que é mais importante para mim, que você tenha deixado, no meu blogue, suas observações por sinal, pertinentes, algumas. Confesso que me envaideci, considerei que, pelo visto, minha escrita está repercutindo. Creio que seu não envolvimento afetivo comigo contribuiu para um posicionamento mais objetivo. Se você me conhecesse e a mim tivesse especial estima, quem sabe seria outro o teor de seu comentário. Por acaso, ainda bem que você não me conhece nem tem por mim especial estima.



Lendo suas observações, tive a impressão de que você não é uma pessoa corriqueira. Achei que se trata, ao contrário, de uma pessoa familiarizada com o metiê literário, talvez um escritor, crítico literário, poeta ou pessoa ligada ao universo da literatura. No mínimo, trata-se de um intelectual ou de um leitor atento, uma pessoa cult. Concluindo, quem quer que você seja, muito obrigada.



Para não me alongar mais, devo lhe dizer e parece que você pressentiu: Este texto – Otila - foi um dos que mais me machucaram no ato de escrever. De fato, situações muito pungentes me comovem, mexem com meu diafragma, me “partem” (para usar uma expressão de um amigo que tenho em João Pessoa).



A você, Renan (ou qualquer que seja seu nome), dedico toda a emoção que experimento agora ao escrever estas palavras de gratidão.



Cordial abraço de



Dôra Limeira



(a ilustração do texto foi retirada de
linha-vermelha.blogspot.com/2007_11_01_archiv...





18 Julho 2009



CLICHÊS DOS DRAMAS COTIDIANOS



(dedicado às vítimas de quaisquer preconceitos)



Ultimamente tenho pensado em mim, na minha família, principalmente no meu filho mais novo, 15 anos. Aproveito que estou sentada neste vaso sanitário tentando vencer a prisao de ventre que vez em quando me acomete, para me avaliar e refletir sobre as coisas ao meu redor. Eu sou uma boa pessoa, tenho um coração de mãe. Sou casada, meus seis filhos hoje estao todos crescidos. Os dois mais velhos chegaram à universidade, os outros nem terminaram o segundo grau. Para criar meus filhos, quase me matei em cima de uma máquina de costura, agulhas de bordar fizeram calos nas pontas dos meus dedos. Fui costureira e bordadeira durante muitos anos, hoje sou rica das graças de Deus. Meus filhos sao meus verdadeiros tesouros. Sou negra de alma branca, não nego minha raça. Frequento a igreja católica, participo de grupos de oração e tenho muita fé em Deus. Sobre meu marido, tenho a refletir que é uma pessoa incompreensiva, às vezes arrogante. Não era desse jeito, mudou com o passar dos anos. Na opiniao dele, lugar de mulher é na cozinha. Implica comigo porque sabe que adoro ficar junto dele assistindo televisao na sala. Essa sua atitude me faz chorar a bandas largas, como diz minha vizinha. Meu marido é funcionário público estadual, metido a importante. Conhece todo mundo no bairro, conhece os politicos da cidade, tem amizade com alguns deles. Eu aconselho, tenha cuidado, que todo politico calça quarenta e é ladrao. Se hoje os politicos dão mel, amanhã eles darão fel. Meu marido não me escuta, faz ouvido de mercador. Parece até que falo pra banda mouca dele. Não conheço ninguém que seja tão malouvido assim.



Hoje levantei cansada, deve ser porque fumei no decorrer da noite, escancarada. Acordei indisposta e disse a meu marido preciso do carro, quero ir ao extremo da cidade comprar uma coisa que vi no Bairro dos Excepcionais. Meu marido é machista, imagine o que ele me disse. Não senhora, apanhe o onibus circular, é mais seguro, confortável e barato. Mas eu estava cansada e insisti com ele. Foi então que ele me falou assim. Tenha cuidado, choveu a noite toda, os asfaltos estão bem molhados. Se você não tiver cuidado, os pneus podem derrapar. Eu respondi você me conhece, sabe muito bem que nunca fiz barbeiragem. Ele me respondeu entre resmungos hum... mulher no volante é um perigo para a sociedade. Eu não me incomodo, já me acostumei depois de tanto tempo de casada. Ruim com ele pior sem ele, foi o que escutei minha mãe dizer desde eu criança.



