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30 Agosto 2009
ABENÇOEM O LEITO DA MINHA CAMA.
Hoje é meu aniversário. Eu quero que todos estejam em minha casa. Forrem a mesa de aniversário com aquela toalha branca que desde muito tempo usamos em nossas festas de Natal e Ano Novo. Sim, aquela mesma toalha que me foi dada pelo meu filho. Hoje eu quero uma torta de abacaxi muito enfeitada com calda de caramelo por fora, com recheio de creme de maracujá. Uma travessa de frutas coloridas deve ornamentar a mesa e deve ser servida ao longo da comemoração. Quero a presença das vizinhas nessa festa, elas me têm grande apreço e sempre me foram prestativas em minhas necessidades. Para mim, é importante que meus filhos se acheguem junto à torta no centro da mesa e soprem a vela, com entusiasmo. É uma homenagem que estarão me prestando hoje, que estou completando 67 anos de vida. Estarei feliz se todos os meus familiares e amigos cantarem “Saudemos o grande dia que tu hoje comemoras. Seja a casa onde moras a morada da alegria, o refúgio da ventura. Feliz aniversário”. Quero Adeildo Vieira entoando “Companheiros, cruzem a porta da minha casa. Encham a sala de sorriso e de suor. Abençoem o leito de minha cama. No jardim, podem pisar na grama, sei que não pisam na flor.” Na festa de meu aniversário, eu quero meus sobrinhos tocando violão, cantando as músicas de que gosto. Que Francisco Limeira e Ana Regina cantem “Samba sem bem”, cantem “Talo de capim na minha boca”. Não esqueçam de cantar “Fogão de lenha”, em alto e bom som. São tantas as músicas, que chego a não lembrar de todas. Façam de conta que estou presente, recebendo os cumprimentos, solfejando as canções que sei solfejar, sendo abraçada e abraçando todos. No momento em que meus filhos estiverem achegados junto à torta de abacaxi para o sopro da vela, estarei perdoando a todos os familiares e amigos que, direta ou indiretamente, me ofenderam no decorrer dos tempos. Fiquem certos de que meu perdão será muito maior. Ao mesmo tempo estarei, em espírito, pedindo desculpas aos que magoei em algum momento da vida, atingindo-os com minhas palavras, pensamentos e ações. Agradeço de coração aos que puderem e quiserem atender a meu convite para participar da minha festa. Desejo que, por um fenômeno telepático qualquer, eu possa perceber as coisas que deverão acontecer. Que eu possa escutar as canções, ouvir as mensagens de parabéns, os aplausos. Que eu possa ver os sorrisos estampados nas faces de meus filhos, dos demais familiares e dos amigos. Se assim estou me expressando, é porque não sei o que me acontecerá amanhã. Neste leito de hospital, sem fala, sem mobilidade, com essa respiração artificial, alimentando-me através de sonda, eu não sei de nada. Não sei se vivo, não sei se morro. Não sei se durmo, se acordo. Tudo que eu quero neste momento é um copo de suco de laranja.
(Homenagem a Maria José Limeira que está aniversariando hoje, 30 de agosto)
Dôra Limeira
17 Agosto 2009
PARTO NORMAL
Doutor, prouvera a Deus que não nasça aleijado, feio ou ruim. Coitadinho. Veja, doutor, se os dedinhos estão perfeitos. Olhe, estão perfeitos? Ah, ainda bem. Esse exame que o senhor está fazendo mostra se ele é homem? Mostra o pinto em perfeito estado? E as bolinhas? Ai, meu Deus. Minha vizinha deu à luz uma criança com uma bola somente. Deus me livre. Deus o livre. Doutor, estou sofrendo tanto. Imagino mil coisas para ele. Que seja bonito, admirado por todos, que seja inteligente. Que fale, que escute e que ande. Ai, doutor. Tinha me esquecido. Faça que não sinta dor quando nascer. Deixe a dor para mim, que sou mãe. Ele é tão pequeno ainda. Falta muito tempo para nascer? Quanto tempo, doutor? Não suporto mais esperar. O que está faltando? Tive dores esses meses todos. Perdi várias noites de sono. Faltou-me apetite. Tive enjôo. Eu só tinha pensamentos para ele. Todos os meus amigos e amigas esperam. Estão preparando uma festa. Coquetel, muita gente, música, um momento engalanado. Doutor, será que ele nasce perfeitinho? Ai, que dor. Veja se dá para apressar. Ele cresceu tanto, está incomodando aqui no pé da barriga. Coitado, deve estar tão apertadinho. Já não sabe onde colocar as pernas, os braços, seu corpo se contorce. Que espasmos são esses, doutor? Tenho medo que ele perca a respiração. Doutor, quantas horas, quantos minutos? Está doendo. Preciso de um anestésico. Preciso dormir. Não posso tomar anestésico? Me faça dormir, então, doutor, cante uma canção que me embale. Penso no rostinho dele, tomara que pareça comigo. Não sou bonita, mas também não sou tão feia. Fiz minha parte para que tudo saísse normal. Tentei protegê–lo de sustos, sobressaltos. Esforcei-me para que não se contagiasse com minhas gripes, minhas mazelas, minhas feridas. Eu quero que nasça normal. Que não seja cego, mudo ou surdo. Que não seja aleijado. Deus o livre de surdez, de cegueira, de aleijão. Deus me livre. Aaaaaahhhhhh! Nasceu! Está chorando!
