PERFIL

Nome: Dôra Limeira

Local: João Pessoa, Paraíba, Brazil





 

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Preces e orgasmos dos desvalidos (contos)

Arquitetura de um abandono

(contos)




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07 Setembro 2009


AOS QUE VISITARAM ESTE BLOGUE NOS MESES DE JUNHO, JULHO E AGOSTO/2009.



À boa amiga Tere Tavares, que por duas vezes esteve em minha cidade, grata por ter visitado este blogue mais uma vez. . Em nosso encontro presencial conversamos muito, sobre literatura, sobre a vida e principalmente sobre abobrinhas que ninguém é de ferro. Muita grata mais uma vez, Tere, por ter vindo, por ter visitado o Clube do Conto. Grata pelo seu comentário aqui no meu blogue. Abraço.
Dôra Limeira



Pedro Luís (Lêla), muito agradecida pela sua visita ao meu blogue. Estou feliz por você ter gostado desta minha homenagem a Maria José, que é uma pessoa significativa para você e para todos nós da família. Abraço.
Dôra Limeira



Assis, estou muito comovida de ver você visitando este blogue e de ver você interagindo da forma mais linda: através de poema. Sem outras palavras, muito agradecida. Abraço amigo.
Dôra Limeira



Eis você de novo, Renan, criticando o conto sobre ficção cientifica, que fiz em parceria com o meu primo e amigo Ramon L. “Duas rubricas e um ponto final” foi um texto que demandou algum tempo para ser concluído e, de minha parte, me causou alguma dor ao escrevê-lo. O Ramon L. tem muita facilidade na escrita, mostrou-se um grande parceiro. Transmitirei ao Ramon L sua opinião que certamente o lisonjeará.
Abração.
Dôra



Lice Soares, muito prazer ver você aqui no meu blogue, lendo, comentando. Não sei quem é você. Não sei onde mora. Mas antevejo em você uma boa tendência para escrever. Continue assim. Venha mais vezes ao meu espaço, será uma alegria enorme recebê-la. Beijo.
Dôra



Meu bom Renan, você é uma pessoa com quem me comunico muito bem sem ao menos conhecê-lo. Não me considero uma deslumbrada pela internet, mas devo reconhecer que, em alguns casos, a internet tem aproximado algumas pessoas. Quanto ao seu comentário ao meu “Parto normal”, eu me surpreendi. Sabe por que, Renan? Porque, eu particularmente, não gosto desse texto. Depois que li seu comentário, reli várias vezes, buscando encontrar nele alguma beleza. E não é que achei? Muito obrigada por tudo. Continue me analisando, criticando, comentando, usando dessa acuidade que lhe é pertinente. Eu gosto de pessoas exigentes assim. Muito obrigada, Renan. Abraços.
Dôra Limeira




Mainieri, meu querido poeta gaúcho. Estamos aqui esperando que você repita a dose e venha nos visitar mais vezes. Você, como sempre, adentrando as vísceras de meus textos e personagens. Muito grata, Mainieri. Gratíssima. Beijo.
Dôra





06 Setembro 2009

LÍRIOS NO TABLADO




Era Maria de Fátima, mas todos a chamavam de Sebinho. Corria o ano de 1951, quando Sebinho chegou à cidade grande. Não tinha nem doze anos ainda. A mãe era pequena agricultora, Sebinho era órfã de pai, tinha oito irmãos. Desde cedo acostumara-se com todas as vidas difíceis no interior, vidas divididas entre securas, enchentes, dias frios, dias quentes. Na cidade grande alojara-se em casa da tia Lolina, num lugar estranho, pessoas enigmáticas. A casa da tia ficava perto da estação de trem e da estação de ônibus, locais movimentados, pessoas embarcando, desembarcando, menino chorando de dor, de fome, desmaiando sem ar. Quando Sebinho chegou ao ponto final do ônibus, Lolina já a esperava, com uma bolsa a tiracolo, chupando chicletes, a blusa derreando na altura do ombro. Sebinho chegou num transporte da Empresa Mourense, ônibus velho, desmantelado.