Nosso filho mais novo, 15 anos, está numa fase dificil da vida. Adolescente arrogante, grandalhão, a voz indefinida. Lidar com ele não é um mar de rosas. Pra completar, ultimamente anda esquisito, isolado, passa horas trancado no quarto. Os amigos de infância não mais o procuram, nao perguntam mais por ele. Ontem dois rapazotes estranhos vieram chamá-lo para uma festa. Notei trejeitos fora do comum nesses rapazotes, gestos delicados, vozes requintadas. Fiquei desconfiada. De repente, me bateu o pensamento de que esse meu filho nunca se interessou em procurar uma namorada. Muitas meninas deram em cima dele, mas nada, ele sempre se esquiva. Eu não disse coisa nenhuma a meu marido sobre esse assunto. Do jeito que é machista, metido a galo cego, é capaz de querer bater em nosso filho. Tenho muito medo disso. Parece que o escuto dizendo seja homem, cabra. Preciso conversar com meu marido com calma, tentar convencê-lo de que nem tudo está sob nosso controle. Preciso ensinar-lhe uma oraçao que aprendi num grupo de oração: Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras.



Mal termino este pensamento, escuto o vozeirão do meu marido gritando no quarto do nosso filho: Você não é homem não? Seja homem, seu cabra. Tome, tome, tome, pra você deixar de ser menininha, eu criei você pra ser macho. Uma pancadaria surda eclode. Cólicas intestinais me mordem as vísceras. Encolhida sobre o vaso sanitário, eu fecho os olhos e tento balbuciar Deus, concedei-me a serenidade necessária.


(a imagem foi colhida no blogue
adolescentegay.blogspot.com/)





16 Julho 2009





GEMIDOS DE ANJOS





Ela é viúva sem filhos, católica praticante, funcionária pública aposentada. Desde muito nova usa cores neutras, sapatos fechados, bolsa preto-acinzentada. Nunca foi elegante nem atraente. Tem os olhos enturvados pelo tempo, compleição franzina, rosto anguloso, andar lento. Desidratada, a pele perdeu o viço e a elasticidade de antigamente. Aos 75 anos, porém, Dona Gersina ainda costuma renascer quando alguém olha nos olhos dela. É como se ela fosse um gramado seco a enverdecer com o orvalho.



Neste domingo nublado, fim de tarde, o atendente despachou-lhe a receita médica de rotina: Aracil 50 e Masiox 40 mg. Seguindo a recomendação médica, nessa idade, Dona Gersina tenta controlar pressão, peso, compulsões e perversões íntimas. Precisa controlar seu olhar embaciado sobre o rosto do atendente de farmácia, 22 anos, aproximadamente. Mais alguma coisa, senhora? Ela enrubesceu feito adolescente e, em voz baixa, solicitou: Creme hidradante vaginal, de preferência Calastrion. O moço atendeu com presteza profissional. Pronto, senhora, dirija-se ao caixa. Ela insistiu em fitar-lhe a boca e os olhos. No momento de receber a nota para pagar no caixa, seus dedos roçaram os dedos do rapaz. Dona Gersina experimentou um calafrio de que há muito não lembrava.



Na noite deste domingo, recolheu-se mais cedo. No aconchego de seu quarto, a portas trancadas, ela se despiu e lubrificou todo o corpo. Muito excitada, fez o creme hidratante passear em suas dobras e esconderijos. Massageou-se, friccionou-se, agitou-se. Em seguida, deitou após apagar a lâmpada. Foi tamanha a felicidade, que Dona Gersina não rezou uma única Ave Maria, como costumava rezar antes de dormir. Gemeu e disse meu Deus, meu Deus, meu Deus. Pensou no moço da farmácia, 22 anos, mais ou menos. Os vizinhos confabularam que velha safada, nunca escutamos tantas baixarias numa só noite. Mal souberam os vizinhos que, nesta madrugada, Dona Gersina era um jardim viçoso por sobre o leito, com folhas e grama, tudo muito reflorido. Ali mesmo ela se abandonou e adormeceu. Um anjo velou-lhe o sono e a transgressão. Cuidadoso, apanhou um cobertor e aninhou-lhe o corpo banhado de prazer. Foi aí que o Criador se embeveceu e pensou com os próprios botões: como são perfeitas as minhas criaturas.



Dôra Limeira





10 Julho 2009

VINGANÇA.


Dentro daquele latifúndio, filhos, agregados, empregados e cachorros, todos tinham medo de Petúnia, arrogante dona da terra. Naquele dia, pela manhã, Petúnia recusou ajuda para descer a escadaria e sua vista escureceu. O corpo despencou degraus abaixo. A quina de cada batente esmurrou sua cabeça. No hospital, constataram-se várias fraturas cranianas e morte cerebral. Petúnia tinha 86 anos. A família autorizou o desligamento dos aparelhos. Duas noites depois, aconteceu ruidosa festa no latifúndio de Petúnia. Uma orquestra animou o baile. Filhos, parentes, agregados, empregados, cachorros e meninos, todos dançaram, sem medo. Petúnia se aninhou na eternidade e não soube de nada.



Dôra Limeira



(do meu livro de mini contos “O Beijo de Deus”, Ed. Manufatura).



(a imagem foi recolhida do blogue adivinha.blogs.sapo.pt)







<< Home