(Agonia e pensamentos de uma escritora, sentada diante do técnico da editora, esperando a edição do seu primeiro livro).
Dôra Limeira
11 Agosto 2009
 O PARÁGRAFO DA HORA DA MORTE, AMÉM.
(Comentário de Ramon Limeira)
Dôra, preciso fazer algumas observações sobre nosso conto “Duas rubricas e um ponto final”. Depois que você revisou, eu fiz mais umas alterações no texto. A mais importante delas foi mesmo naquele parágrafo que descreve a situação de cada um dos pacientes à hora da morte, amém. Não sei se você vai querer discutir a versão definitiva para esse parágrafo. Se quiser, tudo bem, embora eu tenha gostado muito da forma atual. Veja bem: eu imaginei o mundo e a época em que ocorrem esses procedimentos de eutanásia (2049) como sendo indiferente ao subjetivo, ao que há de particular em cada ser humano, à singularidade que dá autenticidade às emoções. Esse mundo não estaria, a meu ver, interessado no último pensamento ou na última emoção de ninguém, e foi isso que eu quis ressaltar. Todos os trâmites descritos ignoraram as pessoas, suas dores e prazeres únicos, uma riqueza que está inacessível aos aparatos tecnológicos mais avançados. O parágrafo em questão faz um contraponto a todos os outros, antes e depois dele, porque humaniza os pacientes, ao tratá-los em sua singularidade, e não, como siglas e números de identificação. A meu ver, para mantermos a coerência do texto, isso não pode ser feito por nenhum instrumento criado com essa finalidade, ou por iniciativa do médico, da clínica ou dos familiares. Na versão anterior, havia um painel eletrônico mostrando os últimos pensamentos dos moribundos. Mas, pelo motivo alegado, eliminei o painel. Só quem viu cada paciente submetido à eutanásia em sua individualidade fomos nós, leitores, e o narrador ou narradora do conto. Só nós sabemos de suas intimidades e até da impossibilidade intransponível de saber tudo a seu respeito, como no caso da última paciente citada, sobre a qual nada se conhecerá, embora fique indicado que havia algo a conhecer que ficou perdido para sempre. Eis minha defesa do parágrafo como está. Fique à vontade, obviamente, para contra-argumentar e tentar me convencer de alguma parte que lhe pareça precisar de mudança. Olhe, eu preciso lhe dizer mais uma coisa: gostei muito dessa experiência de construir um texto com você. Espero que se repita a dose.