Nos primeiros dias após a chegada, Sebinho deu de cara com uma estranha realidade na casa da tia. Levanta dessa rede, menina, cuida de tua vida. Cuidar da vida significava todo dia distribuir os panfletos de tia Lolina na rua, anunciando “as atrações do próximo sábado”. Passa um pente no cabelo, Sebinho, assoa o nariz. Que sujeira, limpa essa remela do olho. Era a ladainha de segunda a segunda, sol a sol. Quando não estava na estação de trem, Sebinho estava na estação de ônibus, distribuindo panfletos, cuidando da vida. Era magra, pernas finas, falava baixo. Perto de completar doze anos, os botões dos seios já endureciam, sensíveis. No sítio onde morava, brincando no terreiro com outras crianças, Sebinho deteve-se em si mesma e descobriu seu corpo, os cabelos, o entre coxas, as mãos, os pés, as zonas íntimas. Aprendeu os nomes dos dedos das mãos e gostava de repetir: dedo mindinho, seu vizinho, maior de todos, fura bolo, mata piolho. Desde muito pequena, aprazia-lhe lamber as mãos, calmamente sentindo o gosto salgado do suor. Mas, quando se via em situações arriscadas, quando tinha medo, apreensão, desconfiança, protegia-se sugando o “dedo maior de todos”, até que a extremidade embranquecesse e engelhasse. Sebinho experimentava prazer com aquele seu “dedo maior de todos”, percorrendo a cavidade aquosa da boca, um filete de saliva escorrendo. Deixa de chupar isso, sebosa, coisa mais feia. Tira o dedo da boca. Era como se a tia lhe fizesse um responsório a cada sugada.



Lolina tinha o corpo atarracado, pernas e braços roliços, muito hidratados. O sorriso fazia duas barrocas, uma em cada face do rosto redondo, a dentadura de plástico bem feita. Os cabelos se cacheavam na cabeça, quase encarapinhando. Tinha trejeitos naturais de atriz. Sua casa era, de fato, um pequeno e rústico teatro que funcionava todo sábado à noite. Por ser bem localizada, a casa recebia muita gente nos dias úteis. Nos sábados, o espaço lotava, porque era nos sábados que aconteciam coisas especiais. Na sala, havia alguns tamboretes toscos e um pequeno tablado redondo de cimento grosso, encimado por um letreiro luminoso que dizia assim: “Meu Teatrinho”. No cortinado de chitão do tablado estampavam-se figuras grandes, flores, frutas e dois animais selvagens, um em cada lado do cortinado. Junto ao tablado, via-se um balcão de bebidas e salgadinhos baratos, servidos à clientela por um rapaz afeminado com o avental sempre sujo de alguma coisa amarelada. Mais adiante, adentrando a casa, estendia-se um corredor estreito com luminárias fracas, ladeado por seis dormitórios, de onde saiam sons misteriosos de palavrões, gritos, risadas nervosas. Sebinho não sabia de nada e tinha medo. Menina, vá lá dentro e me traga uma vassoura, já. Para chegar até lá dentro, Sebinho atravessava o corredor, e sentia uma extensa agonia em linha reta. Usava o “dedo maior de todos” na boca como suporte, para não morrer. Na travessia do corredor de ponta a ponta, Sebinho, desesperada, só pensava em fugir, fugir, fugir, mas faltavam-lhe forças, faltava-lhe coragem. A menina dormia no último quarto do corredor, junto com a tia.



Todo sábado à noite, no descerrar da cortina de “Meu Teatrinho”, pequeno público masculino comparecia ao teatro e circulava entre a platéia e o balcão de bebidas. No tablado, Lolina, em traje mínimo, contava piadas obscenas, ria escancarada, entoava, desafinada, canções bregas com acompanhamento de um violonista e um percussionista, ambos embriagados no mais das vezes. O tablado servia exclusivamente para as exibições de Lolina aos sábados. As seis meninas subordinadas da casa atendiam aos homens nas mesas, nos quartos, nas camas. O ponto alto da função teatral era o desnudamento de Lolina que, soltando beijos e alisando os pontos íntimos do corpo, despojava-se da calcinha, do sutiã e do traje de lantejoulas em meio aos assovios, vaias, gestos obscenos e aplausos. Sebinho passava todo o tempo da função sentada no batente inferior da escada que dava acesso ao palco. Os homens assistiam os estripes de Lolina e se masturbavam na platéia, gulosos. Era nesse momento que as meninas de Lolina se atiravam em seus colos, numa esfregação de cachorros. No decorrer dos dias vendo aquilo, Sebinho se acostumara. Sentada no pé da escada que dava acesso ao tablado, Sebinho entrava num tédio de boi. Para se proteger, derreava as pálpebras e chupava o dedo “maior de todos”, até que o sono chegasse e ela se recolhesse para dormir, exausta.



Sebinho cresceu assim, entre a estação ferroviária e a estação rodoviária. Forjou seu corpo e sua alma varrendo a casa, espanando os moveis, em meio a bolinações, coitos escancarados. Preservou seu juízo chupando o dedo maior de todos, lambendo o mindinho, o vizinho, o fura bolo e o cata piolho. Lambia-se até que finalmente as pálpebras se prostravam de sono, exauridas.




Nessa lida, Sebinho tomou corpo, tornou-se moça bonita e sem estudos. Mal assinava o nome Maria de Fátima, em garranchos. Sem instrução e sem perspectivas de vida, Sebinho se quedava à mercê da tia Lolina que a explorava de várias maneiras. Ora limpava, ora lavava, ora seviciava-se nas mãos dos machos freqüentadores da casa que lhe pagavam de acordo com os serviços prestados, desde a simples bolinação até os adentramentos mais profundos.



Tia Lolina não viu quando o tempo passou, embevecida em seu palco mágico, ofuscada pelo letreiro luminoso do tablado. Não viu quando as rugas se aprofundaram, não sentiu a pele enflacidar. Cantava e dançava como se o tempo tivesse parado em 1951. Lolina não percebeu que os homens não mais a procuravam, preferindo Sebinho para suas safadezas. Com o decorrer do tempo chegou-se ao ano de 1981. O movimento do teatro decaiu, a cidade cresceu em outras direções, os trens foram desativados, a estação rodoviária mudou de lugar, foi para mais longe. A voz de Lolina se apagou gradativamente, o traje de lantejoula caiu fora de moda, o repertorio de piadas se tornou obsoleto. Lolina entrou em depressão. Um dia, chamou Sebinho em particular e confessou que estava cansada, que estava velha, sem futuro. E Lolina passou para Sebinho a responsabilidade de reorganizar a casa, gerenciar as meninas e o tablado. Numa segunda feira de movimento fraco, poucos clientes, Lolina recomendou que Sebinho não deixasse “Meu Teatrinho” morrer, que descerrasse o cortinado do tablado aos sábados e tocasse o barco. Após essa recomendação, Lolina se recolheu ao último quarto, no final do corredor e, sem fazer barulho, enforcou-se com o cinto do vestido de sua primeira comunhão. O corpo foi velado sobre o tablado, ladeado por duas velas de luzes mortiças. As meninas, trajando escuro, rodearam o caixão e rezaram, pedindo ao Senhor que tivesse piedade da alma de Lolina, que levasse as almas todas para o céu e que socorresse principalmente as que mais precisassem. Após o enterro, o estabelecimento permaneceu fechado por sete dias. No oitavo dia, a frente da casa amanheceu com uma faixa grande anunciando: “Casa do Meu Teatrinho”, nova administração sob a responsabilidade de Maria de Fátima”. Nunca mais alguém falou no nome de Sebinho. Ainda hoje Maria de Fátima chupa o “dedo maior de todos”, com medo.



Dôra Limeira







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