Beijos,
Ramon
11/08/2009

DUAS RUBRICAS E UM PONTO FINAL
(Conto de Dôra e Ramon Limeira)
Na Clínica Soft Life, doutor Mariênio adentrou seu gabinete pressurizado e sentou diante do computador. Imediatamente, a voz metálica do alto-falante wenb lembrou-lhe que precisava requisitar kits-eutanásia. O médico pronunciou "boa morte", e a tela da máquina apresentou-lhe o formulário eletrônico de requisição e uma lista dos arquivos já encaminhados. Seu braço conduziu mecanicamente à boca a xícara com café branco dinamizado, que, além de não escurecer os dentes, era cafeína-free. Sorveu-o gole a gole, degustando-lhe o sabor artificial, e autenticou o pedido dos kits com o próprio DNA, por meio de um dispositivo capaz de ler seu genoma com uma microgota de sangue. A voz difusa do computador informou a Doutor Mariênio as estatísticas atualizadas, ressaltando que, naquele dia, somente uma dúzia de procedimentos seriam encaminhados. Isso não chegaria a ameaçar o equilíbrio entre a ocupação e a desocupação de leitos na clínica. Ele remeteu o pedido dos kits-eutanásia, depois de especificar marca, modelo, doses e fabricante. Naquela mesma semana, mais precisamente no dia 20 de dezembro de 2049, doze enfermos terminais morreriam na Clínica Soft Life. Eram oito cancerosos em estado desolador - rubrica CED - e quatro idosos sem perspectivas vitais significativas - rubrica IPVS. Os pacientes tinham suas rubricas afixadas nos espelhos das camas. Os CEDs, ainda jovens, traziam nos rostos as estampas da agonia de quem nem vive nem morre, apenas respira. Os IPVS, todos acima de oitenta anos, pareciam bois desolados, olhares fixos em algum ponto, remelando. Cada doente tinha familiares muito atarefados, que pagaram à clínica para que seus hologramas fossem reproduzidos ao redor dos pacientes. Todos já tinham assinado termos de autorização, cujas cópias assinadas digitalmente seriam retidas nos servidores da clínica, para fins judiciais. Na data aprazada, consumou-se o trâmite sereno, sem dor nem culpa. No exato momento em que o procedimento foi acionado, nenhum dispositivo orgânico ou inorgânico notou ou detectou que CED20491220-1 despediu-se da vida com um bocejo, que CED20491220-2 não conseguiu armar um sorriso ao ver a filha no recinto, que CED20491220-3 recordou o inverno de leite e queijos de coalho no sertão onde nasceu, que CED20491220-4 era cego havia sete anos e vira a vida passar depressa, que CED20491220-5 sentiu um gosto doce na ponta da língua, que CED20491220-6 pensou em Deus e pediu perdão, que CED20491220-7 teve idéia para uma poesia e que CED20491220-8 quis tomar banho de mar. IPVS20491220-1 não conseguia lembrar-se do rosto da mãe, IPVS20491220-2 já estava morta, e IPVS20491220-3 perdera um filho tragicamente anos antes. A IPVS20491220-4, ninguém nunca saberá o que lhe sucedeu. Envolvidos em sacos plásticos anatômicos, com aroma artificial de flores do campo, os corpos e seus pertences foram entregues aos familiares. Doutor Mariênio comandou todo o procedimento, cenhos franzidos, competente, à frente de sua equipe de unidades médico-assistenciais computadorizadas. O médico se comportou como se fosse um monumento cinzento esquecido numa das antigas praças que tinham existido nas cidades pelo mundo. Tudo transcorreu muito asseado. As pessoas falecidas jaziam, despidas e ainda moles, dentro daqueles invólucros. Os músculos, tecidos e toda a massa corpórea ainda se quedavam flexíveis, por um processo químico que evitava o apressado enrijecimento e adiava por um bom tempo o advento do mau cheiro característico. A clínica tudo previa. Os parentes assinaram comprovantes de recebimento, conforme exigência da lei e da instituição hospitalar em apreço. Coletivo e mecânico, o velório aconteceu num único ambiente, programado por computador. No recinto funerário fechado, os familiares se entreolharam e as lágrimas irromperam, sob efeito de lacrimogêneos sprays aspergidos em volta dos doze ataúdes. Aqueles que não puderam comparecer encomendaram na loja virtual da funerária carpideiras eletrônicas, que diziam o nome do cliente e choravam um choro de comover acetilenos. O monitor de cem polegadas instalado acima dos caixões mostrou o perfil de cada um dos falecidos no Orkut, com mensagens de saudades eternas e dores infindáveis. As flores de fibra óptica, organizadas em guirlandas, exalaram odores de essências industrializadas, e as velas eletrônicas, sem cheiro nem fumaça, arderam frias sob o ar condicionado enregelante. Na hora do enterro, como previamente programado, acelerou-se o procedimento. Potentoso e solene, um carro funerário revestido de tecido sintético cor cinza abrigou e conduziu os doze ataúdes. Os familiares seguiram em automóveis últimos modelos ultraleves, equipados de sons apropriados para a ocasião. Ao longo do trajeto, réquiens de Mozart deram o planejado tom de tristeza ao comboio. O desfile fúnebre se desenrolou sob um Sol ardente, diante dos olhares indiferentes das ruas. No Shopping da Paz, onde seriam sepultados, enfileiravam-se doze urnas encravadas ao solo, feitas de alumínio misturado com urânio e cimento armado. Obedecendo ao disparo de um dispositivo eletrônico, as urnas abriram as bocas automáticas para receber os corpos. Os familiares tinham urgência de voltar aos seus afazeres e compromissos do dia a dia. Mal houve tempo de um último adeus aos ataúdes. Sob a ordem de um novo disparo automático, as bocas das urnas se fecharam herméticas, tragando os cadáveres, para sempre lacrados. (a ilustração foi colhida em oglobo.globo.com/mundo/mat/2009/03/24/idosa-b...
09 Agosto 2009

AVE MARIA, MEU AMOR *
Ave Maria cheia de graça, tão bonita. Você tem um jeito infantil de me olhar, jeito tranqüilo de sorrir, sereno como a eternidade. Você não está comigo, e eu quero tanto seu amor. Cada vez que você sorri, eu a vejo mais distante. Sobretudo e mais que tudo, ausente. Esperei todos esses séculos. Esperarei outro século, se for preciso. Maria, você será muita coisa para mim. Será meu sorriso, meu grito, meu choro. Será minha dor, meu alívio, meu orgasmo. Você será Maria, cheia de graça.
Não me importo se você é sagrada. Só sei que amo você com o amor que é todo meu, assim tão meu. Este meu amor profano, amor que espera a hora de desabrochar em secreções. Santa Maria, perdoe-me se estou violentando a entrada do seu nicho, este recanto onde você se guarda. É que tenho pressa. O amor não espera. Tão cedo pode vir, tão cedo pode ir.
Maria, venha junto a mim. Não tenha medo. Solte os cabelos, desvencilhe-se do manto. Adivinho as curvas do seu corpo sob a túnica azul. Pressinto cada dobra dos seus braços e das suas coxas. Adivinho a cor e o perfume dos seus cabelos. Não tenha medo, Maria. Quero me guardar dentro do seu nicho sagrado para ficar mais perto de você. Deixe-me sentir os sopros quentes de sua respiração, ouvir-lhe os suspiros, aliviar seus medos.
Maria, você é tão mulher. Minha santa virgem, eu sou tão homem. Olhe para mim, veja. Toque meu corpo, minhas saliências intumescidas. Amar faz bem, Maria. Quando a gente não ama, a pedra fica fria. A terra fica mais dura, se a morte vem antes do amor. Sem amar, a carne é triste e sofre por morrer. Venha sem medo de pecado. Permita que eu me aninhe entre suas vestes, sob esta túnica secular, tão antiga. Só preciso de carinho. Você também precisa de carinho.
Permita-me um leve toque, apenas um toque nos seios. Você não vai morrer por isso. Meus pensamentos perfuram sua túnica e alcançam os bicos dos seus seios cor de rosa. Faz séculos que você está dentro deste recinto de cetim, sempre com as mãos postas e os olhos desolados. Séculos de solidão e de espera. Deixe que eu adentre seu sacrário. Permita-me chegar junto a você. Santa Maria, experimente o toque dos meus dedos nas partes mais recônditas e sagradas do seu corpo. E não se arrependerá.
Percebo sua vacilação e seus frêmitos. Venha, Maria, não tenha medo. Vejo seus olhos mortiços , olhos tão lânguidos, aceitando meu convite. Você não resiste mais. Esperou séculos por mim. Maria, eu lhe peço que se liberte da eternidade. Nu, eu adentro seu recinto. Você me suplica para que eu feche a porta. O nicho é escuro por dentro. As paredes são macias, alcochoadas e forradas de cetim. No escuro, percebo seu corpo se despojando da túnica e do manto. Maria, eu amo você. Meu corpo e seu corpo se contorcem e se rasgam de paixão. O amor desabrocha em secreções que matam nossa sede. E nos bebemos. E nos sugamos. E nos comemos. E vemos como tudo é sagrado. Faz tempo que tudo é santo, e não sabíamos. Ave Maria, cheia de graça, tão bonita.
* Do meu livro Preces e Orgasmos dos Desvalidos”. (Texto inspirado no poema musicado de Francis Hime, “Ave Maria”)
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